MATHIS TYPE S COACH (1920): O AUTOMÓVEL FRANCÊS QUE CARREGAVA A FILOSOFIA ‘O PESO É O INIMIGO’
No início dos anos 1920, a indústria automobilística francesa atravessava uma transformação profunda. A Primeira Guerra Mundial havia terminado recentemente, a Alsácia retornara à França e, em Strasbourg, Émile Mathis retomava o projeto de transformar sua empresa em um dos grandes fabricantes nacionais de automóveis. Entre os modelos que representavam essa nova fase estava o Mathis Type S Coach de 1920, integrante de uma família de automóveis leves que ajudaria a colocar a marca entre os fabricantes franceses mais importantes da década. A Mathis havia retomado a produção ainda em 1919, inicialmente com os Type S e SB, derivados de projetos anteriores à guerra, e rapidamente começou a ampliar sua gama.
O automóvel que encontramos em 1920 pertence, portanto, a um momento de reconstrução, mas também de modernização. Émile Mathis acreditava que o futuro do automóvel francês estava nos carros leves, econômicos e produzidos em quantidade, uma filosofia que seria sintetizada mais tarde no famoso lema publicitário da marca: ‘Le poids, voilà l’ennemi’ - ‘O peso, eis o inimigo’. A estratégia funcionou. Durante os anos 1920, a Mathis cresceria rapidamente e chegaria a ser considerada o quarto maior fabricante francês, atrás de Citroën, Renault e Peugeot.
A denominação Coach, contudo, merece atenção. Na terminologia francesa da época, coach normalmente designava uma carroceria fechada de duas portas, geralmente com dois ou quatro lugares, enquanto torpedo correspondia aos automóveis abertos. O Mathis de 1920 que aparece associado a essa denominação integra a família Type S, modelo que entrou em produção em 1919 e permaneceu até o final de 1921. O Type S era o mais econômico dos Mathis da época e utilizava uma construção bastante simples, mas tecnicamente coerente com a proposta da marca.
Sob o capô encontrava-se um motor de 4 cilindros em linha de 1.057 cm³, derivado diretamente do motor utilizado nas últimas Mathis Babylette produzidas antes da Primeira Guerra Mundial. Com distribuição por válvulas laterais, o propulsor desenvolvia aproximadamente 14 cv. Não era um motor destinado a proporcionar desempenho esportivo, mas sua potência era suficiente para movimentar o pequeno automóvel com relativa agilidade, graças justamente à massa reduzida. Dependendo da configuração e das condições, o Type S podia alcançar aproximadamente 60 a 70 km/h, velocidade respeitável para um pequeno automóvel europeu do início dos anos 1920.
A simplicidade continuava presente na transmissão. O Mathis utilizava câmbio manual de 4 velocidades, característica particularmente interessante para um automóvel tão pequeno e que ainda não era comum em todos os concorrentes de sua categoria. A tração era traseira, mas o eixo posterior não possuía diferencial, solução que reduzia custos, peso e complexidade mecânica. A suspensão recorria a feixes de molas semi-elípticas, enquanto o chassi mantinha uma construção tradicional, suficientemente robusta para as condições das estradas francesas da época.
O Type S também podia ser adquirido com diferentes configurações de carroceria. Havia versões Torpedo, fechadas e comerciais, e a linha foi gradualmente ampliada para atender diferentes perfis de clientes. No final de 1920, o entre-eixos do Type S passou de aproximadamente 2.18 para 2.30 metros, proporcionando maior espaço e permitindo à Mathis oferecer uma gama mais ampla de carrocerias. Um exemplar genuíno de 1920, preservado atualmente, possui inclusive documentação original indicando sua venda nova em 17 de junho de 1920, demonstrando a existência de automóveis Type S produzidos naquele exato ano.
Ao lado do Type S, a Mathis também oferecia o mais sofisticado Type SB, lançado em 1919. Embora tivesse cilindrada semelhante, de 1.130 cm³, seu motor desenvolvia aproximadamente 16 cv e o carro incorporava um diferencial no eixo traseiro, além de apresentar acabamento e carrocerias mais refinados. Em 1920, a gama SB ganhou ainda as versões SBA e SBL, incluindo configurações como limousine, coupé de ville e landaulet. Essa diversificação mostra que a Mathis já não pretendia ser apenas um fabricante de pequenos automóveis econômicos: buscava ocupar diferentes nichos do mercado francês.
A preocupação com economia não ficava restrita ao peso. A Mathis utilizava seus resultados em provas de consumo como instrumento publicitário. Em outubro de 1920, um Mathis 10 HP Type SB registrou consumo de 22.3 km/l, feito que a fábrica explorou intensamente em sua publicidade. Pouco depois, um pequeno Mathis 6 HP Type P alcançaria um resultado ainda mais impressionante, com 42 km/l em uma prova de economia realizada em 1922. A mensagem era clara: eficiência não era uma consequência casual dos carros leves, mas uma característica deliberadamente buscada pela engenharia da Mathis.
Também em 1920 começava a tomar forma a vertente esportiva da empresa. A Mathis desenvolveu automóveis especiais equipados com motores de maior desempenho, incluindo unidades com comando de válvulas no cabeçote e dupla ignição, destinados às competições de turismo. Entre 1922 e 1924, esses carros conquistariam vitórias de classe em importantes provas francesas. Assim, a mesma empresa que produzia pequenos automóveis econômicos começava a utilizar a competição como laboratório para desenvolver soluções mais avançadas.
O Mathis Type S Coach de 1920 deve ser entendido, portanto, dentro de uma transformação maior. Ele não possuía a sofisticação mecânica de um Hispano-Suiza nem a imponência de um grande Renault, mas representava uma tendência que seria decisiva para a democratização do automóvel na Europa: carros menores, mais leves, mais econômicos e produzidos de maneira cada vez mais racional. A Mathis compreendeu muito cedo que não seria necessário construir automóveis enormes para oferecer mobilidade eficiente e confiável.
E essa talvez seja a característica mais interessante desse pequeno francês. Em uma época em que muitos fabricantes ainda associavam qualidade a dimensões, cilindrada e quantidade de equipamentos, Émile Mathis seguia uma direção diferente. O pequeno Type S Coach de 1920 era quase um manifesto mecânico dessa filosofia: menos massa significava menor consumo, menor motor, menor custo e, consequentemente, um automóvel ao alcance de uma parcela maior da população. Poucos anos depois, essa abordagem ajudaria a transformar a Mathis em um dos principais fabricantes franceses. O pequeno automóvel de Strasbourg era, portanto, muito mais importante do que sua aparência modesta poderia sugerir.