LOLA ASTON MARTIN LMP1 (2008): O RUGIDO BRITÂNICO QUE DESAFIOU AUDI E PEUGEOT EM LE MANS
Em 2008, a tradicional Lola Cars International, de Huntingdon, na Inglaterra, decidiu voltar a ocupar um lugar de destaque entre os grandes protótipos de endurance com uma máquina que reunia duas importantes forças do automobilismo britânico: o chassi Lola e o poderoso V12 da Aston Martin. O resultado foi o Lola B08/60 LMP1, desenvolvido para a equipe Charouz Racing System com apoio técnico da Aston Martin Racing e da Prodrive. Mais do que um novo protótipo, o projeto representava uma importante mudança de filosofia para a Lola, que voltava a construir um LMP de cockpit fechado desde o T92/10 de 1992.
O B08/60 nasceu em resposta à evolução dos protótipos fechados, particularmente o Peugeot 908 HDi FAP, e também às futuras regulamentações que privilegiariam esse tipo de carroceria. Durante mais de um ano, os engenheiros da Lola trabalharam em CFD e túnel de vento para desenvolver uma carroceria de elevada eficiência aerodinâmica. O resultado foi um protótipo de linhas extremamente baixas e largas, com cockpit fechado, enormes entradas de ar e uma carroceria concebida para produzir elevada carga aerodinâmica sem comprometer a velocidade nas longas retas de Le Mans.
Sob a carroceria estava uma das maiores atrações do projeto: o V12 naturalmente aspirado de 5.993 cm³ da Aston Martin, derivado diretamente do motor utilizado no GT1 DBR9. Instalado longitudinalmente em posição central-traseira, o propulsor produzia aproximadamente 670 cv, dependendo da configuração e dos regulamentos aplicados, e era ligado a uma transmissão sequencial Xtrac de 6 velocidades. Como o enorme V12 era mais volumoso que os motores originalmente previstos para o Lola, foi necessário adaptar o conjunto de transmissão, utilizando uma caixa Xtrac mais compacta. O carro pesava aproximadamente 900 kg, o que proporcionava uma relação peso-potência extraordinária.
A estreia competitiva aconteceu nas 6 Horas de Barcelona, primeira etapa da temporada 2008 da Le Mans Series, e o novo Lola Aston Martin imediatamente mostrou que poderia incomodar os protótipos a diesel de Audi e Peugeot. Largando da quarta posição, Stefan Mücke avançou para terceiro e manteve o carro entre os líderes durante a prova, antes de entregar o volante a Jan Charouz. O resultado foi um expressivo terceiro lugar geral, um verdadeiro cartão de visitas para um projeto completamente novo.
Em Le Mans, entretanto, a história foi mais complicada. O Lola Aston Martin qualificou-se em sexto entre os LMP1, com 3min25s158, e chegou a superar um dos Audi R10 TDI durante a sessão classificatória. Na corrida, porém, uma colisão obrigou o protótipo a passar por reparos e comprometeu sua classificação. Ainda assim, Charouz, Mücke e Tomás Enge conseguiram conduzi-lo de volta ao grupo da frente e terminaram em nono lugar geral, completando 354 voltas.
A temporada terminou com outro grande momento em Silverstone. Na etapa final da Le Mans Series, o Lola Aston Martin conseguiu acompanhar os Audi R10 TDI e cruzou a linha de chegada em segundo lugar geral, depois de inclusive assumir a liderança durante a prova. Foi a melhor colocação da Lola naquele campeonato em 2008 e uma demonstração de que o V12 atmosférico britânico ainda podia enfrentar os sofisticados protótipos turbodiesel alemães e franceses. Ao final da temporada, a Charouz Racing System terminou em quinto lugar no campeonato de equipes da LMP1.
O B08/60 também abriu caminho para uma parceria ainda mais estreita entre Lola e Aston Martin. Sua evolução direta seria o Lola-Aston Martin B09/60, desenvolvido juntamente com a Prodrive para a temporada de 2009 e conhecido internamente pela Aston Martin como DBR1-2, uma homenagem ao lendário DBR1 que venceu Le Mans em 1959. O novo protótipo conservaria o V12 de 6.0 litros, mas receberia diversas evoluções aerodinâmicas e mecânicas.
O Lola Aston Martin LMP1 de 2008 permanece, assim, como um dos protótipos mais interessantes daquela geração de Le Mans. Ele combinava a competência aerodinâmica de um dos mais tradicionais construtores britânicos de carros de competição com o carisma mecânico de um V12 Aston Martin, tudo isso em uma época em que Audi e Peugeot dominavam as pistas com seus sofisticados motores diesel. Não conquistou Le Mans, mas conseguiu algo talvez igualmente importante para sua breve história: provar que um protótipo privado, movido por um grande V12 naturalmente aspirado e concebido na Inglaterra, ainda podia desafiar os gigantes da resistência.