MERCER TYPE 5 OPEN TOURER (1922): O ÚLTIMO GRANDE SOPRO DA ERA DOS ESPORTIVOS AMERICANOS ARTESANAIS
No início dos anos 1920, quando a indústria automobilística dos Estados Unidos começava a ser dominada definitivamente pela produção em grande escala e pela filosofia industrial de Henry Ford, ainda existiam fabricantes dispostos a construir automóveis de maneira muito mais artesanal. Entre eles estava a Mercer Automobile Company, de Trenton, New Jersey, uma marca que havia conquistado enorme prestígio antes da Primeira Guerra Mundial com seus velozes e despojados Raceabout. Em 1922, já no crepúsculo dessa tradição, a Mercer oferecia o Type 5, uma família de automóveis que combinava a robustez dos grandes carros americanos com uma herança esportiva que remontava ao lendário Type 35. O Open Tourer, configuração aberta de quatro ou cinco lugares, era uma das expressões mais elegantes dessa última geração.
A história da Mercer começara em 1909, quando a empresa foi estabelecida em New Jersey com o apoio das famílias Roebling e Kuser. Os Roebling, famosos por sua participação na construção da Brooklyn Bridge, proporcionaram à jovem fabricante não apenas capital, mas também uma cultura de engenharia e competição. O resultado mais célebre foi o Mercer Type 35 Raceabout, apresentado em 1911, um automóvel extremamente leve e potente para seu tempo que rapidamente conquistou reputação nas pistas. A Mercer acabou se tornando uma das primeiras marcas americanas a associar de maneira tão clara um automóvel de rua ao desempenho esportivo, antecipando em muitos aspectos o conceito de sports car.
Entretanto, a década seguinte seria muito mais difícil. A morte de Washington Roebling, um dos principais nomes ligados à empresa, no naufrágio do Titanic em 1912, e um grave acidente de competição em 1914, no qual morreram o piloto e o mecânico, contribuíram para que a Mercer reduzisse seu envolvimento oficial com as corridas. A marca passou então a concentrar esforços na produção de automóveis de estrada, ainda preservando parte da filosofia de desempenho que havia caracterizado seus primeiros modelos. A transformação também coincidiu com mudanças na própria indústria: os compradores americanos começavam a procurar automóveis mais confortáveis, práticos e equipados, enquanto a produção em massa tornava os carros mais acessíveis.
O Type 5, lançado para o ano-modelo 1920, representava justamente essa tentativa de conciliar tradição e modernidade. A família incluía diversas carrocerias - Touring, Sporting, Runabout, Raceabout, Coupé e modelos fechados - todas construídas em torno de uma arquitetura mecânica comum. Para 1922, a versão aberta que hoje podemos chamar de Open Tourer apresentava uma carroceria longa, de quatro ou cinco lugares, montada sobre o chassi de maior entre-eixos. A denominação ‘Touring’ era mais comum nas referências históricas da Mercer, enquanto ‘Open Tourer’ é uma maneira adequada de descrever a configuração aberta.
No coração do Type 5 estava um enorme motor de 4 cilindros em linha de 4.888 cm³, equivalente a 298.3 polegadas cúbicas. Tratava-se de um motor de válvulas laterais, com bloco e cabeçote de ferro fundido, alimentado por carburador Zenith e desenvolvido para entregar aproximadamente 72 cv a 2.000 rpm. Algumas referências de época e posteriores arredondam essa potência para 70 cv, enquanto determinadas configurações e fontes registram valores ligeiramente diferentes; de todo modo, o grande quatro-cilindros tinha torque abundante em baixa rotação e proporcionava ao Mercer uma capacidade de aceleração e velocidade muito respeitável para um automóvel daquele período.
A transmissão era manual de 4 velocidades, algo importante em um momento no qual muitas máquinas ainda utilizavam caixas de 3 velocidades. A potência chegava às rodas traseiras por meio de um eixo convencional, enquanto o chassi utilizava uma robusta estrutura de longarinas de aço. A suspensão recorria a eixos rígidos dianteiro e traseiro, ambos apoiados em feixes de molas semielípticas e equipados com amortecedores hidráulicos Houdaille. Os freios, por sua vez, atuavam apenas nas rodas traseiras, solução ainda comum nos Estados Unidos no início da década de 1920.
O Touring utilizava o longo entre-eixos de aproximadamente 132 polegadas, ou 3.35 metros, significativamente maior que os cerca de 2.92 metros empregados pelo Raceabout. Essa diferença alterava completamente sua personalidade. Enquanto o Raceabout era concebido para velocidade e condução esportiva com o mínimo de peso possível, o Touring oferecia espaço para passageiros e bagagem e podia ser utilizado como um verdadeiro automóvel de viagem. A carroceria aberta, com para-brisa vertical e capota dobrável, permitia que os ocupantes desfrutassem da experiência de viajar ao ar livre, uma característica fundamental dos grandes touring cars americanos da época.
Ainda assim, o Type 5 não havia abandonado completamente seu temperamento esportivo. Seu enorme motor de quase 5.0 litros, combinado com aproximadamente 72 cv e uma construção relativamente leve para os padrões americanos, fazia dele um automóvel rápido. Um exemplar de Touring preservado chegou a ser descrito como tendo desempenho comparável ao de um Bentley de 3.0 Litros contemporâneo, uma comparação extraordinária que ajuda a dimensionar a reputação desses Mercer. O longo entre-eixos, a estabilidade proporcionada pelo chassi robusto e a entrega de torque do quatro-cilindros faziam do Type 5 uma máquina particularmente adequada às estradas abertas que começavam a conectar as cidades americanas.
O ano de 1922 foi, entretanto, o último capítulo regular do Type 5. A produção havia caído drasticamente: de mais de mil automóveis Mercer em 1920, passou para menos de mil em 1921 e chegou a apenas 336 unidades em 1922, segundo registros históricos de produção. A empresa continuaria produzindo automóveis e lançaria o Type 6 a partir de 1923, mas a situação financeira se deterioraria rapidamente. A Mercer entrou em processo de insolvência em 1923 e a produção acabaria definitivamente em 1925.
Essa curta trajetória explica por que um Mercer Type 5 Open Tourer de 1922 é hoje um automóvel tão raro. Estima-se que apenas cerca de 120 Mercer de todos os tipos tenham sobrevivido até os tempos atuais, número extraordinariamente pequeno diante da importância que a marca teve no automobilismo americano. Exemplares do Type 5 Touring aparecem ocasionalmente em coleções e leilões internacionais, frequentemente tratados como importantes representantes da chamada Nickel Era americana.
O Mercer Type 5 Open Tourer, portanto, representa um momento de transição fascinante. Ele ainda carregava a alma dos grandes esportivos americanos da era pré-guerra, mas já apresentava dimensões, conforto e equipamentos que apontavam para os automóveis de turismo dos anos 1920. Seu enorme quatro-cilindros de quase 5.0 litros, a caixa de 4 marchas, o chassi robusto e a carroceria aberta formavam um conjunto que podia viajar rapidamente por longas distâncias, mas a realidade econômica da Mercer já não permitia que o pequeno fabricante competisse com os gigantes que dominavam o mercado. O Type 5 foi, assim, um dos últimos grandes Mercers - e o Open Tourer, uma elegante despedida de uma tradição americana em que velocidade, engenharia artesanal e luxo ainda podiam conviver no mesmo automóvel.