ISO GRIFO IR9 CAN AM (1972): O SONHO RADICAL QUE LEVOU O GRAN TURISMO ITALIANO AO LIMITE
Nas estradas sinuosas das colinas italianas, onde o ronco de motores potentes ecoava como um hino à velocidade, nasceu uma lenda híbrida: o Iso Grifo, um grand tourer que misturava a elegância europeia com a brutalidade americana. Tudo começou na década de 1950, quando Renzo Rivolta, um visionário industrial de Milão, transformou sua empresa de refrigeradores e motos em uma fabricante de automóveis audaciosa. Após o sucesso do microcar Isetta, licenciado para a BMW, Rivolta mirou mais alto. Em 1962, ele fundou a Iso Autoveicoli S.p.A. e recrutou talentos de peso: o engenheiro Giotto Bizzarrini, ex-Ferrari e criador de ícones como o Lamborghini V12, para os aspectos mecânicos; e o designer Giorgetto Giugiaro, da Bertone, para dar forma à carroceria. O objetivo era claro: desafiar os gigantes Ferrari e Maserati no mercado de luxo, mas com um truque na manga - motores americanos baratos e potentes, fornecidos pela Chevrolet e Ford, para reduzir custos e elevar o desempenho.
O Iso Grifo estreou em 1965, no Salão de Frankfurt, como uma evolução do protótipo A3/L apresentado em Turin dois anos antes. Seu nome, ‘Grifo’, evocava o grifo mitológico, metade águia e metade leão, simbolizando a fusão de estilos. Com traços fluidos, linhas aerodinâmicas e um chassi robusto de aço prensado, o carro media 4.43 metros de comprimento, com entre-eixos de 2.50 metros, e pesava cerca de 1.400 kg. A Série I, produzida até 1970, vendeu 330 unidades e usava inicialmente o V8 Chevrolet 327 de 5.4 litros e 300 cv, alcançando velocidades acima de 275 km/h com transmissão manual Borg-Warner de 4 velocidades. Em 1968, veio a variante ‘7 Litri’, com o monstruoso Chevrolet 427 de 7.0 litros e 435 cv, elevando a máxima para 300 km/h - um verdadeiro devorador de asfalto que conquistou entusiastas pela combinação de conforto grand tourer e performance bruta.
Mas foi em 1970 que o Grifo evoluiu para sua forma mais refinada: a Série II. Com um design ainda mais elegante, faróis escamoteáveis e uma frente mais afilada, o carro ganhou um ar de mistério noturno, pronto para devorar estradas ao luar. Produzidas apenas 83 unidades dessa série, incluindo 23 com transmissão ZF de 5 velocidades e quatro versões targa com teto removível, essas máquinas incorporavam o auge da engenharia ítalo-americana. E então, em 1972, surgiu o ápice dessa linhagem: o Iso Grifo IR9 Can Am. Batizado em homenagem às corridas Can-Am, onde monstros V8 rugiam sem limites, o IR9 trocava o antigo 427 pelo novo Chevrolet 454 de 7.4 litros, capaz de entregar até 450 cv em configurações otimizadas, com torque de 678 Nm. Esse motor big-block, alimentado por um carburador Holley de quatro barris, transformava o Grifo em um muscle car disfarçado de italiano refinado - acelerando de 0 a 100 km/h em menos de 6 segundos e atingindo velocidades que faziam os rivais tremerem.
Apenas 24 unidades foram construídas, tornando-o um raríssimo exemplar; o 19º chassi, por exemplo, saiu da fábrica em 2 de maio de 1972, destinado à Suíça via distribuidor Roggero em Zurich, mantendo-se na Europa por mais de 50 anos com números de motor e cores originais.
Visualizando o IR9 Can Am, percebemos sua silhueta baixa e agressiva, com entradas de ar laterais para resfriar os freios a disco ventilados nas quatro rodas, rodas Campagnolo de magnésio e um capô com scoop elevado para acomodar o gigante V8. Era um carro para quem buscava não só velocidade, mas uma experiência sensorial - o cheiro de couro italiano no interior luxuoso, o tremor do escapamento duplo e a precisão da suspensão independente dianteira com molas helicoidais e eixo De Dion traseiro. No entanto, o sonho durou pouco. Em 1972, a Iso trocou o Chevrolet pelo Ford Boss 351 de 5.8 litros no modelo IR8, identificável pelo scoop ainda mais alto, mas o golpe final veio com a crise do petróleo de 1973. Os preços do combustível dispararam, e a demanda por devoradores de gasolina como o Grifo despencou. A Iso Autoveicoli faliu em 1974, encerrando a produção total em cerca de 413 Grifos - uma vítima da era em que o luxo ilimitado colidiu com a realidade econômica.
Hoje, o Iso Grifo IR9 Can Am de 1972 permanece como um ícone subestimado, cobiçado por colecionadores que veem nele a perfeita simbiose entre o Velho e o Novo Mundo. Em leilões e garagens privativas, esses raros exemplares evocam uma época de ousadia automotiva, quando engenheiros sonhavam sem fronteiras e as estradas pareciam infinitas.
Uma relíquia que, mesmo parada, ainda acelera corações.