HUMMER HX CONCEPT (2008): A ÚLTIMA GRANDE APOSTA DA HUMMER ANTES DO FIM
Em janeiro de 2008, no North American International Auto Show, em Detroit, a Hummer apresentou um dos conceitos mais interessantes - e, olhando em retrospectiva, mais melancólicos - de sua história. O Hummer HX Concept representava a tentativa da marca de abandonar a imagem excessivamente pesada e extravagante dos H1, H2 e H3 para conquistar uma nova geração de consumidores com um utilitário menor, mais leve visualmente, mais radical fora de estrada e, sobretudo, mais acessível. Com apenas duas portas, quatro lugares e uma carroceria aberta e modular, o HX parecia destinado a enfrentar diretamente o Jeep Wrangler. Mas a história acabou tomando outro caminho: o conceito jamais chegou à produção e tornou-se, involuntariamente, uma das últimas manifestações da Hummer antes do desaparecimento da marca original.
A ideia por trás do projeto era bastante diferente daquela que havia dado origem ao gigantesco H1. O HX foi concebido por três jovens designers - David Rojas, Min Young Kang e Robert Jablonski - como um exercício destinado a imaginar um Hummer compacto e voltado a um público mais jovem. O resultado preservava os elementos essenciais da identidade da marca, mas os reinterpretava de maneira muito mais agressiva e funcional. A enorme grade vertical, os faróis circulares instalados em molduras quadradas, o para-brisa quase vertical, o capô elevado e os balanços extremamente curtos continuavam imediatamente reconhecíveis como Hummer. Ao mesmo tempo, a carroceria era significativamente menor que a do H3.
Com 4.343 mm de comprimento, 2.057 mm de largura, 1.829 mm de altura e 2.616 mm de entre-eixos, o HX tinha dimensões muito mais próximas das de um utilitário compacto para trilhas do que dos enormes Hummer que haviam se tornado símbolos da cultura automobilística americana dos anos 2000. A distância do solo chegava a impressionantes 320 mm, enquanto os ângulos de ataque e saída eram de 56° e 51°, respectivamente. O ângulo de transposição era de 25°, e a Hummer declarava capacidade para superar aclives de até 60% e atravessar cursos dágua de aproximadamente 610 mm em baixa velocidade.
Mas talvez a característica mais fascinante estivesse na própria carroceria. O HX havia sido pensado como um verdadeiro veículo modular para aventuras. Os dois painéis dianteiros do teto podiam ser retirados, assim como toda a seção traseira da cobertura. As portas eram removíveis por meio de pinos nas dobradiças expostas e até os alargadores dos para-lamas podiam ser retirados rapidamente por meio de fixadores de liberação rápida. Dessa maneira, o proprietário poderia transformar o veículo de um utilitário fechado em uma espécie de conversível de trilha. A Hummer chegou a imaginar diferentes configurações para a seção traseira: desde uma configuração aberta até uma carroceria tipo slant-back e outra mais tradicional, semelhante a uma perua.
A apresentação em Detroit mostrava justamente a configuração slant-back, pintada em um tom verde-oliva fosco inspirado nos veículos militares e nas paisagens desérticas. As enormes rodas de 20 polegadas eram calçadas por pneus especiais Bridgestone Dueler de 35 polegadas, enquanto a parte inferior da carroceria recebia extensas proteções para enfrentar pedras e obstáculos. A construção seguia a tradicional arquitetura body-on-frame, com chassi de aço soldado e carroceria em aço eletrogalvanizado.
Debaixo do capô encontrava-se um motor que revelava a origem General Motors do projeto. O HX utilizava um V6 3.6 SIDI, naturalmente aspirado, com injeção direta, comando DOHC, quatro válvulas por cilindro e comando variável de válvulas. Com 3.564 cm³, taxa de compressão de 11.3:1 e capacidade para funcionar tanto com gasolina quanto com E85, o propulsor desenvolvia aproximadamente 304 cv a 6.300 rpm e 370 Nm a 5.200 rpm. A transmissão era automática Hydra-Matic 6L50 de 6 velocidades, ligada a um sistema de tração integral permanente.
O conjunto mecânico era acompanhado por uma preparação de chassi bastante séria. Na dianteira havia suspensão independente do tipo SLA, enquanto a traseira utilizava braços semiarrastados, ambas equipadas com amortecedores Fox Racing coil-over desenvolvidos especificamente para o conceito. O curso da suspensão chegava a 228 mm na dianteira e 279 mm na traseira. Para lidar com situações extremas, o HX possuía diferenciais bloqueáveis nos dois eixos e uma barra estabilizadora dianteira que podia ser desconectada eletronicamente, permitindo maior articulação das rodas em terrenos acidentados.
