MATRA-SIMCA BAGHEERA (1979): O ESPORTIVO FRANCÊS QUE LEVOU TRÊS PESSOAS PARA O CORAÇÃO DA MÁQUINA
No final dos anos 1970, enquanto a indústria automobilística europeia enfrentava as consequências da crise do petróleo e começava a abandonar boa parte dos grandes esportivos de alto consumo, a França ainda produzia algumas máquinas que desafiavam a lógica do mercado. Uma delas era o Matra-Simca Bagheera, um esportivo de desenho extraordinário que combinava motor central, construção leve e uma configuração interna praticamente única. Em 1979, último ano da carreira do modelo, o Bagheera já havia percorrido quase toda a sua trajetória, mas permanecia como um dos automóveis franceses mais originais de sua geração.
A história começou em 1973, quando a Matra, empresa que havia conquistado prestígio internacional nas competições automobilísticas, decidiu substituir o esportivo Matra 530. Para isso, estabeleceu uma parceria com a Simca, então pertencente ao grupo Chrysler Europe. O novo projeto recebeu internamente o código M550 e utilizaria componentes mecânicos Simca, enquanto a Matra ficaria responsável pela arquitetura, carroceria, chassi e desenvolvimento esportivo. O resultado foi apresentado ao público em março de 1973 como Simca 1200 S Bagheera, e posteriormente passou a ser identificado como Matra-Simca Bagheera.
O nome Bagheera fazia referência à pantera negra do romance O Livro da Selva, de Rudyard Kipling, e combinava perfeitamente com o desenho do automóvel. A carroceria, desenvolvida sob a direção de Jean Toprieux, apresentava proporções extremamente baixas e aerodinâmicas, com uma frente em cunha, faróis escamoteáveis, grandes superfícies envidraçadas e uma traseira curta. A construção era particularmente avançada para um fabricante de pequena escala: uma estrutura de aço era revestida por painéis de fibra de vidro e poliéster, solução que permitia reduzir peso e, ao mesmo tempo, criar formas complexas sem os custos de estampagem das carrocerias metálicas convencionais.
Mas era dentro da cabine que estava a característica mais famosa do Bagheera. Em vez de dois bancos convencionais, a Matra instalou três lugares lado a lado, com o condutor à frente e os dois passageiros ligeiramente recuados. Essa configuração havia sido estudada para tornar o automóvel mais versátil sem sacrificar a posição de condução esportiva. O condutor permanecia praticamente alinhado com o centro longitudinal do veículo, enquanto os passageiros ocupavam os lugares laterais. Era uma solução rara, que dava ao Bagheera uma personalidade impossível de confundir com a de qualquer outro esportivo europeu da época.
A mecânica seguia uma receita igualmente interessante. O motor era instalado transversalmente em posição central-traseira, à frente do eixo traseiro, contribuindo para uma distribuição de massas bastante favorável. Inicialmente, o Bagheera utilizava o motor Simca Type 315, 4 cilindros em linha de 1.294 cm³, derivado do propulsor utilizado no Simca 1100. Com dois carburadores Weber, desenvolvia aproximadamente 84 cv. A potência não era extraordinária, mas o baixo peso e a posição central do motor faziam do pequeno francês um automóvel extremamente ágil.
Em 1976, a gama recebeu uma importante atualização com a chegada do Bagheera X, equipado com o novo motor de 1.442 cm³ derivado do Simca 1308. Na versão de maior desempenho, o motor desenvolvia aproximadamente 90 cv, enquanto a versão básica permanecia próxima dos 84 cv. Em 1979, portanto, o Bagheera já estava em sua fase final e utilizava as evoluções mais maduras dessa mecânica. A transmissão continuava sendo manual de 4 velocidades, ligada às rodas traseiras.
O chassi era um dos pontos fortes do projeto. A Matra utilizava uma estrutura de aço galvanizado, com suspensão independente nas quatro rodas. Na dianteira havia sistema McPherson, enquanto a traseira empregava braços independentes. Freios a disco nas quatro rodas, direção de cremalheira e pneus de perfil relativamente baixo completavam um conjunto pensado muito mais para curvas do que para velocidade em linha reta. A carroceria de material composto também contribuía para manter o peso em aproximadamente 1.000 kg, dependendo da versão e dos equipamentos.
A evolução mais importante dos últimos anos foi o Bagheera X, apresentado como uma versão mais sofisticada e esportiva. Externamente, recebeu rodas de liga leve, acabamento específico e outros detalhes visuais, enquanto o interior ganhou equipamentos adicionais. Em 1978, a Matra também introduziu o Bagheera U8, um protótipo extraordinário que reunia dois motores de 4 cilindros Simca para criar um conjunto de 8 cilindros e aproximadamente 260 cv. O projeto, entretanto, foi cancelado antes da produção em razão das dificuldades financeiras enfrentadas pela Chrysler Europe e dos efeitos da crise energética. O U8 jamais chegou a ser vendido, mas permanece como uma das experiências mais fascinantes da história da Matra.
Em 1979, o Bagheera já começava a preparar sua despedida. A Matra havia sido adquirida pela Peugeot, e a relação com a Simca estava chegando ao fim. O sucessor do Bagheera seria o Matra Murena, apresentado em 1980, que manteria o motor central e os três lugares lado a lado, mas adotaria uma estrutura mais moderna e proteção anticorrosão muito mais eficiente. A produção do Bagheera terminou naquele mesmo ano, depois de aproximadamente 47 mil exemplares construídos desde 1973.
Apesar de não possuir potência de supercarro, o Bagheera conquistou uma reputação especial entre os entusiastas justamente por oferecer algo que muitos esportivos mais caros não conseguiam: uma experiência de condução diferente. O motorista adiantado tinha excelente visibilidade, o motor central proporcionava equilíbrio e a direção respondia com precisão. A carroceria leve fazia com que os modestos 90 cv fossem suficientes para proporcionar um desempenho divertido, enquanto a configuração de três lugares transformava o carro em uma espécie de esportivo familiar - conceito aparentemente contraditório, mas perfeitamente coerente com a filosofia da Matra.
O Matra-Simca Bagheera de 1979 representa, assim, o encerramento de uma das experiências mais criativas da indústria automobilística francesa dos anos 1970. Em plena época de crise energética, a Matra oferecia um esportivo leve, aerodinâmico, de motor central e carroceria de material composto, mas que ainda conseguia acomodar três adultos lado a lado. Seu desenho parecia saído de um protótipo futurista, enquanto sua mecânica relativamente simples garantia custos muito menores que os de um verdadeiro superesportivo.
Talvez seja justamente essa mistura que explique sua permanência na memória dos aficionados. O Bagheera nunca pretendeu vencer pela força bruta. Sua filosofia era essencialmente francesa: engenharia inteligente, soluções incomuns e muito prazer ao volante. Em 1979, já próximo do fim de sua carreira, continuava sendo um dos automóveis mais originais que se podia encontrar nas estradas europeias - uma pequena pantera francesa que, apesar dos modestos 4 cilindros, carregava consigo toda a ousadia tecnológica da Matra.