LANCIA DILAMBDA CARLTON CABRIOLET (1930): O REFINAMENTO ITALIANO ENCONTRA A ELEGÂNCIA BRITÂNICA
Nossa viagem pelo final dos anos 1920 nos leva novamente à Lancia, mas agora a uma máquina de caráter muito diferente do revolucionário Lambda. Apresentado no Salão de Paris de 1929 como sucessor daquele modelo, o Lancia Dilambda representava uma nova interpretação do automóvel de luxo de Vincenzo Lancia: mais potente, mais sofisticado e concebido desde o princípio para atender também a uma clientela internacional que desejava carrocerias especiais. E um dos exemplares mais extraordinários dessa primeira geração foi justamente o Dilambda Cabriolet de 1930 com carroceria da Carlton Carriage Co., uma combinação fascinante entre engenharia italiana e artesanato britânico.
A mudança mais significativa em relação ao Lambda estava na própria estrutura. Enquanto seu antecessor havia se tornado célebre pela construção monobloco, o Dilambda voltou a utilizar um chassi separado, decisão que poderia parecer um retrocesso, mas que tinha uma razão bastante prática: permitir que clientes de alto poder aquisitivo encomendassem carrocerias personalizadas aos grandes encarroçadores europeus. A Lancia havia identificado no Dilambda uma oportunidade de conquistar compradores nos Estados Unidos e em outros mercados internacionais, e o novo chassi oferecia justamente a flexibilidade necessária para transformar cada automóvel em uma peça praticamente individual.
No centro dessa nova máquina estava uma das maiores especialidades técnicas da Lancia: um motor V8 de ângulo estreitíssimo, com 3.958 cm³, válvulas no cabeçote e apenas 24 graus entre os dois bancos de cilindros. A disposição permitia utilizar uma única cabeça de cilindros e resultava em um motor extraordinariamente compacto para sua cilindrada. Alimentado por carburador Zenith, o propulsor desenvolvia aproximadamente 100 cv, potência muito expressiva para o início dos anos 1930. A transmissão era manual de 4 velocidades, com tração traseira, enquanto a suspensão dianteira independente por pilares deslizantes, uma herança direta do Lambda, continuava proporcionando ao Dilambda uma qualidade de rodagem excepcional.
O Dilambda era oferecido em duas distâncias entre-eixos durante suas primeiras séries: o Tipo 227, de 3.475 mm, e o Tipo 229, mais curto, com 3.290 mm. O exemplar Carlton que estamos conhecendo pertence à primeira série e utiliza justamente o chassi 27-611, correspondente ao Tipo 227. Com seus quase 4.0 litros e 100 cv, a versão de chassi curto podia alcançar aproximadamente 140 km/h, uma velocidade extraordinária para um automóvel de luxo daquela época.
Sobre esse sofisticado chassi italiano surgiu uma carroceria absolutamente especial. A responsável foi a Carlton Carriage Co., estabelecida em Willesden, no norte de Londres, um encarroçador britânico que possuía experiência na construção de carrocerias para marcas de prestígio como Rolls-Royce e Bentley. No caso do Dilambda, a Carlton criou uma elegante carroceria two-door drophead coupé, de proporções longas e baixas, combinando a formalidade de um grande automóvel de luxo com a liberdade proporcionada pelo teto conversível. O resultado parece perfeitamente natural, como se o Dilambda tivesse sido projetado desde o início para receber aquela carroceria - exatamente o tipo de harmonia que distinguia os grandes trabalhos dos encarroçadores europeus.
A história do exemplar torna tudo ainda mais interessante. O carro teria sido encomendado novo pelo britânico Sir Douglas Montgomery Bernard Hall, segundo baronete, depois de uma viagem à Itália. Ele batizou seu automóvel de ‘Blue Shadow’, referência à combinação cromática original em cinza-claro e azul. A carroceria utilizava estrutura de madeira revestida por painéis de aço, enquanto o interior recebia detalhes em madeira nobre. Rodas raiadas Rudge-Whitworth, capota azul e o volante à direita completavam a personalidade tipicamente aristocrática daquele grand tourer.
O contraste entre nacionalidades é talvez o aspecto mais fascinante do automóvel. O coração era italiano, o chassi era Lancia e a carroceria era britânica, construída de acordo com o gosto individual de um cliente inglês. Era exatamente essa possibilidade de personalização que justificava o retorno da Lancia ao chassi separado. Em vez de simplesmente comprar um modelo produzido em série, o cliente poderia escolher um encarroçador e transformar o automóvel em algo único. No Dilambda Carlton, essa filosofia encontrou uma de suas expressões mais elegantes.
E embora fosse um automóvel de luxo, o Dilambda estava longe de ser apenas uma peça de desfile. A combinação do V8 de 4.0 litros, baixo centro de gravidade, suspensão dianteira independente e construção cuidadosamente elaborada fazia dele um extraordinário automóvel para longas viagens. Sua produção, contudo, permaneceu relativamente limitada: a primeira série teve aproximadamente 700 unidades, seguida por uma segunda série também de cerca de 700 exemplares, e toda a carreira do Dilambda, encerrada em 1935, resultaria em algo em torno de 1.700 carros.
O Lancia Dilambda Carlton Cabriolet de 1930 é, portanto, uma magnífica representação de uma época em que um automóvel de luxo ainda podia ser concebido como uma obra artesanal. Ele reúne a ousadia mecânica de Vincenzo Lancia - expressa naquele extraordinário V8 de 24 graus e na suspensão independente - com a tradição britânica de construir carrocerias sob medida. Não possui a revolucionária estrutura monocoque do Lambda que o antecedeu, mas compensava essa escolha oferecendo algo igualmente precioso para sua clientela: a liberdade de transformar uma sofisticada máquina italiana em um automóvel verdadeiramente único. E, nesse exemplar Carlton, Itália e Inglaterra encontraram uma das mais elegantes formas possíveis de conversar através do automóvel.