MAZDA RX-4 (1974): O MOTOR ROTATIVO JAPONÊS QUE ENFRENTOU A CRISE DO PETRÓLEO
Em 1974, a Mazda encontrava-se diante de uma das maiores encruzilhadas de sua história. A empresa havia apostado fortemente no motor rotativo Wankel e construído uma identidade internacional justamente em torno dessa tecnologia, mas a crise do petróleo iniciada no final de 1973 ameaçava colocar em xeque todo esse caminho. Foi nesse cenário que surgiu o Mazda RX-4, versão destinada principalmente aos mercados de exportação do grande Luce Rotary, um automóvel que procurava combinar o refinamento de um sedan de luxo, a personalidade esportiva de um coupé e o desempenho característico do motor rotativo. A segunda geração do Luce havia sido apresentada no Japão em novembro de 1972, substituindo o R130, e chegaria aos mercados internacionais com o nome RX-4.
O RX-4 pertencia a uma categoria maior e mais sofisticada que os já conhecidos RX-2 e RX-3. Enquanto esses modelos eram derivados de plataformas mais compactas, o novo Mazda utilizava o chassi do Luce e pretendia ocupar um espaço próximo ao dos chamados personal luxury cars americanos. A Mazda oferecia o automóvel em três configurações principais - sedan de quatro portas, coupé hardtop de duas portas e station wagon - permitindo que a mesma arquitetura atendesse diferentes públicos. Nos Estados Unidos, onde o modelo foi vendido de 1974 a 1978, a estratégia era particularmente importante: o RX-4 deveria mostrar que um carro equipado com motor rotativo podia ser simultaneamente confortável, rápido e relativamente econômico.
O design seguia uma linguagem típica do início dos anos 1970, mas com forte personalidade japonesa. O coupé hardtop apresentava um longo capô, cabine recuada, teto baixo e uma traseira curta, enquanto o sedan adotava proporções mais formais. A frente tinha uma grade larga e elementos cromados que enfatizavam a largura da carroceria. No conjunto, o RX-4 era muito mais imponente que o RX-3 e transmitia uma sensação de automóvel de categoria superior. A distância entre os eixos chegava a 2.51 metros, enquanto o comprimento do coupé ficava em aproximadamente 4.32 metros.
Mas era sob o capô que estava a verdadeira identidade do RX-4. O motor era o 13B, um Wankel de dois rotores com 1.308 cm³ de capacidade nominal, cada rotor correspondendo a uma câmara de 654 cm³. Ao contrário de um motor convencional, o 13B não utilizava pistões, bielas ou válvulas; dois rotores triangulares giravam dentro de câmaras de formato epitrocoidal, produzindo uma entrega de potência extremamente suave e permitindo que o conjunto fosse compacto para sua cilindrada e potência. O 13B se tornaria posteriormente o mais produzido dos motores rotativos da Mazda e permaneceria em produção, em diferentes evoluções, por mais de três décadas.
No RX-4 de 1974, o 13B representava também uma importante evolução em relação aos primeiros motores rotativos da marca. A versão AP - Anti-Pollution - incorporava um sistema desenvolvido pela Mazda para reduzir as emissões e atender às rigorosas regulamentações ambientais japonesas que entrariam em vigor em meados da década. A própria Mazda registra o RX-4 como o primeiro automóvel da empresa a atender às rigorosas normas japonesas de emissões de 1975. O desenvolvimento dessa tecnologia foi fundamental para manter o motor Wankel vivo justamente quando muitos fabricantes poderiam ter abandonado a solução.
A potência variava conforme o mercado e a configuração. Nos exemplares japoneses mais fortes, o 13B AP chegava a aproximadamente 135 cv a 6.000 rpm, com torque na casa dos 186 Nm, enquanto os exemplares destinados a mercados de exportação recebiam calibrações diferentes. Na Europa e em outros mercados, uma versão de cinco marchas era anunciada com aproximadamente 115 cv e 160 Nm. Nos Estados Unidos, as restrições de emissões reduziam a potência para cerca de 110 cv, demonstrando como o mesmo motor podia apresentar números bastante diferentes dependendo da legislação e do método de medição.
