MAXWELL MODEL A RUNABOUT (1909): O PEQUENO AMERICANO QUE AJUDOU A POPULARIZAR O AUTOMÓVEL
Voltar aos Estados Unidos de 1909 significa desembarcar em uma época em que o automóvel ainda era uma novidade relativamente recente, mas já começava a deixar de ser um brinquedo para milionários e a se transformar em um meio de transporte acessível a uma parcela cada vez maior da população. Entre os fabricantes que perceberam essa mudança estava a Maxwell-Briscoe Motor Company, de Tarrytown, New York, responsável por uma família de automóveis que combinava soluções mecânicas bastante cuidadosas com preços agressivos. E entre seus produtos mais interessantes estava o pequeno Maxwell Model A Runabout, que naquele ano custava apenas US$ 550 - uma cifra que o colocava entre os automóveis mais acessíveis do mercado americano.
O Model A era, essencialmente, um pequeno runabout de dois lugares, concebido para oferecer mobilidade simples e econômica. O conceito de runabout ainda estava profundamente ligado à tradição das primeiras ‘carruagens sem cavalos’: carroceria aberta, poucas concessões ao luxo, ausência de portas convencionais e prioridade absoluta à simplicidade. O modelo de 1909, porém, já estava bastante distante dos primeiros automóveis experimentais. Tinha o motor instalado na dianteira, sob o capô, transmissão planetária e eixo traseiro acionado por eixo cardan, características que mostravam como a engenharia automobilística estava rapidamente amadurecendo.
No coração do Maxwell estava um curioso motor de 2 cilindros horizontalmente opostos, com aproximadamente 10 cv. A arquitetura flat-twin era uma das marcas da pequena linha Maxwell e apresentava a vantagem de ser compacta e relativamente equilibrada. A transmissão era do tipo planetária de 2 velocidades, mais ré, solução bastante difundida nos automóveis americanos daquele período e que permitia ao condutor operar o veículo sem a complexidade dos câmbios manuais de engrenagens deslizantes que começavam a aparecer nos automóveis maiores.
O conjunto mecânico, entretanto, escondia algumas soluções que demonstravam o cuidado da Maxwell com engenharia. O motor e a transmissão eram construídos como uma unidade, enquanto a embreagem era do tipo multidisco funcionando em banho de óleo. A empresa também empregava suspensão em três pontos para o conjunto motriz, evitando que a deformação do chassi submetesse o motor e seus mancais a esforços excessivos. O sistema de arrefecimento utilizava o princípio do termo-sifão, dispensando uma bomba dágua convencional. Eram soluções que a publicidade da época apresentava como evidência da superioridade técnica do Maxwell diante de concorrentes de preço semelhante.
A construção também era relativamente avançada para um automóvel de US$ 550. A carroceria utilizava painéis metálicos estampados, em vez da tradicional estrutura de madeira revestida por chapas. Segundo a publicidade da própria Maxwell, essa solução era mais leve e resistente e, principalmente, permitia reparar pequenos amassados simplesmente martelando a chapa, em vez de substituir painéis de madeira. O chassi possuía molas semi-elípticas nos dois eixos, e a transmissão final empregava engrenagens cônicas e eixo traseiro dividido.
As dimensões eram bastante compactas. O entre-eixos do Model A media 2.08 metros, enquanto as rodas tinham 28 polegadas e utilizavam pneus de aproximadamente 23 x 3 polegadas. O peso ficava na faixa de 500 kg, dependendo da configuração. Essa massa reduzida era fundamental para um automóvel de apenas 10 cv: o Maxwell não precisava de um grande motor para movimentar sua pequena carroceria e, consequentemente, apresentava custos de operação muito baixos para os padrões da época.
O preço era, evidentemente, uma de suas maiores armas. O Model A Runabout custava US$ 550, enquanto o Maxwell Junior, essencialmente uma versão ainda mais econômica da proposta, era anunciado por aproximadamente US$ 500. A empresa chegou a explorar agressivamente a comparação com a tradicional carruagem puxada por cavalos, argumentando que seu pequeno automóvel poderia custar aproximadamente o mesmo que um bom cavalo e uma carruagem, mas seria mais rápido, não exigiria alimentação e poderia ser utilizado em qualquer estação do ano.
Essa estratégia de marketing era particularmente inteligente porque a Maxwell compreendia que não bastava fabricar um automóvel barato: era preciso convencer o público de que ele era confiável e desejável. A empresa chegou a utilizar demonstrações espetaculares para promover seus carros, incluindo imagens de Maxwells subindo escadarias, competindo contra cavalos e realizando outras façanhas destinadas a provar sua robustez. Segundo o Seal Cove Auto Museum, essas demonstrações chegaram a aparecer em nickelodeons e filmes mudos, ajudando a transformar o pequeno Maxwell em uma espécie de celebridade popular.
O sucesso não demorou a aparecer. A Maxwell-Briscoe já havia produzido milhares de automóveis e, em 1909, anunciava orgulhosamente mais de 18 mil Maxwells em uso. A companhia possuía instalações em Tarrytown, New York; New Castle, Indiana; e Pawtucket, Rhode Island, sinal de que já estava operando em uma escala industrial significativa para aquele momento.
Mas o Model A não existia isoladamente. A linha Maxwell de 1909 incluía modelos maiores e mais potentes, entre eles o Model LD Runabout, com 2 cilindros e 14 cv, o Model HD Touring, de 20 cv, e os quatro-cilindros Model DA e KA, com aproximadamente 30 cv. O pequeno Model A ocupava, portanto, a porta de entrada da família e tinha a missão de conquistar consumidores que até então utilizavam cavalos, carruagens ou simplesmente não tinham condições de adquirir um automóvel.
A importância histórica do pequeno Maxwell também está relacionada à evolução posterior da própria empresa. A Maxwell-Briscoe seria um dos principais fabricantes americanos independentes antes da Primeira Guerra Mundial e, posteriormente, o nome Maxwell continuaria existindo como fabricante automobilístico até a década de 1920. A companhia enfrentaria dificuldades financeiras e acabaria integrada a estruturas empresariais que posteriormente dariam origem à Chrysler Corporation, fundada por Walter P. Chrysler em 1925. O pequeno Model A pertence, portanto, à primeira e mais aventureira fase dessa longa história.
O Maxwell Runabout de 1909 pode parecer modesto diante dos grandes automóveis americanos contemporâneos, mas sua importância reside justamente nessa modéstia. Ele representava uma mudança fundamental: o automóvel começava a deixar de ser exclusivamente um símbolo de riqueza para se transformar em produto industrial de massa. Com seus 2 cilindros, 10 cv, duas velocidades, carroceria aberta e preço de US$ 550, o pequeno Maxwell não prometia luxo nem prestígio. Prometia algo talvez mais importante: liberdade de locomoção a um preço que cada vez mais americanos poderiam pagar.
E foi justamente essa filosofia que ajudou a pavimentar o caminho para a grande revolução automobilística americana dos anos seguintes. Antes que o Ford Model T consolidasse definitivamente o automóvel popular, fabricantes como a Maxwell já experimentavam fórmulas para reduzir custos, simplificar a mecânica e ampliar o público consumidor. O pequeno Maxwell Model A de 1909 foi um desses pioneiros - uma pequena máquina de 2 cilindros que, silenciosamente, ajudou a transformar a ‘carruagem sem cavalos’ em uma verdadeira indústria.