KIA SORENTO (2003): QUANDO A MARCA COREANA DECIDIU ENCARAR O MUNDO DOS GRANDES SUVS
No começo dos anos 2000, a KIA atravessava uma fase decisiva de transformação. Depois de anos construindo sua reputação principalmente com automóveis compactos e modelos de proposta mais acessível, o fabricante coreano começava a mirar segmentos de maior valor - e foi nesse contexto que surgiu, em 2002, o KIA Sorento, apresentado como modelo 2003. Primeiro SUV de porte médio da marca desenvolvido para disputar mercados internacionais, o Sorento nasceu com uma proposta bastante clara: combinar aparência robusta, capacidade fora de estrada e um nível de conforto capaz de enfrentar concorrentes já estabelecidos. A própria documentação técnica da KIA tratava o veículo como uma nova geração de produto para a empresa.
Visualmente, o Sorento da primeira geração adotava uma fórmula que hoje parece bastante familiar, mas que naquela época ainda estava se consolidando: carroceria de cinco portas, grande altura em relação ao solo, capô elevado, para-brisa relativamente vertical e enormes para-lamas que transmitiam uma sensação de força. A dianteira combinava faróis de desenho simples com uma grade cromada de proporções generosas, enquanto as laterais eram marcadas por molduras protetoras e grandes rodas de 16 polegadas. Com 4.570 mm de comprimento, 1.860 mm de largura, 1.730 a 1.810 mm de altura dependendo da configuração e 2.710 mm de entre-eixos, o coreano tinha dimensões respeitáveis para a época. A distância livre do solo chegava a 208 mm, enquanto os ângulos de ataque e saída de 28.4° e 26.7°, respectivamente, revelavam que aquela aparência musculosa não era apenas cenográfica.
Nos Estados Unidos, onde o Sorento encontrou um de seus mercados mais importantes, a receita mecânica começava com o 3.5 V6 DOHC Sigma, um motor de 3.497 cm³ que desenvolvia 192 cv a 5.500 rpm e 293 Nm de torque a 3.000 rpm. O propulsor era associado a uma transmissão automática de 4 velocidades e a um sistema de tração integral sob demanda, com caixa de transferência de duas velocidades. O conjunto ainda contava com diferencial de deslizamento limitado, permitindo ao Sorento assumir uma postura mais aventureira que muitos dos SUVs urbanos que começavam a aparecer naquele período.
Na Europa, entretanto, a história era um pouco diferente. O Sorento podia ser encontrado com o motor 2.5 CRDi turbodiesel, 4 cilindros de 2.497 cm³, equipado com injeção direta common rail. Nessa configuração, o motor produzia aproximadamente 140 cv e 313 Nm de torque, podendo ser associado a uma transmissão manual de 5 velocidades. Dependendo do mercado, havia diferentes sistemas de tração, incluindo soluções 4x4 com acionamento sob demanda e configurações mais tradicionais voltadas ao uso fora de estrada.
A construção mecânica também ajudava a definir a personalidade do primeiro Sorento. Na dianteira havia suspensão independente por braços duplos, enquanto o eixo traseiro utilizava um sistema de cinco braços com molas helicoidais. Os freios eram a disco nas quatro rodas, com ABS disponível, e a direção utilizava assistência hidráulica. O resultado era um SUV que buscava conciliar estabilidade no asfalto com uma capacidade de enfrentar terrenos difíceis que ia além daquela oferecida por muitos utilitários derivados de automóveis.
Por dentro, a KIA procurou abandonar definitivamente a imagem de fabricante de produtos simples. O habitáculo podia receber bancos de couro, ajustes elétricos para o condutor, bancos dianteiros aquecidos, teto solar elétrico, climatização automática, controle de cruzeiro, sistema de áudio com CD e cassete e comandos de áudio no volante. Algumas versões ofereciam ainda computador de bordo com bússola, altitude e barômetro - equipamentos bastante interessantes para um SUV que queria convencer o público de que podia ser tanto veículo familiar quanto companheiro de viagens de longa distância.
A segurança também estava entre as prioridades do projeto. O Sorento podia contar com airbags frontais e laterais do tipo cortina, cintos dianteiros com pré-tensionadores, ABS e freios a disco nas quatro rodas. A carroceria elevada e a posição de dirigir alta completavam aquela sensação de proteção tão valorizada pelos compradores de SUVs no início do século XXI.
Com tanque de combustível de 80 litros na especificação norte-americana e capacidade de reboque de até aproximadamente 1.588 kg, o Sorento deixava claro que pretendia ser mais do que um simples utilitário familiar. Pesando pouco mais de duas toneladas em determinadas configurações, ele não era particularmente econômico - o V6 registrava consumo combinado oficial na casa dos 7 km/l em uma das especificações de mercado, - mas entregava exatamente aquilo que muitos compradores esperavam de um SUV daquela época: robustez, espaço, posição elevada de condução e capacidade para viajar com desenvoltura por estradas pavimentadas ou não.
O Sorento de 2003 acabou representando, portanto, um momento importante na história da KIA. Ainda distante da sofisticação tecnológica e do refinamento dos SUVs atuais da marca, ele foi um dos produtos que ajudaram a demonstrar que o fabricante coreano estava pronto para deixar de ser visto apenas como uma alternativa de preço baixo. Robusto, relativamente simples em sua concepção e dotado de verdadeira vocação para o fora de estrada, o primeiro Sorento abriu uma porta importante para a KIA no lucrativo universo dos SUVs - um segmento que, duas décadas depois, se tornaria um dos pilares da própria empresa.