A transmissão também variava. Havia caixas manuais de 4 ou 5 velocidades, dependendo do mercado e da versão, além de uma automática de 3 relações. A tração permanecia traseira, e a suspensão dianteira utilizava McPherson, enquanto o eixo traseiro era rígido. Na dianteira estavam instalados freios a disco, com tambores no eixo traseiro. Era uma configuração convencional para um grande automóvel japonês daquele período, mas a Mazda trabalhou para manter um equilíbrio razoável entre conforto e comportamento dinâmico.
O desempenho era expressivo para um sedan de aproximadamente 1.120 kg. Na configuração RX-4 de exportação com câmbio manual de 5 velocidades, a velocidade máxima declarada chegava a aproximadamente 195 km/h, enquanto os registros de época indicam aceleração de 0 a 100 km/h na casa dos 10 segundos. Já o Luce AP Gran Turismo japonês equipado com o 13B de 135 cv era capaz de cumprir os 400 metros em aproximadamente 15.8 segundos, número bastante respeitável para um automóvel familiar de meados dos anos 1970.
A grande ironia é que o RX-4 chegou justamente quando o mundo começava a questionar o consumo dos motores rotativos. A crise do petróleo de 1973 atingiu fortemente a Mazda, cuja produção dependia em grande medida dos Wankel. A empresa, entretanto, não desistiu imediatamente. Em janeiro de 1974, o presidente Kouhei Matsuda chegou a anunciar a meta de melhorar em 40% o consumo dos veículos rotativos até o final de 1975. A evolução do sistema REAPS e outras modificações internas permitiriam ganhos significativos de eficiência. Em novembro de 1974, por exemplo, a evolução REAPS-4 passou a proporcionar melhorias de consumo de até 15% no Luce equipado com 13B.
Essa batalha tecnológica ajudou a preservar a reputação da Mazda como o grande defensor mundial do motor Wankel. Enquanto praticamente todos os outros fabricantes que haviam experimentado a tecnologia abandonavam seus projetos, a empresa japonesa insistia em aprimorá-la. O RX-4, portanto, não foi apenas mais um modelo da linha: ele foi parte importante da estratégia de sobrevivência do rotativo em um momento extremamente difícil. Poucos anos depois, essa persistência permitiria à Mazda apresentar o RX-7, um esportivo muito mais leve e focado, que se tornaria um dos maiores símbolos do motor rotativo.
Nos Estados Unidos, o RX-4 encontrou um público particularmente interessado em sua combinação de estilo, suavidade e preço. A versão 1974 começava em aproximadamente US$ 4.295, com câmbio automático custando mais US$ 270 e ar-condicionado outros US$ 395. A revista Road & Track chegou a elogiar o novo modelo justamente por apresentar melhor relação entre economia e desempenho que o RX-3, enquanto a disponibilidade de sedan, coupé e perua ampliava seu apelo.
A carreira do RX-4 terminou em 1977, embora nos Estados Unidos o modelo tenha permanecido disponível até 1978, quando o novo RX-7 assumiu o papel de representante esportivo da tecnologia rotativa. A produção sul-africana do Luce Rotary, porém, prosseguiu até 1979. Ao longo de sua carreira, o RX-4 acabou se tornando um dos mais importantes representantes da segunda geração de automóveis rotativos da Mazda.
O Mazda RX-4 de 1974 é, portanto, um automóvel particularmente interessante porque representa um momento de transição. Era grande e confortável como um sedan americano, tinha a silhueta esportiva de um coupé europeu e escondia sob o capô uma das soluções mecânicas mais diferentes da indústria automobilística mundial. Ao mesmo tempo em que a crise do petróleo parecia condenar o motor Wankel, a Mazda utilizava o RX-4 para provar que ainda havia espaço para essa tecnologia. Ele foi um dos últimos grandes Mazdas rotativos antes que a empresa aprendesse a transformar o Wankel de solução para grandes sedans em arma definitiva de um pequeno esportivo - o futuro RX-7.