MAZEL IDENTITY i1 (2006): A ESPANHA ENSAIA UM NOVO SUPERCARRO
Em meados dos anos 2000, quando a indústria europeia começava a assistir ao surgimento de uma nova geração de pequenos fabricantes de esportivos e supercarros, a Espanha também ensaiava seu próprio representante. O resultado foi o Identity i1, apresentado no Salão de Genebra de 2006 como um sofisticado coupé de dois lugares, concebido pela empresa de engenharia catalã Mazel Group em colaboração com a H2R Design Consulting. Mais do que simplesmente apresentar um novo automóvel, entretanto, o projeto pretendia criar uma nova marca: a Identity. A Mazel seria responsável pela engenharia e pela transformação do projeto virtual em um automóvel físico, enquanto a H2R, ligada ao designer Humberto Rodríguez, desenvolveu o conceito estilístico. O chassi em material composto seria desenvolvido com a italiana ATR, a estrutura da carroceria estava sendo trabalhada pela Studio Linea 2, de Turin, e a espanhola Ficosa participou de soluções eletrônicas e de iluminação.
Visualmente, o Identity i1 procurava combinar a agressividade de um supercarro com uma interpretação bastante particular do desenho esportivo europeu. O longo capô dianteiro, a frente extremamente baixa, os três grandes canais de entrada de ar e os faróis verticais conferiam ao modelo uma aparência musculosa, enquanto a cabine recuada e a traseira curta reforçavam sua arquitetura de motor central. As portas de abertura vertical acrescentavam um elemento teatral ao conjunto, e a traseira era marcada por lanternas separadas e por uma grande cobertura inferior do compartimento mecânico, cuja conformação também contribuía para o escoamento do ar. Com 4.425 mm de comprimento, 1.913 mm de largura, apenas 1.261 mm de altura e 2.690 mm de entre-eixos, o Identity era baixo e extremamente largo para suas dimensões, assumindo proporções dignas de um verdadeiro superesportivo.
A mecânica estava à altura da aparência. O i1 recebeu um V8 de construção em alumínio, aspirado, instalado longitudinalmente em posição central-traseira e desenvolvendo impressionantes 487 cv. A força era enviada exclusivamente às rodas traseiras por meio de uma transmissão automatizada de 6 velocidades. Embora as fontes da época não tenham divulgado a cilindrada do V8 nem números oficiais de aceleração e velocidade máxima, a combinação de potência, motor central e tração traseira deixava clara a intenção de colocar o Identity na categoria dos esportivos de alto desempenho.
A engenharia escondida sob aquela carroceria era talvez ainda mais interessante que o desenho. O projeto previa um chassi de materiais compostos, buscando elevada rigidez estrutural com baixo peso, enquanto a carroceria também recorria a processos de fabricação em materiais compostos. A transmissão utilizava tecnologia Shift-by-Wire, eliminando a ligação mecânica convencional entre o comando e a caixa de câmbio, enquanto o sistema de freios empregava o conceito Brake-by-Wire. Os comandos relacionados à transmissão e ao freio de estacionamento foram concentrados no painel central, permitindo aos projetistas abandonar algumas das soluções tradicionais do habitáculo. Era uma demonstração bastante clara de que a Mazel queria mostrar não apenas capacidade de desenhar um carro bonito, mas também competência para desenvolver uma arquitetura eletrônica e mecânica sofisticada.
O interior seguia a mesma filosofia. Havia apenas dois lugares, e os responsáveis pelo projeto procuraram combinar uma atmosfera esportiva com uma sensação de espaço pouco convencional para um coupé de motor central. A concentração dos comandos no console central ajudava a liberar a região tradicionalmente ocupada pela alavanca de câmbio e pelo freio de estacionamento. Naquele momento, soluções como Shift-by-Wire e Brake-by-Wire ainda tinham forte caráter experimental em automóveis desse porte, o que transformava o Identity em uma verdadeira vitrine tecnológica da engenharia espanhola.
As rodas também denunciavam as ambições do projeto: 19 polegadas na dianteira, calçadas com pneus 245/40 ZR19, e 20 polegadas na traseira, com pneus 295/40 ZR20. A enorme diferença de largura entre os eixos acompanhava a configuração de motor central e tração traseira, enquanto os grandes pneus traseiros ajudavam a transmitir ao asfalto os quase 500 cv disponíveis.
Mas o ponto mais importante do Identity i1 não estava em nenhuma de suas especificações. Ele estava na intenção de transformá-lo em automóvel de produção. A documentação de apresentação deixava explícito que o projeto não deveria ser entendido apenas como um exercício de estilo: tratava-se da materialização de uma proposta voltada para uma futura produção e para a criação de uma nova marca. A imprensa da época chegou a noticiar que uma versão de produção poderia surgir posteriormente, enquanto outras fontes indicavam planos para iniciar a fabricação a partir de 2007.
Na prática, porém, o sonho não avançou. O Identity i1 permaneceu como um protótipo único, e não há evidências de que tenha existido uma produção seriada do esportivo. Assim, sua importância histórica está menos no número de exemplares fabricados - que, ao que tudo indica, ficou restrito ao protótipo apresentado - e muito mais na tentativa de uma empresa espanhola de engenharia de transformar décadas de conhecimento acumulado em uma marca automobilística própria. O i1 foi, portanto, simultaneamente um laboratório tecnológico, um exercício de design e uma espécie de cartão de visitas para a futura Identity.
Visto hoje, o Mazel Identity i1 de 2006 representa um daqueles fascinantes ‘quase’ da história do automóvel. Tinha desenho próprio, arquitetura de superesportivo, V8 central de 487 cv, materiais compostos, eletrônica avançada e a ambição de se tornar um carro de pequena série. Faltou, entretanto, aquilo que transforma um protótipo tecnicamente promissor em uma empresa automobilística sustentável: capital, infraestrutura industrial, homologação, fornecedores, rede comercial e, sobretudo, uma produção efetivamente iniciada. A Mazel demonstrou que tinha competência para projetar e construir o carro; o que não conseguiu foi transformar essa competência em uma nova marca esportiva espanhola. O Identity i1 acabou assim como uma rara fotografia de um caminho que a indústria espanhola poderia ter seguido, mas que nunca chegou a se materializar plenamente.