LOTUS ELEVEN: A PEQUENA FLECHA QUE COLOCOU A LOTUS ENTRE OS GRANDES
No final dos anos 1950, poucos fabricantes britânicos conseguiam traduzir tão bem a filosofia de Colin Chapman quanto a Lotus. Em uma época na qual desempenho ainda era frequentemente associado a motores grandes e carros pesados, o pequeno fabricante de Hornsey, no norte de Londres, seguia exatamente na direção oposta: retirar tudo aquilo que não fosse necessário para andar rápido. O Lotus Eleven, ou Type 11, nascido para a temporada de 1956 e produzido em diferentes versões até 1959, foi uma das expressões mais brilhantes dessa filosofia e ajudou a transformar a Lotus de uma pequena oficina de carros esportivos de competição em uma marca reconhecida internacionalmente.
O Eleven nasceu como sucessor natural dos esportivos de competição anteriores da Lotus, mas representou um salto significativo em termos de aerodinâmica. O chassi desenvolvido sob a orientação de Chapman utilizava uma estrutura tubular extremamente leve, enquanto a carroceria de alumínio, desenhada pelo engenheiro aeronáutico Frank Costin, apresentava uma forma baixa, estreita e extraordinariamente aerodinâmica para sua época. As rodas parcialmente envolvidas pela carroceria, o nariz longo e arredondado, a pequena área frontal e a traseira afilada faziam o Eleven parecer mais uma pequena aeronave sobre quatro rodas do que um tradicional esportivo britânico. Era justamente essa combinação de baixo peso e reduzida resistência aerodinâmica que permitia ao Lotus competir contra automóveis muito mais potentes.
A gama compreendia diferentes configurações. O Eleven Le Mans era a versão mais sofisticada, destinada diretamente às provas de resistência, com motor Coventry Climax, eixo traseiro De Dion e freios a disco nas quatro rodas. O Club utilizava igualmente um Coventry Climax, mas recorria a eixo traseiro rígido e freios a tambor, enquanto o Sport empregava o motor Ford de 4 cilindros e 1.172 cm³. O coração da versão mais competitiva era o pequeno Coventry Climax FWA de 1.098 cm³, 4 cilindros em linha, comando de válvulas no cabeçote e alimentação por carburadores, capaz de produzir aproximadamente 80 cv em configuração de competição.
E foi justamente nas pistas que o Eleven construiu sua reputação. Em sua estreia em Le Mans, em 1956, um Eleven equipado com o Climax de 1.1 litros, pilotado por Reg Bicknell e Peter Jopp, terminou em 7º lugar na classificação geral e venceu sua categoria, resultado extraordinário para um automóvel tão pequeno. No ano seguinte, os Eleven voltaram a dominar as categorias de baixa cilindrada, consolidando a reputação da Lotus nas corridas de resistência.
A aerodinâmica também permitiu feitos impressionantes fora das provas tradicionais. Em setembro de 1956, um Eleven especialmente preparado, equipado com uma grande cobertura aerodinâmica sobre o cockpit, foi levado a Monza com Stirling Moss ao volante. O carro estabeleceu diversos recordes mundiais para a categoria de 1.100 cm³, chegando a registrar médias superiores a 217 km/h e, em uma segunda tentativa, uma volta a aproximadamente 230 km/h. A própria Lotus recorda que esses recordes permaneceram registrados por décadas, uma demonstração de como o pequeno Eleven conseguia transformar modestos 1.1 litros em desempenho de nível internacional.
A evolução chegou com o Series 2, introduzido em 1957 e produzido até 1959, justamente a configuração que nos interessa ao chegarmos ao ano de 1959. O modelo recebeu melhorias estruturais e de suspensão, incluindo uma nova geometria dianteira derivada do Lotus Type 12 e a possibilidade de utilizar rodas de magnésio. Na configuração Le Mans, podia receber o Coventry Climax FWB de 1.460 cm³, 4 cilindros, comando simples no cabeçote e dois carburadores Weber, produzindo aproximadamente 100 cv, enquanto o conjunto pesava somente cerca de 450 kg. Com tração traseira e câmbio manual de 4 velocidades, o Eleven podia atingir aproximadamente 225 km/h, números extraordinários para um carro daquela dimensão e potência.
Em 1959, entretanto, o mundo da competição já começava a mudar. A própria Lotus estava avançando para soluções de motor central, que em pouco tempo se tornariam fundamentais para sua trajetória na Fórmula 1 e nas categorias esportivas. Ainda assim, o Eleven permanecia como uma das criações mais importantes da primeira fase da empresa. Sua influência foi muito maior do que sugeriam suas dimensões: com aproximadamente 270 exemplares de todas as versões, ele demonstrou que leveza, eficiência aerodinâmica e inteligência de engenharia poderiam superar a simples força bruta.
O Lotus Eleven de 1959, portanto, representa quase uma síntese da primeira Lotus de Colin Chapman: pequeno, extremamente leve, tecnicamente sofisticado, visualmente inconfundível e concebido com um único objetivo - ser rápido. Mais do que um carro de corrida bem-sucedido, foi uma espécie de manifesto sobre rodas daquilo que Chapman faria durante toda a sua carreira: provar que, quando se consegue eliminar o peso e compreender corretamente a aerodinâmica, não é preciso ter o maior motor para ser o mais rápido. O Eleven foi uma das máquinas que ajudaram a escrever essa filosofia na história do automobilismo.