LOREMO LS (2006): O PEQUENO ALEMÃO QUE QUERIA FAZER 1.300 QUILÔMETROS COM APENAS 20 LITROS
Em 2006, quando a indústria automobilística ainda começava a discutir seriamente alternativas ao automóvel convencional, uma pequena empresa alemã chamada Loremo AG apareceu no Salão de Genebra com uma proposta quase desconcertante: um automóvel de quatro lugares capaz de percorrer 100 quilômetros com apenas 1.5 litro de diesel. Batizado Loremo LS, o protótipo condensava a filosofia do recém-criado fabricante - Low Resistance Mobile - em uma máquina de apenas 450 kg, extremamente baixa, estreita e aerodinâmica. A ideia era simples: em vez de gastar enormes quantidades de energia para movimentar um automóvel pesado, por que não construir um carro que simplesmente precisasse de muito menos energia?
O resultado era visualmente tão incomum quanto tecnicamente interessante. Com 3.84 metros de comprimento, 1.36 metro de largura e cerca de 1.10 metro de altura, o LS parecia uma mistura de coupé esportivo, protótipo de competição e pequeno carro urbano. Sua carroceria de linhas extremamente fluidas apresentava um coeficiente aerodinâmico anunciado de apenas 0.20, enquanto os painéis externos eram produzidos em termoplástico, dispensando a tradicional pintura e contribuindo para a redução de peso. O chassi, por sua vez, pesava somente 95 kg e utilizava uma estrutura denominada linear cell structure, concebida para combinar baixo peso, rigidez torcional e proteção aos ocupantes.
A maneira de entrar no LS era talvez sua característica mais extravagante. Não havia portas laterais convencionais. Toda a seção dianteira da carroceria, incluindo o para-brisa, podia ser inclinada para a frente, permitindo que condutor e passageiro acessassem os bancos por uma abertura frontal. A solução lembrava a cabine de um avião de caça e também contribuía para a singularidade estrutural do veículo. Atrás dos dois ocupantes dianteiros havia mais dois lugares voltados para trás, formando uma configuração 2/2 bastante incomum. A tampa traseira vertical dava acesso aos bancos posteriores e ao espaço destinado à bagagem.
Por baixo daquela carroceria futurista estava uma mecânica deliberadamente modesta. O LS havia sido projetado para utilizar um motor turbodiesel de 2 cilindros, com aproximadamente 1.5 litros de cilindrada e 20 cv, instalado em posição central e associado a uma transmissão manual de 5 velocidades. A tração era traseira. Com tão pouca potência, o desempenho não poderia ser esportivo pelos padrões tradicionais: a aceleração de 0 a 100 km/h levava aproximadamente 20 segundos, mas a velocidade máxima anunciada chegava a 160 km/h. O extraordinário estava em outro número: o consumo projetado de apenas 1.5 l/100 km.
Com um tanque de aproximadamente 20 litros, a Loremo calculava uma autonomia teórica de cerca de 1.300 quilômetros. O conceito chegava, portanto, a números que na época pareciam absurdos para um automóvel convencional: aproximadamente 157 mpg (EUA), ou cerca de 66.7 km/l. A empresa estimava ainda emissões de CO2 na faixa de apenas 50 g/km, embora essas cifras fossem projeções de engenharia e não resultados de uma homologação definitiva. O baixo consumo não dependia de nenhuma tecnologia híbrida sofisticada: era consequência direta da combinação entre massa reduzida, baixa resistência aerodinâmica e um pequeno motor de combustão.
A concepção dinâmica também seguia princípios pouco convencionais. A posição central do motor ajudava a obter uma distribuição de massas próxima de 50:50, enquanto a estrutura rígida e o baixo centro de gravidade procuravam oferecer estabilidade superior àquela sugerida pela potência diminuta. Na traseira, a Loremo desenvolveu uma suspensão própria baseada em uma arquitetura de braços longitudinais e semitransversais, enquanto a carroceria recebia soluções aerodinâmicas específicas para controlar o fluxo de ar sob o automóvel. Tudo fazia parte de uma mesma filosofia: eliminar desperdícios em vez de simplesmente acrescentar tecnologia para compensá-los.
O Salão de Genebra de 2006 marcou, contudo, apenas a apresentação do conceito. O protótipo exibido naquele momento ainda não representava um automóvel de produção completamente funcional e a Loremo planejava desenvolver posteriormente um protótipo rodante, realizar testes de condução e crash-tests e chegar a uma pequena série por volta de 2009. A empresa imaginava inicialmente uma produção de cerca de 10 mil unidades, possivelmente utilizando um fabricante terceirizado antes de estabelecer sua própria fábrica na Alemanha.
A história acabaria não permitindo que o sonho chegasse tão longe. O LS permaneceu como um projeto experimental e a Loremo posteriormente voltou sua atenção também para uma versão elétrica. Ainda assim, o pequeno coupé alemão de 2006 tornou-se uma referência particularmente interessante entre os projetos de mobilidade ultra racional da primeira década do século XXI. Muito antes de a indústria começar a falar intensamente em eficiência aerodinâmica, redução de massa e veículos elétricos de baixo consumo, o Loremo LS já demonstrava que essas três ideias podiam ser combinadas em uma arquitetura extremamente compacta.
O Loremo LS 2006 talvez não tenha sido o automóvel mais rápido, confortável ou convencional de sua época - e certamente não pretendia ser. Sua importância está justamente em ter questionado uma premissa que dominava a indústria: a de que eficiência necessariamente exigia sistemas cada vez mais complexos. A pequena máquina alemã propunha o contrário. Menos peso, menos resistência e menos potência poderiam significar menos energia - e, consequentemente, um automóvel muito mais eficiente. O LS jamais chegou à produção em série, mas sua filosofia continua surpreendentemente atual.