HYUNDAI ACCENT COUPÉ (1997): O PEQUENO COREANO QUE QUERIA SER ESPORTIVO
Na segunda metade dos anos 1990, a Hyundai começava a deixar para trás a imagem de fabricante coreano de automóveis simplesmente baratos para construir uma identidade própria no mercado internacional. Um dos modelos mais importantes nessa transformação era o Accent, lançado em 1994 para substituir o Excel e desenvolvido para atuar como compacto global da marca. Entre as configurações oferecidas estava o interessante Accent Coupé de duas portas, uma versão de aparência mais esportiva que encontrou espaço inclusive no mercado brasileiro. Em 1997, o pequeno coreano já estava plenamente estabelecido e representava uma das manifestações mais simpáticas da Hyundai daquela época.
O Coupé fazia parte da primeira geração do Accent, conhecida internamente como X3, e utilizava uma carroceria de três portas - duas portas laterais e a grande tampa traseira - com desenho bastante característico dos anos 1990. A dianteira apresentava faróis ovais e uma pequena grade central, enquanto o capô baixo e os para-choques integrados procuravam transmitir esportividade sem recorrer aos exageros dos compactos preparados para competição. De perfil, a linha do teto descendia suavemente até a traseira curta, e o vidro lateral posterior contribuía para aquela aparência de pequeno coupé que hoje remete imediatamente à era dos compactos esportivos acessíveis.
Embora compartilhasse plataforma e grande parte da mecânica com as demais versões do Accent, o Coupé tinha personalidade própria. Nos Estados Unidos, onde a Hyundai oferecia uma gama particularmente ampla, havia as versões L, GS e GT, todas com carroceria de três portas. O GT ocupava o topo da linha e custava 10.199 dólares com transmissão manual de 5 velocidades em 1997, enquanto o GT automático custava 10.954 dólares. O modelo de entrada L começava em 8.599 dólares.
E é justamente aqui que encontramos uma curiosidade importante sobre o Accent Coupé: as especificações variavam consideravelmente conforme o mercado. Nos Estados Unidos, o GT utilizava o quatro-cilindros 1.5 DOHC 16V, com 105 cv e aproximadamente 137 Nm, associado à transmissão manual de 5 velocidades ou automática de 4 relações. Com peso na casa dos 950 a 975 kg, tração dianteira e suspensão independente, o pequeno Hyundai tinha uma relação peso/potência razoavelmente interessante para a época.
O Accent GT norte-americano media aproximadamente 4.100 mm de comprimento, 1.620 mm de largura e 1.390 mm de altura, com entre-eixos de cerca de 2.400 mm. As rodas de liga leve de 14 polegadas utilizavam pneus 175/65 R14, enquanto a suspensão dianteira recorria ao tradicional sistema McPherson e a traseira utilizava arquitetura independente multilink. O resultado era um automóvel pequeno, relativamente leve e com comportamento mais interessante do que sua aparência modesta poderia sugerir.
Mas quem conheceu o Accent Coupé no Brasil encontrou uma configuração diferente e particularmente curiosa. O modelo chegou ao país importado da Coreia do Sul em meados dos anos 1990 e foi oferecido com motor 1.5 de 12 válvulas, pertencente à família G4EK. Essa unidade de três válvulas por cilindro - duas de admissão e uma de escape - desenvolvia cerca de 88 cv e 130 Nm de torque, combinação que fazia dele uma alternativa interessante entre os compactos brasileiros da época.
A solução de três válvulas por cilindro é um detalhe particularmente interessante. Em uma época na qual os motores de 4 cilindros começavam a migrar rapidamente para cabeçotes de quatro válvulas por cilindro, a Hyundai apostava em uma arquitetura intermediária que privilegiava simplicidade, eficiência e custos. Esse motor também é importante na história técnica do fabricante porque representa uma das primeiras famílias de propulsores desenvolvidas pela própria Hyundai, em uma fase na qual a empresa começava a se afastar da dependência tecnológica de projetos derivados da Mitsubishi.
O interior seguia a mesma filosofia racional. O painel tinha desenho simples, instrumentos analógicos convencionais e materiais plásticos típicos dos compactos da década. Não havia a sofisticação dos esportivos japoneses mais caros, mas o Coupé podia oferecer itens como ar-condicionado, teto solar manual e sistema de áudio com CD, dependendo do mercado e do pacote escolhido. Nos Estados Unidos, por exemplo, esses equipamentos podiam ser agrupados em um pacote opcional que acrescentava 2.389 dólares ao preço do carro.
Na estrada, o Accent Coupé não pretendia enfrentar verdadeiros esportivos. Sua missão era outra: oferecer ao jovem comprador a possibilidade de ter um automóvel visualmente mais atraente sem os custos de aquisição, seguro e manutenção associados a modelos de desempenho superior. A versão GT americana, com seus 105 cv, podia atingir 0-100 km/h em algo próximo de 10 segundos, segundo estimativas de desempenho, enquanto o modelo europeu 1.5 GT de 98 cv apresentava números semelhantes.
Essa combinação explica parte do charme do carro atualmente. O Accent Coupé pertence a uma geração em que fabricantes como Hyundai, KIA, Daewoo, Honda, Toyota e outras marcas asiáticas ainda ofereciam pequenos coupés relativamente simples e acessíveis. Não eram necessariamente carros de alta performance; eram automóveis concebidos para oferecer estilo, baixo peso e uma dose de diversão sem transformar o proprietário em escravo dos custos de um esportivo.
O modelo também ajudou a consolidar a presença internacional da Hyundai. O Accent era vendido em numerosos mercados e produzido em diferentes países, tornando-se um dos pilares da expansão global da empresa. Na segunda metade da década, a Hyundai já começava a demonstrar que poderia competir não apenas pelo preço, mas também por design, equipamentos e confiabilidade - uma transformação que se aprofundaria radicalmente nas décadas seguintes.
Em 1997, o Accent recebeu alterações dependendo do mercado, e a primeira geração continuaria até 1999 em diversas regiões. A segunda geração surgiria no final da década, trazendo carroceria maior, novos motores e uma abordagem mais madura. No Brasil, porém, o Coupé permaneceu como uma lembrança particularmente interessante daquela primeira fase da Hyundai no mercado nacional. A própria existência da versão de duas portas hoje parece curiosa diante da estratégia atual da marca, dominada por SUVs, elétricos e modelos de maior porte.
O Hyundai Accent Coupé de 1997 é, portanto, um daqueles automóveis que ganharam importância justamente com o passar do tempo. Não foi um ícone de desempenho como um Honda Civic Type R, tampouco alcançou a aura de um Toyota Celica ou de um Volkswagen Corrado. Mas cumpriu uma função importante: mostrou que a Hyundai estava aprendendo a construir automóveis com identidade própria, e que um pequeno coupé coreano poderia oferecer ao consumidor algo além do simples transporte.
Com seu desenho compacto, tração dianteira, motores 1.5, baixo peso e aquela inconfundível estética dos anos 1990, o Accent Coupé foi um pequeno representante de uma época em que até os fabricantes emergentes se permitiam sonhar com esportivos acessíveis. Hoje, justamente por isso, ele é uma cápsula bastante simpática de uma Hyundai que estava apenas começando a descobrir o tamanho de seu próprio potencial.