‘IL MOSTRO’: ESTA É A HISTÓRIA DO MASERATI 450S ZAGATO COUPÉ DE 1957
A história do Maserati 450S Zagato Coupé de 1957, também conhecido como ‘Il Mostro’ (O Monstro), é fascinante, marcada por ambição, inovação, desafios e uma carreira curta, mas memorável. Este carro é um exemplar único, projetado especificamente para competir nas 24 Horas de Le Mans de 1957, e representa um capítulo importante na história da Maserati e do automobilismo.
Origem e Desenvolvimento
O Maserati 450S (Tipo 54) foi criado para competir no Campeonato Mundial de Carros Esportivos da FIA, enfrentando rivais como Ferrari, Jaguar e Aston Martin. O projeto começou em 1954, liderado por Vittorio Bellentani e Guido Taddeucci, com o objetivo de construir um carro com um motor mais potente que os usados nos Maserati 300S e 350S. O resultado foi um V8 de 4.5 litros, com quatro carburadores Weber 45 IDM, capaz de produzir cerca de 400 cv a 7.200 rpm, tornando-o um dos carros mais potentes da época.
O Maserati 450S Zagato Coupé teve uma história de chassi complexa. Inicialmente, o carro foi construído sobre o chassi 4506, mas, por questões burocráticas, foi renumerado como 4501 (anteriormente pertencente a um 450S destruído). Mais tarde, o número 4506 foi reatribuído a outro chassi. Este chassi 4501 era, na verdade, uma evolução de um 350S (chassi 3501), adaptado para o novo motor V8.
Projeto do Coupé para Le Mans
O piloto britânico Stirling Moss, que competia pela Maserati, não era fã das 24 Horas de Le Mans, considerando a prova exaustiva. Para convencê-lo a participar em 1957, a Maserati lhe deu liberdade para personalizar o carro. Moss queria um veículo com aerodinâmica superior para aproveitar a longa reta Hunaudières. Ele contratou o engenheiro aeronáutico inglês Frank Costin, conhecido por seus designs aerodinâmicos (como o Lotus MK VIII e Vanwall), para criar uma carroceria fechada (coupé) que reduzisse o arrasto.
A carroceria foi encomendada à Zagato, renomada carrozzeria italiana, mas o projeto enfrentou desafios. A Zagato não ficou satisfeita por ter que seguir um design externo (de Costin), e o tempo para a construção foi extremamente curto - apenas algumas semanas. O resultado foi uma carroceria de alumínio com linhas controversas: um capô longo, traseira arredondada (Coda Tronca) e janelas laterais pequenas, mas com falhas, como montagem apressada e problemas de ventilação. O carro ganhou o apelido ‘Il Mostro’ devido à sua aparência imponente e desempenho bruto.
Desempenho em Le Mans
O Maserati 450S Zagato Coupé, pilotado por Stirling Moss e Harry Schell, estreou nas 24 Horas de Le Mans de 1957. Apesar da potência do motor, o carro apresentou sérios problemas. A carroceria causava superaquecimento do motor, a ventilação no habitáculo era insuficiente (quase ‘asfixiando’ os pilotos com fumaça e calor), e a aerodinâmica não entregava a velocidade esperada - o coupé era, na verdade, mais lento que as barchetas 450S. Durante a corrida, o carro chegou a rodar entre os primeiros colocados, mas abandonou após 38 voltas devido a uma ruptura na canalização de óleo e problemas na transmissão. Esta foi a única corrida do carro.
A falta de testes prévios e a construção apressada contribuíram para o fracasso. Moss e Costin sabiam que o carro não estava pronto, e a Zagato foi criticada pela montagem inadequada. O projeto foi considerado um ‘patinho feio’ que não correspondeu às expectativas.
Pós-Le Mans: Transformação em Carro de Estrada
Após o fiasco em Le Mans, o carro foi enviado de volta à Maserati, onde ficou abandonado sem motor e rodas. Em 1958, o colecionador americano Byron Staver o adquiriu com a intenção de transformá-lo em um carro de estrada.
A Maserati confiou o trabalho à Carrozzeria Fantuzzi, que alongou o chassi em 20 cm para maior conforto; modificou a carroceria, ajustando a baia do para-brisa e fechando algumas aberturas; adicionou um interior de couro bege e pintou o carro de preto; alterou a direção de lado (de direita para esquerda); atribuiu um novo número de chassi, 4512.
Vida como Stradale: O 450S Zagato Coupé tornou-se o carro de estrada mais rápido do mundo na época, com seu motor V8 de 400 cv (posteriormente ajustado para até 450 cv). Staver manteve o carro por cinco anos antes de vendê-lo.
História Posterior e Restaurações
O carro passou por várias mãos nos EUA. Em 1963, foi vendido a outro americano, que o repintou de vermelho e mudou o interior para preto. Em 1970, foi adquirido por Peter Kaus, que o exibiu em sua coleção Rosso Bianco, na Alemanha, até 2002.
Restaurações:
Em 1973, Jim Rogers (Tennessee, EUA) restaurou o carro na Holman-Moody, mantendo a configuração Costin-Zagato-Fantuzzi e a pintura preta. O carro foi exibido no Pebble Beach Concours de 2003.
Nos anos 2000, Alfredo Brener (Houston, EUA) realizou uma restauração na Itália, preservando a configuração alongada e pintando-o em preto e marrom. Desde 2007, o carro pertence a Lawrence E. Auriana (Connecticut, EUA).
O 450S Zagato Coupé foi destaque em eventos como Pebble Beach, Villa d’Este e Goodwood, onde ganhou prêmios. Em 2004, retornou a Le Mans para o Le Mans Classic, pela primeira vez desde 1957.
Legado e Homenagens
O 450S Zagato Coupé é o único Maserati 450S com carroceria coupé, o que o torna extremamente raro e valioso. Em 2018, um exemplar (embora não explicitamente o coupé) foi avaliado em mais de 4 milhões de dólares.
Para celebrar os 100 anos da Maserati, a Zagato lançou o Zagato Maserati Mostro, uma reinterpretação moderna do 450S Coupé, com chassi de fibra de carbono e motor V8 4.2L de 420 cv do Maserati GranTurismo. Apenas cinco unidades foram produzidas, todas destinadas a colecionadores. O design, assinado por Norihiko Harada, resgatou elementos como o capô longo e a traseira Coda Tronca.
Apesar de seu fracasso em Le Mans, o carro é lembrado como um ícone de design audacioso e engenharia extrema. Sua história reflete a paixão e os riscos do automobilismo dos anos 1950, além da colaboração entre grandes nomes como Moss, Costin, Zagato e Maserati.
Resumo Técnico
- Motor: V8 4.5L (4.478 cc), 400-450 cv a 7.200 rpm, quatro carburadores Weber 45 IDM.
- Chassi: Tubular, inicialmente 4506, depois 4501, e finalmente 4512.
- Carroceria: Alumínio, desenhada por Frank Costin, construída por Zagato (coupé); modificada por Fantuzzi para uso stradale.
- Transmissão: Manual de 5 velocidades (Colotti), tração traseira.
- Desempenho: Velocidade máxima estimada de 300 km/h (como carro de corrida).
- Produção: Exemplar único (coupé).