ISORIVOLTA GTZ: O RENASCIMENTO DE UM NOME ESQUECIDO
Voltar à Itália para falar de um gran turismo costuma ser, por si só, um gesto de reverência. Mas aqui a reverência ganha outra camada: trata-se de evocar um nome que, para muitos, já havia entrado no repouso das marcas adormecidas. A Iso Rivolta - aquela mesma das berlinettas ferozes dos anos 1960, que combinavam elegância italiana com motores americanos - voltava a respirar depois de décadas de silêncio. E essa respiração assumiu forma concreta em 2020, quando a Zagato apresentou ao mundo uma peça rara e luminosa: o IsoRivolta GTZ, um coupé que parecia deslizar entre épocas com naturalidade desconcertante.
O surgimento do GTZ não foi casual. A Zagato, casa milanesa de carrozzeria que há mais de um século transforma alumínio e fibra em poesia automotiva, buscava criar um tributo ao lendário Iso Rivolta A3/C de 1963 - o carro que disputou Le Mans e fez os europeus olharem para a pequena marca com respeito imediato. Para isso, não bastava replicar linhas antigas; era preciso recriar um espírito. Assim, o GTZ nasceu como uma ponte: um traço de modernidade que ainda carregava perfume de passado.
A carroceria, em fibra de carbono moldada com precisão quase cirúrgica, não tenta imitar o clássico, mas reinterpretá-lo. O capô extenso alongava o carro como um felino em movimento lento; as laterais esculpidas sugeriam músculos elegantes; e a traseira curta completava a típica proporção italiana de um GT puro-sangue. Visto de longe, ele parecia a memória sólida de um esporte dos anos 60. Visto de perto, deixava claro que não pertencia a museus - mas ao asfalto moderno.
E como todo bom Iso Rivolta, a alma americana batia firme sob o capô. A plataforma partia de um Chevrolet Corvette, e o coração era o poderoso V8 LT4 de 6.2 litros com compressor, entregando mais de 660 cv. Não havia timidez nessa escolha: o GTZ era fiel à tradição da marca, que sempre acreditou que um gran turismo italiano poderia conviver pacificamente com a brutalidade de um motor V8 made in USA. A aceleração, na casa dos 3.7 segundos até os 100 km/h, e a velocidade máxima acima dos 300 km/h, mostravam que o carro não era apenas um exercício estilístico - era uma máquina séria.
O interior seguia a filosofia do corpo: sobriedade com charme, esportividade com refinamento. Nada de exageros barrocos. Couro bem estendido, detalhes metálicos precisos e a postura de cockpit que remetia às grandes máquinas de estrada. Era um carro para viagens longas, sem pressa, mas com vigor - um carro feito para estradas que serpenteiam pela costa da Ligúria ou pelas colinas da Toscana.
A produção limitada a apenas 19 unidades completou o enigma. Não era um carro destinado a vitrines amplas, tampouco uma ressurreição comercial. O GTZ era, acima de tudo, um aceno - um lembrete de que certos nomes da história automotiva merecem pequenos retornos, mesmo que efêmeros. A Iso Rivolta não ressurgiu como indústria; ressurgiu como ideia. E a Zagato, fiel à sua tradição artesanal, lapidou essa ideia em um objeto de estrada, belo e feroz ao mesmo tempo.
O primeiro GTZ entregue foi pintado em um tom especial de verde metálico, uma homenagem direta ao A3/C que brilhou nas pistas nos anos 1960 - como se o passado desse um leve aceno ao futuro, antes de ambos seguirem seus caminhos distintos.