LAGONDA LG45 ROADSTER (1936): O RUGIDO DA RESSURREIÇÃO E O RENASCIMENTO BRITÂNICO SOB O GÊNIO DE W.O. BENTLEY
Em 1936, enquanto a Europa se preparava para as sombras da década seguinte e o automóvel lutava para equilibrar luxo, potência e refinamento, a Lagonda - recém-salva da falência graças à vitória épica em Le Mans de 1935 com o M45R Rapide - apresentou seu trunfo: o LG45, em sua cobiçada versão Roadster (ou open tourer, frequentemente inspirado no lendário Rapide).
Produzido entre 1936 e 1937 em cerca de 280 unidades totais (das quais apenas 25 eram os exclusivos Rapide), o modelo marcou o renascimento da marca sob a batuta técnica de ninguém menos que W.O. Bentley, o fundador da Bentley que, após deixar sua própria empresa, injetou na Lagonda o know-how que a transformaria em sinônimo de grand touring britânico de elite.
O LG45 evoluiu diretamente do M45 vitorioso em La Sarthe, mas com refinamentos cruciais assinados por Bentley: o motor Meadows de 4.5 litros (4.453 cm³), um straight-six OHV com bloco de ferro e cabeçote aprimorado, recebeu atualizações progressivas nas ‘Sanctions’ (melhorias oficiais). Na versão Rapide de alta compressão, com duplo carburador SU e ignição dupla (magnetos Scintilla Vertex), o bloco entregava cerca de 130-150 cv (dependendo da regulagem), torque abundante em baixas rotações e um ronco grave que ecoava a herança de corrida. Acoplado a uma transmissão de 4 velocidades com sincronizador (G9 ou G10, com synchromesh progressivo), permitia ao roadster leve alcançar mais de 160 km/h (testes da época registraram 108 mph, cerca de 174 km/h em condições ideais) e acelerações dignas de esportivos contemporâneos.
O Roadster de 1936, com carroceria aberta desenhada por Frank Feeley (futuro autor dos primeiros Aston Martin DB), exibia linhas longas e baixas, para-brisa rebatível, capota de lona retrátil e frequentemente escapamentos duplos cromados saindo pelas laterais do capô - um detalhe que causava furor nas ruas de Londres. A suspensão independente dianteira com barras de torção (inovação de Bentley), amortecedores hidráulicos e freios Girling a tambor nas quatro rodas garantiam estabilidade e frenagem que superavam muitos rivais mais caros. Com peso em torno de 1.600-1.800 kg, o carro era um grand tourer perfeito: confortável para viagens longas, mas feroz o suficiente para estradas sinuosas ou provas de endurance.
Produzido em números limitadíssimos - especialmente as versões Rapide de quatro lugares ou as raras configurações two-seater inspiradas nos carros de corrida -, o LG45 Roadster era o carro dos gentlemen drivers que desejavam o melhor da engenharia britânica sem o peso institucional de Rolls-Royce ou Bentley. Muitos participaram de rallys, hill climbs e até competições continentais, provando que a Lagonda não era apenas luxo: era performance com pedigree.
Quase noventa anos depois, um Lagonda LG45 Roadster de 1936 continua a ser um ícone de resiliência e elegância. Sob o capô, o straight-six refinado por Bentley ainda ronca com autoridade; nas curvas, o equilíbrio e o torque lembram que o verdadeiro luxo não é ostentação, mas sim a capacidade de devorar quilômetros com refinamento e emoção. Um clássico que renasceu das cinzas de Le Mans e nunca mais olhou para trás: a Lagonda que provou que, mesmo em tempos difíceis, a grandeza britânica sobre rodas podia voltar mais forte do que nunca.