MAHINDRA XUV.e9 CONCEPT (2022): A VISÃO INDIANA DE UM SUV-COUPÉ ELÉTRICO PARA O FUTURO
Em agosto de 2022, a indústria automobilística indiana deu um importante passo em direção a uma nova era. Em Londres, a Mahindra & Mahindra apresentou sua ambiciosa estratégia Born Electric, revelando cinco SUVs elétricos concebidos sobre uma nova arquitetura modular e desenvolvidos para representar uma mudança profunda na atuação da empresa no segmento de veículos de emissão zero. Entre eles estava o Mahindra XUV.e9, um elegante SUV-coupé que, embora ainda apresentado como conceito, antecipava um dos mais importantes modelos elétricos da futura família XUV. A proposta era particularmente interessante: combinar a robustez e a posição elevada de um SUV tradicional com a silhueta fluida e aerodinâmica de um coupé.
O XUV.e9 fazia parte de uma estratégia que dividia os futuros elétricos da Mahindra em duas famílias. De um lado estava a tradicional marca XUV, agora identificada por um novo logotipo Twin Peak em cobre; do outro, a inédita marca BE, criada exclusivamente para veículos elétricos. O XUV.e9, portanto, não era simplesmente uma versão elétrica de um SUV existente, mas um automóvel concebido desde o princípio dentro do conceito Born Electric. Para sustentar essa nova geração, a Mahindra desenvolveu a arquitetura INGLO, uma plataforma modular do tipo skateboard que utilizava componentes da arquitetura MEB da Volkswagen, resultado da parceria tecnológica entre as duas empresas.
Visualmente, o XUV.e9 apresentava uma das propostas mais ousadas da Mahindra até então. A dianteira era marcada por superfícies limpas, iluminação em LED de desenho extremamente fino e uma interpretação futurista da tradicional identidade dos SUVs da marca. A carroceria avançava para uma cabine deslocada para trás, com grande área envidraçada e teto de perfil descendente, criando a característica silhueta de SUV-coupé. A traseira, elevada e curta, completava uma composição que procurava equilibrar presença, aerodinâmica e eficiência. A própria Mahindra descrevia o modelo como uma combinação entre as características de um SUV autêntico e a silhueta aerodinâmica de um coupé.
No interior, a ideia de ruptura com os modelos convencionais era ainda mais evidente. O conceito previa uma cabine minimalista e digital, com grande utilização de telas, conectividade avançada e uma arquitetura favorecida pelo piso completamente plano da plataforma elétrica. A INGLO foi concebida justamente para liberar espaço interno, eliminando o túnel central e permitindo maior flexibilidade na distribuição dos componentes. Entre as tecnologias anunciadas estavam uma interface homem-máquina de nova geração, conectividade 5G, atualizações de software over-the-air, head-up display com realidade aumentada e uma ampla tela integrada ao painel. O XUV.e9 também destacava o enorme teto panorâmico, elemento que deveria reforçar a sensação de espaço da cabine.
Debaixo da carroceria estava talvez a parte mais importante do projeto. A plataforma INGLO utilizava baterias de 60 a 80 kWh, com células de química LFP, em arquiteturas do tipo blade ou prismática. O sistema havia sido concebido para aceitar carregamento rápido de até 175 kW, permitindo recuperar até 80% da carga em menos de 30 minutos, segundo as estimativas apresentadas pela Mahindra em 2022. A plataforma também poderia receber configurações de tração traseira ou integral, com motores elétricos integrados em conjuntos compactos que reuniam motor, inversor e transmissão.
Os números previstos para a arquitetura eram expressivos. Dependendo da configuração, a INGLO poderia oferecer entre 170 e 210 kW nos modelos de tração traseira e entre 250 e 290 kW nas versões de tração integral, equivalentes a aproximadamente 231-286 cv e 340-394 cv, respectivamente. A Mahindra estimava aceleração de 0 a 100 km/h entre 5 e 6 segundos para os veículos mais potentes. O projeto também incorporava suspensão semiativa, direção de alta potência, sistema de freio by-wire e modos de condução capazes de alterar simultaneamente parâmetros do trem de força, suspensão, freios e controle eletrônico de estabilidade.
A segurança ocupava igualmente posição central no projeto. A estrutura da INGLO foi planejada com uma célula de proteção ao redor dos ocupantes e utilização de aço de ultra-alta resistência, incluindo aço-boro, enquanto a bateria ficava integrada à parte inferior da estrutura. A Mahindra também anunciava uma arquitetura ADAS baseada em cinco radares e uma câmera, preparada para recursos de condução assistida de nível 2 Plus. O baixo posicionamento da bateria, além de contribuir para a segurança, favorecia a redução do centro de gravidade, algo particularmente importante em um SUV relativamente alto.
O XUV.e9 tinha dimensões consideráveis para um veículo concebido como SUV-coupé: 4.790 mm de comprimento, 1.905 mm de largura, 1.690 mm de altura e 2.775 mm de entre-eixos. A proporção entre comprimento e altura deixava clara a intenção de produzir uma carroceria visualmente esportiva, enquanto a grande distância entre os eixos permitia aproveitar melhor o espaço proporcionado pela plataforma elétrica. A Mahindra inicialmente previa o lançamento do modelo para abril de 2025, posicionando-o como um dos principais integrantes da ofensiva elétrica da companhia.
O projeto, entretanto, acabaria evoluindo até chegar ao modelo de produção conhecido como XEV 9e, apresentado posteriormente pela Mahindra. A transformação manteve a essência do conceito de 2022: um SUV-coupé elétrico de grandes dimensões, construído sobre a arquitetura INGLO e desenvolvido para combinar tecnologia, desempenho e eficiência. A versão de produção passou a oferecer baterias de 59 e 79 kWh, e a configuração de 79 kWh alcançou posteriormente autonomia certificada de até 656 km pelo ciclo MIDC, mostrando o quanto aquela visão apresentada em 2022 havia amadurecido.
O Mahindra XUV.e9 Concept de 2022 merece, portanto, um lugar especial porque representa um momento de transformação da indústria automobilística indiana. Não se tratava apenas de eletrificar um produto existente, mas de imaginar uma nova geração de automóveis a partir de uma plataforma dedicada, uma linguagem visual própria e uma arquitetura eletrônica concebida para receber atualizações ao longo de sua vida útil. Para a Mahindra, aquele elegante SUV-coupé foi uma declaração de ambição: a Índia não pretendia apenas acompanhar a revolução elétrica mundial, mas desenvolver seus próprios produtos e tecnologias para disputar espaço em um mercado cada vez mais global.