LANCIA AURELIA B20S GT COUPÉ 1958: O PIONEIRO DO GRAN TURISMO
Em um mundo automotivo ainda se recuperando das cicatrizes da Segunda Guerra Mundial, a Lancia, sob a liderança visionária de Gianni Lancia, apresentou ao mundo um ícone que redefiniria o conceito de automóvel: o Lancia Aurelia B20S GT Coupé. Lançado inicialmente em 1951 e evoluindo até sua sexta série em 1958, este modelo não foi apenas um carro, mas uma revolução sobre rodas, sendo considerado o primeiro Gran Turismo (GT) da história. Com sua combinação de desempenho, elegância e inovação técnica, o Aurelia B20S GT Coupé de 1958 é uma obra-prima que continua a encantar entusiastas e colecionadores.
Origens e Inovação
Apresentado pela primeira vez no Salão de Turin em 1950, o Lancia Aurelia foi um marco técnico, projetado pelo lendário engenheiro Vittorio Jano, com contribuições cruciais de Francesco de Virgilio, que desenvolveu o primeiro motor V6 de produção em série do mundo. Esse motor, inicialmente de 1.8 litros, evoluiu ao longo das séries até alcançar 2.5 litros na sexta série do B20S GT de 1958, entregando 112 cv a 4.700 rpm. Construído em alumínio com camisas de cilindro em ferro fundido, o V6 de 60° era notável por sua suavidade e equilíbrio, características que o diferenciavam em uma era dominada por motores menos sofisticados.
O B20S GT (o ‘S’ indica sinistra, ou direção à esquerda) não era apenas sobre potência. Sua carroceria, desenhada pela renomada Pininfarina (com possíveis contribuições iniciais da Ghia, segundo algumas fontes), exibia linhas sensuais, com um capô longo e uma traseira fastback que exalava elegância e modernidade. A suspensão dianteira de coluna deslizante (sliding pillar), herdada do clássico Lancia Lambda, e a traseira independente, posteriormente substituída por um sistema De Dion na quarta série, garantiam uma dirigibilidade excepcional, tornando o carro um prazer tanto em estradas sinuosas quanto em longas viagens.
O Nascimento do Gran Turismo
O conceito de Gran Turismo nasceu com o Aurelia B20. Ao contrário dos coupés tradicionais, focados na funcionalidade, o B20S GT foi projetado para o prazer de dirigir. Era um carro que combinava desempenho esportivo com o conforto de um sedan, ideal para longas distâncias em alta velocidade. Com uma carroceria compacta de 2 plus 2 lugares, pesando cerca de 1.220 kg, e uma transmissão manual de 4 velocidades integrada a um transeixo traseiro (com freios inboard para reduzir o peso não suspenso), o B20S oferecia uma experiência de condução refinada, alcançando velocidades máximas próximas de 180 km/h.
Legado nas Pistas
O Aurelia B20S GT também deixou sua marca no automobilismo esportivo. Sob a bandeira da Scuderia Lancia, com o emblema de um elefante vermelho galopante desenhado pelo piloto Enrico Anselmi, o modelo acumulou vitórias impressionantes. Em 1951, ficou em segundo lugar na Mille Miglia, superado apenas por um Ferrari F340 America. Em 1952, venceu a Targa Florio com Felice Bonetto e alcançou o sexto lugar nas 24 Horas de Le Mans. Outros triunfos incluíram o Rally Liège-Roma-Liège (1953), o Rally Monte-Carlo (1954) e o Rally da Acrópole (1958), este último com Luigi Villoresi. Essas conquistas reforçaram a reputação do B20 como um carro de rua com alma de competição, admirado por pilotos como Juan Manuel Fangio, que usou um B20 para cruzar a Europa em alta velocidade.
Um Ícone Cultural
Além de seu impacto técnico e esportivo, o Lancia Aurelia B20S GT tornou-se uma estrela cultural. Sua silhueta elegante apareceu em obras icônicas, como na história em quadrinhos do Tintin ‘O Caso Girassol’ de Hergé, onde um B20 vermelho é pilotado pelo caricatural condutor italiano Cartoffoli. No cinema, o modelo brilhou em filmes como Et Dieu… créa la femme (1956), com Brigitte Bardot, e Il Sorpasso (1962), um marco do cinema italiano que destacou o B24 conversível, mas reforçou a aura do Aurelia como símbolo de estilo e liberdade.
A Exclusividade da Série VI
A sexta geração do B20S GT, produzida entre 1957 e 1958, trouxe refinamentos finais, como defletores nas portas, ajustes no motor para maior torque (172 Nm) e melhorias mecânicas sutis. Apenas 621 unidades desta série foram fabricadas, sendo 425 com direção à esquerda, tornando o B20S GT de 1958 uma raridade cobiçada. Muitos exemplares, como os restaurados por especialistas como Eckerfeld em Berlin, mantêm números correspondentes (chassi e motor), aumentando seu valor histórico e de mercado, com preços que hoje variam entre 130.000 e 200.000 euros, dependendo do país.
Um Legado Eterno
Entre 1951 e 1958, cerca de 3.871 unidades do B20 GT foram produzidas, das quais apenas uma fração permanece em condições impecáveis. O Lancia Aurelia B20S GT Coupé de 1958 não é apenas um carro, mas um testemunho da engenhosidade italiana, combinando arte, tecnologia e emoção. Ele pavimentou o caminho para modelos como o Ferrari F250 GT e o Aston Martin DB4, consolidando o conceito de Gran Turismo que ainda inspira fabricantes modernos. Para os entusiastas, possuir um B20S é mais do que colecionar um clássico; é preservar um pedaço da história automotiva que continua a acelerar corações.