INFINITI Q45 (1990): A DISCRETA REVOLUÇÃO JAPONESA QUE DESAFIOU O LUXO ALEMÃO
No final dos anos 1980, a indústria automobilística japonesa decidiu que já não queria apenas disputar com os europeus em qualidade e confiabilidade: queria enfrentá-los também no território mais sofisticado do mercado. Foi nesse cenário que nasceu a Infiniti, nova divisão de luxo da Nissan, e seu primeiro grande representante foi justamente o Q45, apresentado em novembro de 1989 como modelo 1990. Mais do que um sedan de luxo, era uma declaração de intenções. A Nissan havia estabelecido como referência modelos como o BMW Série 7 e o Mercedes-Benz 560 SEL, mas escolheu um caminho bastante particular: em vez de copiar as convenções do luxo europeu, o Q45 apostava em tecnologia, desempenho e uma interpretação minimalista do requinte japonês.
Visualmente, o Q45 era quase desconcertante para a época. Seu desenho limpo dispensava a tradicional grade dianteira, enquanto o emblema cloisonné aplicado no nariz do automóvel remetia diretamente ao artesanato japonês. O interior seguia a mesma filosofia: nada de excesso de madeira, cromados ou ornamentos tradicionais. A proposta era transmitir sofisticação pela qualidade dos materiais, pelo silêncio e pela tecnologia. A Infiniti chegou inclusive a trabalhar com a italiana Poltrona Frau no desenvolvimento do ambiente interno. Era uma abordagem ousada, sobretudo diante do conservadorismo dos grandes sedans de luxo daquele período.
Mas era debaixo do capô que o Q45 realmente mostrava sua personalidade. O sedan utilizava o sofisticado VH45DE, um V8 de 4.5 litros (4.494 cm³), duplo comando de válvulas e 32 válvulas, alimentado por injeção eletrônica multiponto. Na especificação norte-americana, entregava 280 cv a 6.000 rpm e 396 Nm a 4.000 rpm, números impressionantes para um sedan de luxo daquele tamanho. A transmissão era automática de 4 velocidades e a tração, traseira. Com cerca de 1.790 kg, o Q45 tinha desempenho muito respeitável: testes de época registraram aceleração de 0 a 96 km/h em aproximadamente 6.7 segundos, deixando claro que aquele não era simplesmente um automóvel destinado a transportar seus ocupantes em silêncio.
A engenharia do chassi também revelava a ambição da Nissan. O Q45 empregava suspensão independente multilink nas quatro rodas, uma solução sofisticada derivada do programa interno ‘901’, iniciativa criada pela Nissan com o objetivo de alcançar, até 1990, o melhor comportamento dinâmico da indústria. O modelo ainda utilizava diferencial traseiro de deslizamento limitado viscoso, freios a disco ventilados na dianteira e podia receber o sistema Super HICAS de esterçamento das quatro rodas, tecnologia que já havia se tornado uma das especialidades da Nissan.
E havia uma versão ainda mais extraordinária: o Q45a, equipado com a chamada Hydraulic Active Suspension. Utilizando sensores e atuadores hidráulicos controlados eletronicamente, o sistema procurava reduzir movimentos de rolagem, mergulho e inclinação da carroceria, antecipando em muitos anos tecnologias semelhantes que só se tornariam mais comuns no segmento de luxo. A própria Infiniti posteriormente destacou o Q45 como o primeiro automóvel de produção do mundo equipado com suspensão hidráulica ativa.
Com 5.070 mm de comprimento, 1.830 mm de largura, 1.430 mm de altura e entre-eixos de 2.880 mm, o Q45 tinha presença digna de um verdadeiro topo de linha. Ainda assim, sua personalidade era muito diferente daquela de um Mercedes-Benz ou de um Jaguar. Não havia a intenção de ostentar riqueza; havia a intenção de demonstrar que a engenharia japonesa poderia produzir um automóvel tão sofisticado quanto qualquer concorrente europeu. Essa filosofia também explicava o curioso posicionamento da Infiniti: o Q45 era rápido, tecnológico e extremamente refinado, mas deliberadamente discreto.
Curiosamente, justamente aquilo que tornava o Q45 tão especial também dificultou seu sucesso comercial. O público americano de luxo ainda esperava determinados símbolos visuais de status, e a ausência de uma grade tradicional e de acabamentos internos convencionais acabou sendo considerada estranha por parte dos consumidores. Enquanto o recém-lançado Lexus LS 400 seguia uma interpretação mais familiar do luxo, o Infiniti apostava numa linguagem muito mais experimental. A própria Infiniti posteriormente introduziria uma grade cromada e acabamentos em madeira nas atualizações seguintes, uma indicação de que o mercado talvez não estivesse completamente preparado para a ruptura proposta pelo primeiro Q45.
Mesmo sem alcançar os volumes de vendas esperados, entretanto, o Infiniti Q45 de 1990 permanece como um dos automóveis japoneses mais interessantes do período. Ele representou o momento em que a Nissan decidiu entrar de cabeça no território dos grandes sedans de luxo, levando consigo um V8 sofisticado, suspensão multilink, esterçamento das quatro rodas, suspensão ativa e uma filosofia estética que preferia a discrição à ostentação. Mais de três décadas depois, o Q45 continua sendo lembrado justamente por isso: não tentou ser um Mercedes japonês ou um BMW japonês; tentou mostrar ao mundo como a Nissan imaginava o automóvel de luxo do futuro.