Os freios também eram muito mais sofisticados do que seria necessário em um simples exercício de estilo. O conceito utilizava discos nas quatro rodas com pinças Brembo de seis pistões na dianteira e quatro pistões na traseira, enquanto os discos dianteiros mediam aproximadamente 381 mm. Era uma demonstração clara de que a Hummer queria que o HX fosse não apenas visualmente agressivo, mas efetivamente capaz de enfrentar trilhas severas.
No interior, a filosofia era igualmente radical. Em vez do ambiente luxuoso e pesado dos H2, o HX adotava uma estética quase aeronáutica, com estruturas metálicas expostas, superfícies revestidas em material resistente e bancos individuais construídos sobre estruturas leves. Os quatro assentos utilizavam revestimento de neoprene, enquanto cintos de segurança de quatro pontos reforçavam a atmosfera de veículo destinado a aventuras. O painel era estruturado por uma viga transversal de alumínio extrudado, sobre a qual eram montados os instrumentos e comandos.
O sistema de instrumentação também era bastante imaginativo para 2008. O conjunto utilizava telas LCD reconfiguráveis, capazes de alterar sua apresentação conforme o veículo estivesse sendo conduzido em estrada ou em uma trilha. No modo off-road, por exemplo, o instrumento central poderia abandonar a função tradicional e exibir informações sobre o ângulo das rodas. O sistema de navegação incorporava GPS e bússola, enquanto uma câmera instalada na região do retrovisor podia fornecer ao condutor uma visão traseira da trilha.
E o HX levava tão a sério a ideia de ser um ‘backpack sobre quatro rodas’ que incorporava ferramentas físicas. Uma pá dobrável, lanterna e kit de primeiros socorros faziam parte da proposta, enquanto ganchos de reboque nos para-choques permitiam retirar outros veículos de situações difíceis. Era quase como se a Hummer tivesse tentado transformar o próprio automóvel em um equipamento de sobrevivência para trilhas.
O mais interessante, porém, estava na situação da própria Hummer naquele momento. A marca havia sido adquirida pela General Motors em 1999 e transformada em uma divisão independente, mas sua imagem estava cada vez mais associada ao enorme consumo de combustível e ao excesso representado pelos H2 e H3. O HX surgia justamente como uma tentativa de reposicionar a marca: menor, mais jovem, mais divertida e menos ostensiva. Internamente, o projeto chegou a ser associado à ideia de um futuro H4, um modelo que poderia finalmente levar a Hummer para um território semelhante ao do Wrangler.
O momento, entretanto, não poderia ter sido pior. Poucos meses depois da apresentação do HX, a economia mundial mergulharia na crise financeira de 2008, enquanto os preços dos combustíveis e a preocupação com consumo e emissões tornavam cada vez mais difícil justificar a existência de uma marca especializada em utilitários de grande porte. A General Motors acabou anunciando em 2009 a descontinuação da Hummer como marca independente. O HX, portanto, jamais se transformou no esperado H4 de produção.
E é justamente aí que o conceito ganha uma importância histórica especial. O HX demonstrava que a Hummer poderia ter seguido uma direção completamente diferente: um veículo compacto, extremamente capaz fora de estrada, modular e orientado para uma geração mais jovem. Ele tinha praticamente tudo aquilo que a marca precisava para sobreviver - exceto o tempo e o contexto econômico necessários para chegar às ruas.
Hoje, olhando para aquele protótipo de Detroit, é impossível não imaginar o que poderia ter acontecido se o HX tivesse chegado ao mercado alguns anos antes. A fórmula - duas portas, teto removível, portas removíveis, pneus de 35 polegadas, diferenciais bloqueáveis, V6 de 304 cv e uma carroceria menor que a do H3 - estava perfeitamente alinhada ao espírito dos modernos veículos recreativos de aventura. Mas a Hummer original não teve essa oportunidade.
O Hummer HX Concept de 2008 acabou, assim, como uma espécie de canto do cisne da marca. Não era o Hummer mais gigantesco, nem o mais poderoso, nem o mais luxuoso. Era talvez justamente o contrário: o Hummer que finalmente entendeu que precisava ser menor, mais simples e mais divertido para continuar existindo. A história, porém, decidiu que aquele futuro jamais sairia do salão de Detroit.