LISTER JAGUAR COSTIN (1959): A ÚLTIMA GRANDE CARTADA DA MARCA BRITÂNICA DE CAMBRIDGE
Em 1959, a pequena Lister Motor Company, de Cambridge, enfrentava um dos momentos mais importantes de sua trajetória. Depois de conquistar uma extraordinária reputação nas pistas com o Lister Jaguar ‘Knobbly’, Brian Lister decidiu que precisava de uma máquina capaz de levar ainda mais longe o potencial de seu chassi. Para isso, recorreu ao engenheiro e aerodinamicista Frank Costin, e dessa colaboração nasceu um dos mais belos e tecnicamente interessantes esportivos de competição britânicos da década: o Lister Jaguar Costin. O novo automóvel mantinha a arquitetura mecânica fundamental do Lister anterior, mas recebia uma carroceria completamente nova, concebida para reduzir o arrasto aerodinâmico e aumentar a velocidade máxima.
A transformação visual era radical. Costin abandonou as formas volumosas e musculosas que haviam caracterizado os Lister anteriores e criou uma carroceria de alumínio extremamente fluida, com perfil baixo, capô longo, cabine recuada, para-brisa envolvente e uma traseira elevada e cuidadosamente integrada. A preocupação aerodinâmica era evidente em cada superfície. O próprio Costin já havia utilizado conceitos semelhantes no Lotus que venceu sua classe em Le Mans em 1957, e levou essa experiência para o novo Lister. O resultado era uma máquina visualmente mais limpa e, sobretudo, muito mais eficiente em alta velocidade.
A carroceria cobria um chassi tubular de aço, evolução da estrutura utilizada nos Lister anteriores, e o conjunto pesava aproximadamente 765 kg, dependendo da configuração. Com cerca de 4.39 metros de comprimento, apenas 79 centímetros de altura e entre-eixos de aproximadamente 2.30 metros, o Costin tinha proporções extremamente compactas. A baixa área frontal era uma de suas principais armas, permitindo que a potência disponível fosse convertida em velocidade com menor resistência aerodinâmica.
Para a configuração Jaguar, o motor era o célebre bloco de 6 cilindros em linha XK, naturalmente aspirado, com duplo comando de válvulas no cabeçote. O Lister podia utilizar diferentes cilindradas, mas o exemplar de especificação 3.0 litros empregava uma unidade de aproximadamente 2.996 cm³, alimentada por três carburadores Weber, capaz de produzir cerca de 260 cv. Outras unidades de competição receberam o XK de 3.4 ou 3.8 litros, este último podendo atingir aproximadamente 300 cv. A própria Lister anunciava que, com o motor de 3.8 litros, o carro tinha potencial para alcançar cerca de 290 km/h.
A transmissão era uma caixa manual de 4 velocidades totalmente sincronizadas, derivada da utilizada nos Jaguar D-Type. A suspensão dianteira empregava braços duplos sobrepostos e molas helicoidais, enquanto atrás havia um sofisticado eixo De Dion, também associado a molas helicoidais e braços longitudinais. A direção utilizava sistema de pinhão e cremalheira, e os freios eram a disco nas quatro rodas. Para um carro de competição do final dos anos 1950, era uma combinação extremamente avançada.
O resultado dessa engenharia podia ser percebido imediatamente nas pistas. O primeiro Lister Costin oficial, chassis BHL 2-59, estreou em Goodwood no Easter Monday de 1959, conduzido por Ivor Bueb, e conquistou a vitória no Sussex Trophy. Pouco depois, a nova máquina continuaria demonstrando seu potencial em circuitos britânicos, enquanto a equipe de fábrica também preparava carros para provas internacionais.
A temporada de 1959 também levou os Lister Costin a Le Mans, onde dois exemplares oficiais foram inscritos. O BHL 2-59 foi conduzido por Ivor Bueb e Bruce Halford, enquanto o BHL 3-59 teve Walt Hansgen e Peter Blond como pilotos. Ambos, infelizmente, abandonaram por problemas de motor, mostrando como a extraordinária velocidade do projeto ainda precisava ser acompanhada pela indispensável confiabilidade para enfrentar 24 horas de competição.
Apesar de sua carreira relativamente curta, o Costin conseguiu algo extremamente importante: preservar a competitividade da Lister em um momento em que os carros de motor traseiro começavam a alterar profundamente o cenário das corridas de carros esportivos. A pequena empresa de Cambridge não dispunha dos recursos dos grandes fabricantes, mas compensava essa limitação com inteligência de engenharia, baixo peso e soluções cuidadosamente desenvolvidas. O Lister utilizava componentes comprovados da Jaguar e os transformava em uma máquina muito mais leve e aerodinamicamente eficiente.
A produção foi extremamente limitada. Dependendo da forma de contabilização das diferentes configurações mecânicas, são citados 14 exemplares Costin, enquanto algumas fontes agrupam as diferentes versões e mencionam 17 carros da família. De qualquer maneira, estamos falando de uma produção artesanal e minúscula. Cada automóvel representa, portanto, uma parte particularmente rara da história da competição britânica dos anos 1950.
O Lister Jaguar Costin de 1959 permanece especial justamente porque sua beleza não nasceu de uma preocupação puramente estética. Cada curva da carroceria tinha uma função aerodinâmica; cada quilo economizado contribuía para o desempenho; cada componente Jaguar escolhido por Brian Lister servia a um propósito. Frank Costin conseguiu transformar um esportivo de competição já extremamente competente em uma máquina de aparência quase futurista para sua época. O resultado foi um automóvel baixo, leve, elegante e brutalmente rápido - uma expressão perfeita daquela extraordinária escola britânica de engenharia artesanal em que inteligência, simplicidade e velocidade podiam superar recursos financeiros muito maiores.