MARMON MODEL 32 TOURER: O REQUINTE AMERICANO QUE ANTECIPOU A LENDA DA INDY 500
Quando chegamos aos Estados Unidos de 1910, encontramos a Nordyke & Marmon Company, de Indianapolis, Indiana, já consolidada como um dos fabricantes americanos mais interessantes do período pioneiro. Sob a liderança técnica de Howard C. Marmon, a empresa havia experimentado motores de arquiteturas bastante avançadas - incluindo V2, V4, V6 e V8 - antes de concentrar seus esforços em propulsores convencionais de 4 cilindros refrigerados a água. Dessa evolução nasceu, em 1909, o Marmon Model 32, automóvel que rapidamente se transformaria em um dos produtos mais importantes da companhia e que, poucos anos depois, daria origem ao lendário Marmon Wasp, vencedor da primeira Indianapolis 500, em 1911.
Para 1910, o Model 32 Tourer representava uma proposta particularmente interessante dentro da crescente indústria automobilística americana. Tratava-se de um grande automóvel aberto, destinado a transportar cinco ocupantes, com uma construção que combinava elegância, desempenho e uma preocupação incomum com a redução de peso. A própria Marmon divulgava o modelo como um automóvel de aproximadamente 32 a 40 cv, equipado com motor de 4 cilindros e oferecido por US$ 2.650 na configuração Touring de cinco passageiros. O mesmo preço valia para o Suburban de quatro passageiros e para o Roadster de dois lugares.
O propulsor era um quatro-cilindros em linha, refrigerado a água, com cilindros fundidos em pares e distribuição por válvulas laterais, uma solução ainda bastante comum naquele período. O motor tinha aproximadamente 32 cv, embora a faixa de potência anunciada pela fábrica chegasse a 40 cv. A transmissão era manual de 3 velocidades, com ré, e a força era enviada às rodas traseiras por meio de eixo cardan, uma solução mais limpa e silenciosa que a tradicional transmissão por corrente. O chassi utilizava estrutura de aço prensado, enquanto o eixo traseiro era do tipo flutuante.
A engenharia do Model 32 refletia diretamente as convicções de Howard Marmon. Desde os primeiros automóveis da marca, o engenheiro demonstrava interesse por construção leve e lubrificação eficiente, duas características que ajudaram a diferenciar os Marmon de diversos concorrentes. O Model 32 utilizava um sistema de lubrificação por alimentação forçada e componentes cuidadosamente projetados, enquanto a Marmon procurava manter o peso sob controle sem simplesmente reduzir a qualidade dos materiais. Essa filosofia contribuiria posteriormente para o extraordinário desempenho dos carros de competição derivados do modelo.
Externamente, o Tourer era um típico representante da chamada Brass Era americana. A carroceria aberta apresentava capô alto e longo, para-lamas separados, estribos laterais, rodas de grande diâmetro e um radiador vertical bastante pronunciado. O enorme volante e a posição elevada do condutor lembravam que o automóvel ainda estava muito próximo de suas origens como uma ‘carruagem sem cavalos’. Ao mesmo tempo, o Model 32 já apresentava uma arquitetura mecânica suficientemente madura para que o automóvel fosse utilizado em viagens relativamente longas, e não apenas como curiosidade tecnológica para os ricos.
Um dos aspectos mais interessantes do Model 32 era justamente sua combinação de porte relativamente grande com motor de apenas 4 cilindros. O catálogo da Marmon para 1910 identificava o modelo como um ‘Thirty-Two’, com entre-eixos de 3.05 metros, e potência de 32-40 cv. Era, portanto, um automóvel substancial, mas não dependia de um enorme motor para proporcionar desempenho satisfatório. A documentação preservada pela New York Public Library confirma ainda a existência do Touring de cinco passageiros, do Suburban de quatro passageiros e do Roadster de dois lugares dentro da linha de 1910.
E foi justamente essa combinação de leveza, robustez e desempenho que fez do Model 32 uma excelente base para o automobilismo. A Marmon percebeu que o automóvel poderia ser transformado em uma máquina de competição extremamente rápida. O desenvolvimento deu origem ao Marmon Wasp, um monoposto especialmente preparado que seria pilotado pelo engenheiro e ex-piloto da própria empresa Ray Harroun. Em 1911, Harroun sairia da aposentadoria para disputar a primeira edição das 500 Milhas de Indianapolis e levaria o Wasp à vitória, escrevendo definitivamente o nome Marmon na história do automobilismo americano. O carro vencedor era derivado do Model 32, embora profundamente modificado para competição.
A relação entre o Tourer de produção e o carro de corrida fica ainda mais interessante quando observamos o desenvolvimento dos Marmon de competição em 1910. A empresa já participava de provas de velocidade com versões modificadas do Model 32, e fotografias da época registram máquinas de competição Marmon derivadas daquele projeto. Um desses carros, pilotado por Joe Dawson, participou das provas de velocidade realizadas antes da grande corrida de Indianapolis e acabou sofrendo um acidente contra a cerca do circuito. A experiência adquirida nessas competições seria fundamental para o desenvolvimento do Wasp que venceria a Indy 500 no ano seguinte.
Curiosamente, o Model 32 também está ligado a uma das pequenas grandes revoluções do automobilismo. O Marmon Wasp, seu descendente direto, incorporou o que é geralmente reconhecido como o primeiro espelho retrovisor automotivo conhecido, uma solução adotada por Ray Harroun para que pudesse acompanhar os competidores sem precisar de um mecânico a bordo. O recurso parecia simples, mas acabaria se tornando equipamento indispensável em todos os automóveis.
Em 1910, naturalmente, ninguém poderia prever a dimensão histórica que aquela plataforma alcançaria. Para o comprador comum, o Marmon Model 32 era simplesmente um automóvel americano sofisticado, rápido e bem construído. Para Howard Marmon e sua equipe, entretanto, ele representava algo maior: uma plataforma suficientemente leve e resistente para ser utilizada tanto nas estradas quanto nas pistas. Essa versatilidade ajudou a estabelecer a reputação da Marmon como fabricante de automóveis rápidos, confiáveis e tecnicamente avançados, características que acompanhariam a marca durante as décadas seguintes.
O Marmon Model 32 Tourer de 1910 ocupa, portanto, uma posição privilegiada na história automobilística americana. Ainda era um produto típico da Era do Bronze, com carroceria aberta, grandes rodas e mecânica relativamente simples, mas já continha os ingredientes que permitiriam à Marmon enfrentar fabricantes muito maiores no automobilismo. Apenas um ano depois, um de seus descendentes estaria diante de dezenas de milhares de espectadores em Indianapolis, cruzando a linha de chegada para conquistar a primeira 500 Milhas de Indianapolis. O elegante Tourer de cinco lugares e o espartano Wasp de competição pareciam mundos diferentes, mas compartilhavam a mesma essência: a engenharia leve e inteligente de Howard Marmon.