LANCIA LAMBDA STABILIMENTI FARINA SALOON (1927): A REVOLUÇÃO SILENCIOSA DE VINCENZO LANCIA
Voltemos agora à Itália de 1927, mas deixemos por alguns instantes de lado a imagem tradicional dos grandes automóveis italianos da década. Antes das extravagantes carrocerias que fariam a fama de Turin, existiu um Lancia que já estava experimentando soluções estruturais e mecânicas que só se tornariam comuns muitas décadas depois. É nesse cenário que encontramos o Lancia Lambda Farina Saloon, uma elegante interpretação fechada do revolucionário Lambda, construída pela Stabilimenti Farina, uma das importantes casas de carroceria de Turin. O automóvel pertencia à sétima série do Lambda, produzida entre 1926 e 1928, período em que Vincenzo Lancia já havia transformado seu modelo em um dos carros tecnicamente mais avançados do mundo.
Apresentado originalmente em 1922, o Lambda havia rompido com praticamente tudo o que se esperava de um automóvel convencional. Em vez do tradicional chassi separado sobre o qual se montava a carroceria, Lancia desenvolveu uma estrutura autoportante, inspirada na construção dos cascos de navios. A própria carroceria passou a desempenhar função estrutural, proporcionando maior rigidez e permitindo reduzir significativamente o peso e a altura do automóvel. A solução também liberava espaço interno e contribuía para um centro de gravidade mais baixo. Para completar a revolução, o Lambda foi equipado com suspensão dianteira independente por pilares deslizantes, outra solução pioneira que se tornaria uma de suas características mais famosas.
Para 1927, o Lambda estava na sétima série, identificada pelo tipo 219, e havia recebido uma importante evolução mecânica. O pequeno V4 de ângulo extremamente estreito cresceu para 2.375 cm³, mantendo a configuração que havia se tornado uma assinatura técnica da Lancia. O motor desenvolvia aproximadamente 59 cv a 3.250 rpm, números modestos pelos padrões atuais, mas bastante expressivos para um automóvel de aproximadamente 1.200 kg naquela época. A transmissão manual de 4 velocidades - introduzida nas séries anteriores - enviava a força às rodas traseiras. A velocidade máxima ficava em torno de 115 km/h, o que fazia do Lambda um automóvel realmente veloz para o período.
A construção da carroceria Farina acrescentava uma dimensão de sofisticação ao projeto. A partir da sétima série, a Lancia passou a oferecer também o Lambda como chassi destinado aos encarroçadores, permitindo que casas especializadas desenvolvessem suas próprias interpretações. A decisão era importante porque a estrutura monobloco limitava a liberdade dos encarroçadores em comparação com os tradicionais chassis separados, mas a crescente procura por versões especiais acabou criando uma pequena família de Lambda de carrocerias únicas. Entre elas estavam justamente as criações da Stabilimenti Farina, além de trabalhos de Touring, Casaro, Weymann e outros nomes importantes da época.
No caso do Farina Saloon, a proposta era transformar a avançada plataforma do Lambda em um automóvel mais fechado, refinado e apropriado para viagens e utilização cotidiana. A elegância italiana estava presente nas proporções baixas e relativamente estreitas da carroceria, enquanto o interior oferecia o conforto esperado de um automóvel de prestígio. Era uma combinação interessante: por fora, a aparência ainda guardava muito da tradição dos automóveis dos anos 1920; por baixo, porém, havia uma arquitetura que parecia ter vindo de uma década muito mais distante no futuro.
Essa capacidade de unir inovação e elegância ajudou a explicar a reputação extraordinária conquistada pelo Lambda. Embora não tenha sido concebido especificamente como carro de competição, seu baixo peso, excelente rigidez estrutural, suspensão independente e motor V4 compacto lhe proporcionavam qualidades dinâmicas excepcionais. A prova definitiva veio justamente em 1927, quando um Lambda participou da primeira Mille Miglia, disputada entre Brescia e Roma. A dupla Ermenegildo Strazza e Attilio Varallo terminou em quarto lugar na classificação geral e venceu a classe até 3.0 litros, demonstrando que aquele sofisticado automóvel de estrada podia enfrentar máquinas criadas explicitamente para a competição.
Há ainda um detalhe particularmente interessante sobre o Lambda de 1927: sua longevidade técnica. O modelo permaneceria em produção até 1931, atravessando nove séries e recebendo sucessivos aumentos de cilindrada, aperfeiçoamentos mecânicos e novas carrocerias. Aproximadamente 13 mil exemplares seriam construídos ao longo de sua carreira, um número expressivo para um automóvel tão sofisticado.
O Lancia Lambda Farina Saloon de 1927, portanto, merece um lugar especial na história da marca. Ele não possui a exuberância visual de um grande esportivo italiano posterior, nem a fama popular de um Miura, mas representa algo talvez ainda mais importante: a coragem de imaginar o automóvel de uma maneira completamente diferente. Enquanto a maior parte da indústria ainda construía carros sobre pesados chassis derivados das carruagens, Vincenzo Lancia já pensava em estruturas autoportantes, suspensão independente, baixo centro de gravidade e integração entre carroceria e mecânica. O resultado foi um daqueles automóveis que não apenas pertencem à sua época - eles antecipam a nossa.