MARCOS TSO GT2: O ÚLTIMO GRANDE UIVO DA MARCOS
No início do século XXI, a pequena Marcos decidiu voltar às suas raízes esportivas com uma máquina que combinava a tradição britânica de construção artesanal com uma solução mecânica tipicamente americana. Apresentado em Londres em junho de 2005, o Marcos TSO GT2 era um coupé de dois lugares desenvolvido para funcionar como um verdadeiro Grand Tourer de alto desempenho, mas sem abandonar a filosofia que sempre caracterizou a marca: baixo peso, simplicidade mecânica, motor potente e comportamento extremamente envolvente. O GT2 representava, ao mesmo tempo, uma nova etapa e praticamente o capítulo final da longa história da Marcos, que acabaria encerrando suas atividades poucos anos depois.
A história do TSO começara pouco antes, em 2004, quando a Marcos apresentou o TSO GT destinado inicialmente ao mercado australiano. O novo modelo abandonava boa parte das formas tradicionais dos Marcos anteriores, mas mantinha a receita fundamental de um esportivo britânico leve equipado com um grande V8. Para o GT2 europeu, apresentado em 2005, a empresa conservou a estrutura básica do TSO, mas criou uma carroceria fechada de três portas que recuperava de maneira mais evidente o espírito dos antigos Marcos GT. As linhas eram baixas, longas e fluidas, com uma cabine recuada e uma enorme área envidraçada, enquanto a traseira curta e musculosa dava ao automóvel uma presença bastante distinta.
Sob o capô encontrava-se um dos grandes responsáveis pelo caráter do carro: o V8 Chevrolet LS1 de 5.7 litros, instalado longitudinalmente na dianteira. Derivado do mesmo universo mecânico do Corvette, o propulsor de 8 cilindros, naturalmente aspirado, utilizava comando de válvulas no bloco e duas válvulas por cilindro. Na especificação esportiva do GT2, desenvolvia cerca de 475 cv e 536 Nm de torque, números particularmente impressionantes quando relacionados ao peso extremamente baixo do Marcos. O conjunto era ligado a uma transmissão manual Tremec T56 de 6 velocidades, enviando a força exclusivamente para as rodas traseiras.
E era justamente o peso que fazia a diferença. O TSO GT2 tinha apenas cerca de 1.150 a 1.170 kg, dependendo da configuração e da fonte, graças ao emprego de uma construção leve e à filosofia minimalista da Marcos. A carroceria tinha aproximadamente 4.020 mm de comprimento, apenas 1.680 mm de largura e extraordinários 1.150 mm de altura, enquanto o entre-eixos media 2.280 mm. A distribuição de massas próxima de 50:50 contribuía para um comportamento equilibrado, e o desenvolvimento dinâmico do chassi contou com a participação da Prodrive, uma das empresas britânicas mais respeitadas no desenvolvimento de veículos de competição e sistemas de dinâmica veicular.
A suspensão dianteira utilizava McPherson, enquanto a traseira recorria a um sofisticado sistema independente de duplos braços triangulares. Na configuração Sports, o GT2 recebia suspensão mais rígida e freios de especificação esportiva, além dos 475 cv. Havia também uma configuração Touring, com calibração mais confortável e equipamentos adicionais voltados para viagens. Essa possibilidade de escolha era importante para a Marcos porque o TSO não pretendia ser simplesmente um carro de pista homologado para as ruas: a empresa queria construir um verdadeiro Grand Tourer britânico, embora um bastante radical.
Com essa relação entre potência e massa, o desempenho era brutal. A Marcos anunciava 0 a 96 km/h em cerca de 4 segundos, 0 a 160 km/h em cerca de 9 segundos e velocidade máxima de 298 km/h. Outra estimativa técnica para o GT2 de 475 cv aponta 0-100 km/h em cerca de 3.8 segundos e velocidade máxima teórica próxima de 302 km/h. O torque abundante também fazia do TSO uma máquina particularmente eficaz em retomadas, característica fundamental para um GT: a Marcos afirmava que o automóvel poderia acelerar de 80 a 110 km/h em apenas cerca de 2 segundos.
Apesar de toda essa força, o TSO GT2 não era um esportivo particularmente intimidante de conduzir. A filosofia de acerto adotada pela Marcos e pela Prodrive privilegiava respostas progressivas e uma certa liberdade do eixo traseiro. A direção era relativamente leve, os pedais tinham comandos suaves e o carro utilizava pneus relativamente estreitos para sua potência - 215/40 ZR17 na dianteira e 235/35 ZR18 na traseira. O resultado era um automóvel que permitia ao condutor explorar a sobresterçante combinação entre acelerador e direção, algo que fazia parte deliberada de sua personalidade.
O interior seguia a mesma lógica. Em vez de transformar o GT2 em um supercarro excessivamente tecnológico, a Marcos apostou em um ambiente tradicional, com materiais de aparência artesanal e uma forte conexão entre condutor e máquina. A posição de condução baixa, o câmbio manual e o ronco do V8 faziam parte da experiência. A imprensa especializada da época chegou a destacar justamente essa combinação pouco comum de simplicidade, velocidade e facilidade de condução, comparando o TSO favoravelmente aos esportivos britânicos contemporâneos, especialmente os modelos da TVR.
O TSO GT2 também carregava uma responsabilidade histórica. Seu desenho procurava recuperar elementos da tradição da Marcos, que incluía o lendário Marcos GT, as participações em Le Mans e o envolvimento da marca com o automobilismo britânico. A própria Marcos citava como inspiração sua trajetória de aproximadamente 45 anos no esporte a motor, incluindo a primeira vitória de Jackie Stewart, em 1961, ao volante de um Marcos Gullwing, e os posteriores sucessos do LM600. O GT2 era, portanto, uma tentativa de transformar essa herança em um moderno esportivo de rua.
Entretanto, a história acabaria sendo cruel. O GT2 custava aproximadamente £49.995, valor bastante competitivo diante de suas características, mas a Marcos permanecia um fabricante extremamente pequeno. A produção foi minúscula - algumas fontes registram oito exemplares do GT2, enquanto outras contabilizam dois protótipos e sete carros de produção para toda a família TSO. A Marcos Engineering entrou em concordata em outubro de 2007, encerrando a produção e transformando o TSO GT2 em uma das maiores raridades da indústria britânica moderna.
O Marcos TSO GT2 de 2005 acabou sendo, portanto, muito mais do que um esportivo rápido. Ele foi a tentativa derradeira de um pequeno fabricante britânico de demonstrar que ainda havia espaço, em pleno século XXI, para um automóvel construído segundo uma receita quase artesanal: carroceria leve, chassi desenvolvido com competência, enorme V8 dianteiro, câmbio manual e tração traseira. Em um mercado que caminhava rapidamente para carros cada vez mais pesados, eletrônicos e sofisticados, o TSO GT2 parecia pertencer a uma outra época - e talvez seja justamente por isso que sua breve existência tenha adquirido tamanho fascínio entre os entusiastas. Era um Marcos em sua essência mais pura: raro, veloz, imperfeito, visceral e absolutamente britânico.