HUMBER 9/28 SALOON 1928: A PEQUENA GRANDEZA DE COVENTRY
Na Inglaterra de 1928, quando o automóvel começava a deixar de ser uma exclusividade absoluta da aristocracia para alcançar uma parcela cada vez maior da classe média, a Humber Limited, de Coventry, procurava preservar uma característica que havia construído sua reputação: fabricar automóveis pequenos apenas nas dimensões, mas grandes em qualidade e acabamento. É nesse contexto que surge o Humber 9/28, evolução do 9/20 apresentado em 1925 e, naquele momento, o menor automóvel da marca. Seu nome combinava a classificação fiscal britânica de 9 hp com a potência nominal de aproximadamente 28 hp, enquanto sua mecânica de 1.1 litros e sua construção cuidadosa procuravam oferecer ao comprador uma alternativa mais sofisticada aos pequenos carros populares que começavam a dominar as ruas britânicas.
O 9/28 representava, portanto, uma espécie de resistência da velha escola. Modelos como o Austin Seven, o Singer Junior e outros pequenos automóveis produzidos em grande escala haviam iniciado uma transformação profunda no mercado britânico, oferecendo mobilidade a preços muito inferiores. A Humber, entretanto, acreditava que ainda existia espaço para um pequeno automóvel destinado a clientes que não aceitavam abrir mão de conforto, acabamento e prestígio. O 9/28 custava aproximadamente três vezes o preço de um Austin Seven, deixando claro que não pretendia competir pelo menor preço.
A mecânica era uma das particularidades mais interessantes do modelo. O motor de 4 cilindros em linha e 1.056 cm³ mantinha o peculiar sistema de distribuição inlet-over-exhaust (IOE), uma solução pela qual a Humber tinha especial predileção. O sistema combinava válvulas de admissão posicionadas na parte superior com válvulas de escape laterais, procurando conciliar eficiência de admissão com simplicidade construtiva. Para o 9/28, a marca introduziu ignição por bobina e um novo carburador, modificações que elevaram a potência em relação ao 9/20. A potência efetiva ficava em torno de 28 cv, enquanto exemplares posteriores são frequentemente especificados com cerca de 20 cv, refletindo diferenças entre os métodos de classificação e medição empregados no período.
A transmissão era manual de 3 velocidades, com a tradicional caixa de mudanças não sincronizada da época. O motor acionava as rodas traseiras, mantendo a configuração clássica de motor dianteiro e tração traseira. Uma das grandes evoluções do 9/28 estava, entretanto, nos freios: o modelo passou a contar com freios nas quatro rodas acoplados, uma característica importante para um automóvel britânico do final dos anos 1920.
A carroceria do Saloon também revelava a transição entre duas eras. Os primeiros 9/20 utilizavam carrocerias mais leves, algumas revestidas em tecido, mas o 9/28 passou a ser oferecido com uma moderna carroceria Saloon de aço com seis janelas, solução mais pesada, porém mais resistente e adequada ao crescente desejo dos compradores por automóveis fechados. A própria imprensa especializada da época considerava que o aumento de peso prejudicava um pouco tanto a estética quanto o desempenho, mas a mudança refletia exatamente aquilo que o mercado começava a exigir.
Visualmente, o Humber era um produto típico da segunda metade dos anos 1920. O longo capô dianteiro abrigava o pequeno quatro-cilindros, enquanto os para-lamas separados, os estribos laterais, os faróis externos e o radiador alto conferiam à máquina aquela aparência elegante e formal característica dos automóveis britânicos da época. A carroceria fechada tinha proporções relativamente compactas, mas o acabamento procurava transmitir uma sensação de categoria superior. Rodas raiadas podiam ser especificadas, enquanto a tradicional roda sobressalente ficava instalada externamente, em uma das laterais dianteiras.
Por dentro, o ambiente era igualmente representativo da época. O grande volante de quatro raios, o painel de madeira e os instrumentos analógicos agrupados diante do condutor transmitiam uma atmosfera quase artesanal. Não havia a padronização industrial que posteriormente dominaria os automóveis: cada comando, cada acabamento e cada peça metálica pareciam ter sido concebidos para durar e, sobretudo, para transmitir qualidade. Um exemplar preservado mostra justamente essa combinação de madeira, instrumentos circulares e revestimentos simples, mas cuidadosamente executados.
O tamanho relativamente reduzido não significava falta de conforto. A Humber havia desenvolvido o 9/28 como um automóvel de qualidade para famílias pequenas e clientes que desejavam viajar com mais tranquilidade. O chassi tinha um entre-eixos com cerca de 2.590 mm, e o automóvel podia ser encontrado em diferentes configurações de carroceria, incluindo Saloon, Fabric Saloon, Tourer e Coupé, dependendo do período.
Curiosamente, o ano de 1928 foi praticamente o início de sua carreira. Registros históricos indicam que apenas sete exemplares do 9/28 foram construídos em 1928, antes que a produção realmente ganhasse ritmo em 1929. Naquele ano seriam produzidas cerca de 1.141 unidades, entre versões de dois lugares, Tourer e Saloon. Em pouco menos de dois anos, a produção total ficou na casa de aproximadamente 1.250 automóveis, tornando o modelo relativamente raro desde sua própria origem.
E o momento empresarial não poderia ser mais interessante. A Humber enfrentava dificuldades financeiras justamente quando os fabricantes de automóveis baratos começavam a conquistar espaço. Em 1928, os irmãos Rootes já haviam iniciado sua aproximação com a empresa, e a independência da Humber terminaria definitivamente em 1931, quando os Rootes adquiriram participação majoritária. O 9/28 pertence, portanto, aos últimos anos da Humber como fabricante independente - antes que a marca passasse a integrar o enorme conglomerado que posteriormente seria conhecido como Rootes Group.
Apesar de sua pequena cilindrada, o 9/28 carregava uma reputação considerável. Era um automóvel para quem queria escapar da austeridade dos pequenos carros populares sem necessariamente comprar uma máquina grande e cara. Seu motor de pouco mais de 1.0 litro, os quatro freios, o acabamento cuidadoso e a carroceria fechada formavam um conjunto bastante coerente para o período. Não era rápido e tampouco pretendia ser. Sua missão era proporcionar conforto, confiabilidade e prestígio em um pacote relativamente compacto.
O destino, porém, seria implacável com a Humber. A expansão da produção em massa, a pressão dos preços e a ascensão de fabricantes como Austin, Morris e Hillman tornariam cada vez mais difícil para empresas independentes sobreviverem oferecendo automóveis de pequena escala e alto custo. O 9/28 acabou sendo uma das últimas manifestações daquela filosofia de fabricação artesanal que havia caracterizado a Humber durante boa parte de sua existência.
Hoje, um 9/28 sobrevivente é uma janela particularmente interessante para a Inglaterra automobilística do final dos anos 1920. Pequeno diante dos grandes Humber da época, mas sofisticado diante dos populares da nova era, ele representa o último florescimento da tradição britânica dos ‘light cars’ de luxo. E talvez seja justamente essa contradição que torne o Humber 9/28 tão fascinante: com apenas 1.056 cm³ sob o capô, ele pretendia oferecer não a velocidade ou a economia absoluta, mas algo que naquele momento começava a desaparecer das estradas britânicas - a sensação de que mesmo um automóvel pequeno poderia ser construído como um verdadeiro carro de prestígio.