MERCEDES-BENZ 680 S SINDELFINGEN SPORTS TOURER (1927): O NASCIMENTO DE UMA LINHAGEM LENDÁRIA
Vamos agora para a Alemanha de 1927, apenas um ano depois da fusão entre a Daimler-Motoren-Gesellschaft e a Benz & Cie., que deu origem à Daimler-Benz AG. A nova empresa precisava demonstrar que a recém-criada Mercedes-Benz seria capaz de combinar luxo, tecnologia e desempenho, e encontrou no automobilismo o cenário perfeito para isso. O resultado foi o Mercedes-Benz 680 S, primeiro grande projeto desenvolvido sob a direção técnica de Ferdinand Porsche e um dos mais extraordinários automóveis esportivos produzidos pela marca durante a década de 1920. Entre suas diversas carrocerias, a Sindelfingen Sports Tourer tornou-se uma das mais elegantes - e hoje, uma das mais raras.
O 680 S nasceu diretamente da experiência adquirida nas competições. Em junho de 1927, dois exemplares de competição foram inscritos pela Mercedes-Benz na Eifelrennen, realizada no recém-construído Nürburgring, e Rudolf Caracciola e Adolf Rosenberger levaram os carros a uma convincente dobradinha. A vitória serviu como demonstração pública da capacidade do novo modelo e ajudou a transformar o 680 S em um dos automóveis mais desejados da alta sociedade alemã.
Sob o longo capô estava o monumental motor de 6 cilindros em linha de 6.789 cm³, equipado com compressor mecânico. Em funcionamento normal, o propulsor desenvolvia aproximadamente 120 cv, mas, quando o compressor era acionado, a potência podia chegar a impressionantes 180 cv a cerca de 3.000 rpm. Essa característica deu origem à conhecida designação alemã 26/120/180 PS e proporcionava ao grande Mercedes-Benz uma velocidade máxima próxima dos 180 km/h - uma cifra extraordinária para um automóvel de quase duas toneladas na segunda metade dos anos 1920.
A engenharia era tão sofisticada quanto o motor. O 680 S utilizava transmissão manual, tração traseira e um chassi de construção robusta, com distância entre os eixos de aproximadamente 3.40 metros. O automóvel media cerca de 5 metros de comprimento e 1.70 metro de largura, enquanto o peso em ordem de marcha ficava próximo dos 1.900 kg. O consumo, naturalmente, era compatível com sua enorme cilindrada e potência: registros históricos apontam aproximadamente 3.85 km/l.
Mas se a mecânica impressionava, era a carroceria que transformava o 680 S em uma verdadeira obra de arte. A unidade de chassi 35222, produzida em 1927, recebeu a carroceria Sports Tourer número 917240, construída pela própria Mercedes-Benz em Sindelfingen. O desenho seguia de perto as proporções dos carros de competição da fábrica, com capô extremamente longo, cabine recuada, para-brisa baixo e uma traseira elegantemente afilada. A carroceria teria originalmente recebido pintura verde-escura, uma escolha incomum numa época em que as cores nacionais ainda tinham forte importância no automobilismo.
Essa unidade possui, aliás, uma história extraordinária. Encomendada em julho de 1927 pelo empresário alemão Richard Klinger, foi registrada em 3 de agosto e permaneceu com seu primeiro proprietário até 1932. Depois passou às mãos do dramaturgo americano Philip Barry, autor de The Philadelphia Story, que levou o Mercedes-Benz para a Riviera Francesa. Ali, o grande 680 S teria circulado no ambiente cosmopolita da chamada Lost Generation, convivendo com nomes como Pablo Picasso, F. Scott Fitzgerald e Fernand Léger.
Décadas mais tarde, o carro encontraria outro proprietário particularmente famoso: Charles Addams, o cartunista responsável pela criação da Família Addams. Addams não tratou o Mercedes simplesmente como uma peça de coleção. Apaixonado por automóveis esportivos, chegou a competir com o 680 S, participando da primeira corrida realizada em Watkins Glen e vencendo posteriormente uma prova em Bridgehampton, em 1952. O carro acabou aparecendo também em reportagens de revistas como Life e Harper’s Bazaar.
A história ainda ganharia outro capítulo extraordinário quando o produtor cinematográfico John Calley, conhecido por trabalhos como Laranja Mecânica, Catch-22 e Jerry Maguire, tornou-se seu proprietário. Durante sua posse, Calley confiou a restauração mecânica do Mercedes-Benz à empresa de Phil Hill, campeão mundial de Fórmula 1 de 1961. Até mesmo Bernie Ecclestone chegou a incluir o 680 S em sua coleção, demonstrando o extraordinário prestígio acumulado pelo automóvel ao longo das décadas.
O 680 S foi produzido entre 1927 e 1930, com aproximadamente 146 unidades, embora os números exatos sejam difíceis de estabelecer devido às modificações realizadas em alguns chassis ao longo da vida. Alguns exemplares foram posteriormente convertidos para especificações mais potentes, inclusive SS e SSK. A própria família de modelos evoluiria rapidamente: o 680 S daria origem ao Mercedes-Benz SS, que por sua vez prepararia o caminho para o lendário SSK, consolidando a reputação dos grandes Mercedes-Benz superalimentados da era de Ferdinand Porsche.
O Mercedes-Benz 680 S Sindelfingen Sports Tourer de 1927 representa, portanto, muito mais que um grande automóvel de luxo dos anos 1920. Ele pertence ao momento em que a recém-nascida Mercedes-Benz decidiu estabelecer sua identidade através de máquinas capazes de competir nas pistas e, ao mesmo tempo, transportar seus proprietários com uma combinação incomum de elegância e brutalidade mecânica. Seu seis-cilindros de 6.8 litros, capaz de atingir 180 cv com o compressor acionado, fazia dele um dos automóveis mais rápidos de sua época; sua carroceria Sindelfingen transformava essa força em uma peça de extraordinária beleza. Mais de nove décadas depois, o 680 S permanece como um dos primeiros grandes símbolos da filosofia que ajudaria a definir a Mercedes-Benz: engenharia sofisticada, desempenho excepcional e uma carroceria capaz de transformar velocidade em arte.