JENSEN-FORD TOURER (1936): A ELEGANTE UNIÃO ENTRE A FORÇA AMERICANA E A ARTE BRITÂNICA
Em 1936, quando a indústria automobilística britânica começava a descobrir novas possibilidades para os esportivos e automóveis de luxo, uma pequena empresa de West Bromwich produzia uma das combinações mecânicas mais interessantes do período entre guerras. O Jensen-Ford Tourer reunia a robustez do V8 de válvulas laterais da Ford com uma carroceria artesanal desenhada e construída na Inglaterra pelos irmãos Richard e Alan Jensen. O resultado era um automóvel de produção extremamente limitada, sofisticado para sua época e, de certa maneira, um precursor dos famosos híbridos anglo-americanos que fariam a reputação da Jensen décadas mais tarde. Cerca de 30 Jensen-Ford foram construídos entre 1934 e 1936, tornando o modelo uma das maiores raridades da história da marca.
A história começou alguns anos antes, quando os irmãos Jensen se dedicavam à construção de carrocerias especiais para diferentes fabricantes britânicos. A aproximação com a Ford aconteceu em um momento particularmente oportuno: o V8 americano, compacto, relativamente leve e capaz de entregar potência considerável, oferecia uma base mecânica extremamente atraente para um fabricante artesanal. Em 1934, os Jensen chegaram a construir carrocerias esportivas sobre chassis Ford destinados à competição, e posteriormente desenvolveram uma pequena série de automóveis de passeio que ficou conhecida como Jensen-Ford. A experiência também chamou a atenção de Edsel Ford, que visitou a empresa em West Bromwich em 1935 e demonstrou interesse pelo trabalho dos irmãos.
A fórmula era simples na concepção, mas sofisticada na execução. O chassi vinha da Ford, assim como o motor e boa parte da mecânica, enquanto a Jensen criava uma carroceria completamente diferente daquela encontrada nos automóveis produzidos em massa nos Estados Unidos. O Tourer de 1936 utilizava o conhecido Ford V8 flathead de 3.6 litros, desenvolvendo aproximadamente 85 cv. O motor era associado a uma transmissão manual de 3 velocidades, enquanto a suspensão dianteira e traseira utilizava molas transversais, uma característica típica dos Ford daquele período. Os quatro freios eram mecânicos.
O resultado visual, porém, estava muito distante de um Ford convencional. A Jensen transformou completamente a aparência do conjunto, criando uma carroceria de quatro lugares com proporções baixas, capô longo, para-lamas independentes de desenho sinuoso e uma dianteira dominada por uma estreita grade vertical. Os faróis circulares, posicionados externamente, reforçavam a aparência clássica dos grandes esportivos europeus da década de 1930, enquanto os estribos laterais e o para-brisa dividido completavam a composição. A traseira arredondada acomodava o estepe, e a capota de lona podia ser rebatida para transformar o Tourer em um elegante conversível aberto.
As dimensões também ajudavam a explicar sua personalidade. O entre-eixos media 2.840 mm, suficiente para acomodar quatro ocupantes em uma carroceria que permanecia visualmente compacta. O resultado era um automóvel muito mais próximo de um grand tourer artesanal do que de um simples Ford modificado. A mecânica americana garantia facilidade de manutenção e bom desempenho, enquanto a construção britânica proporcionava exclusividade e um nível de acabamento praticamente impossível de encontrar em um automóvel produzido em grande escala.
O interior seguia a mesma filosofia. O painel revestido em madeira, os instrumentos circulares, o grande volante de três raios e os bancos individuais dianteiros davam ao habitáculo uma atmosfera tipicamente britânica. A carroceria era construída de maneira artesanal sobre uma estrutura de madeira, e detalhes aparentemente pequenos revelavam o caráter de baixa produção do automóvel. Durante a restauração de um dos exemplares sobreviventes, por exemplo, constatou-se que os dois lados da estrutura de madeira da carroceria não eram perfeitamente simétricos - algo bastante comum na construção artesanal dos anos 1930.
A ligação com Clark Gable acrescentou ainda mais fascínio à história. O ator americano, então uma das maiores estrelas de Hollywood e conhecido entusiasta de automóveis, esteve entre os primeiros interessados no Jensen-Ford. Um dos carros destinados aos Estados Unidos chegou a ser associado diretamente ao seu nome, embora Gable posteriormente tenha desistido de ficar com o exemplar. A história tornou-se parte da mitologia do modelo e contribuiu para sua fama entre colecionadores. Dos cerca de 30 Jensen-Ford produzidos, apenas três foram construídos com volante à esquerda e destinados à exportação para os Estados Unidos.
Esse pequeno número de exemplares explica por que o Jensen-Ford é hoje tão raro. O automóvel também é importante por representar uma filosofia que se tornaria uma das marcas registradas da Jensen: combinar motores americanos de grande cilindrada com chassis e carrocerias de concepção britânica. Décadas depois, a fórmula seria novamente explorada em modelos como o C-V8 e o Interceptor, que utilizariam grandes motores Chrysler. Mas o conceito já estava presente naquele pequeno Tourer dos anos 1930, quando os irmãos Jensen perceberam que a confiabilidade e a potência da mecânica americana poderiam ser perfeitamente combinadas à elegância artesanal inglesa.
O próprio ano de 1936 marcou uma transição importante para a empresa. Naquele período, os irmãos Jensen começaram a assumir cada vez mais diretamente o desenvolvimento dos automóveis que levariam seu nome, e a empresa avançava para uma nova geração de modelos. A partir do fim daquele ano surgiria o Jensen S-Type, que continuaria utilizando componentes Ford, mas receberia modificações mais profundas no chassi e uma identidade própria ainda mais definida. O Jensen-Ford Tourer, portanto, pertence ao momento em que a empresa deixava de ser apenas um encarroçador especializado para se transformar efetivamente em fabricante de automóveis.
O Jensen-Ford Tourer de 1936 é, por isso, muito mais do que uma curiosidade histórica. Ele representa uma época em que as fronteiras entre fabricantes, encarroçadores e fornecedores mecânicos eram muito mais flexíveis. De um lado estava o eficiente V8 Ford, fruto da produção industrial americana; do outro, uma pequena oficina britânica capaz de transformar aquela plataforma em um automóvel de aparência sofisticada e personalidade própria. Com apenas cerca de 30 unidades construídas, o Tourer nasceu como uma raridade e permaneceu assim até os dias atuais. Era a força de Detroit vestida pela elegância de West Bromwich - uma combinação improvável que antecipou, em três décadas, a fórmula que faria da Jensen um dos mais interessantes fabricantes britânicos de automóveis de alto desempenho.