MERLYN MK6 (1964): O PEQUENO ESPORTIVO INGLÊS QUE ENFRENTOU OS LOTUS NAS PISTAS DOS ANOS 1960
Em 1964, enquanto fabricantes como Lotus, Lola, Brabham e Cooper dominavam as atenções do automobilismo britânico, um pequeno construtor de Essex desenvolvia em escala artesanal um esportivo destinado a disputar justamente esse território. Era o Merlyn Mk6, criação da Colchester Racing Developments, evolução direta do Mk4 e concebido para enfrentar principalmente o bem-sucedido Lotus 23 nas corridas de carros esportivos. A receita seguia uma fórmula tipicamente britânica da época: chassi multitubular, carroceria leve de fibra de vidro, motor central-traseiro e dimensões extremamente compactas. O Mk6 recebeu uma nova carroceria em relação ao Mk4, estrutura mais rígida graças ao aprimoramento da triangulação do chassi, modificações no mecanismo de câmbio e buchas de nylon no lugar das unidades de borracha, mudanças que procuravam melhorar simultaneamente a precisão e a resistência do conjunto. O resultado era um carro de competição pequeno, baixo e visualmente muito próximo de seus rivais mais famosos, mas desenvolvido por uma empresa independente que precisava extrair o máximo de cada componente.
A concepção do Mk6 também revela como a Colchester Racing Developments trabalhava. O carro mantinha o conceito estrutural básico do Mk4, mas recebia melhorias destinadas a acompanhar a rápida evolução dos esportivos de competição. A suspensão era independente nas quatro rodas, com braços transversais e molas helicoidais, enquanto os freios utilizavam discos Girling. A carroceria de fibra de vidro envolvia um chassi tubular relativamente simples, mas eficiente, e a posição central do motor contribuía para uma distribuição de massas adequada às exigências das pistas. O modelo podia utilizar diferentes propulsores conforme a categoria e a preparação, e foi justamente essa flexibilidade que permitiu que os Mk6 e Mk6A aparecessem com motores Ford de diferentes especificações e, posteriormente, com o muito mais sofisticado Lotus-Ford Twin Cam de 1.6 litros. Fontes históricas apontam que a família Mk6/Mk6A utilizou uma variedade de motores, tendo o quatro-cilindros Lotus-Ford como uma de suas principais configurações.
A evolução para a Mk6A, produzida a partir de 1964 e associada à mesma arquitetura fundamental, trouxe ainda mais possibilidades para o pequeno esportivo. A nova configuração permitia o emprego de rodas mais largas e do motor Lotus-Ford Twin Cam de aproximadamente 1.6 litros, conjunto que proporcionava um salto significativo de desempenho. Um exemplar preservado de 1964, por exemplo, utiliza um Twin Cam de 1.598 cm³, duplo comando de válvulas, dois carburadores Weber 45 DCOE e cerca de 180 cv, associado a uma caixa Hewland de 5 velocidades. Esses números pertencem a um carro posteriormente preparado para competição histórica e não devem ser confundidos automaticamente com a especificação original de todos os Mk6 de época, mas ajudam a dimensionar o potencial que a plataforma alcançou. Outra referência técnica para a família Mk6 indica 480 kg de peso e velocidade máxima na ordem de 230 km/h com essa configuração de 1.6 litros.
Nas pistas, o pequeno Merlyn encontrou exatamente o ambiente para o qual havia sido concebido. Os carros participaram de provas britânicas de carros esportivos e enfrentaram diretamente máquinas como Lotus 23, Elva Mk7 e Brabham, enquanto exemplares também seguiram para os Estados Unidos, mercado particularmente importante para a Colchester Racing Developments. A evolução do projeto demonstrou que a Merlyn conseguia competir com construtores muito mais conhecidos, e registros históricos mostram a presença dos Mk6 em circuitos de grande tradição. A linhagem seria vista em provas ligadas a Brands Hatch, Goodwood e Daytona, enquanto os exemplares sobreviventes continuam participando de competições históricas. No Goodwood Revival, por exemplo, um Merlyn-Ford Mk6 de 1963 aparece entre os participantes da Madgwick Cup, categoria dedicada aos carros esportivos de competição do período.
A produção foi naturalmente limitada, como era comum entre pequenos construtores britânicos de competição. Estimativas disponíveis apontam para aproximadamente 25 exemplares somando Mk6 e Mk6A, construídos entre 1964 e 1965, com uma parcela significativa destinada à exportação para os Estados Unidos. Essa raridade acabou contribuindo para a valorização do modelo entre colecionadores e participantes do automobilismo histórico. Sobreviventes cuidadosamente preservados ainda aparecem em eventos europeus e norte-americanos, alguns mantendo especificações próximas às originais e outros adaptados às exigências contemporâneas das corridas históricas. O fato de a própria Colchester Racing Developments ter mantido por muitos anos a produção de peças para os Merlyn também ajudou a preservar esses carros após o encerramento da fabricação de automóveis de competição.
O Merlyn Mk6 de 1964 é, assim, um daqueles carros que demonstram como o automobilismo britânico dos anos 1960 era capaz de produzir máquinas extraordinariamente especializadas com recursos relativamente modestos. Sem a projeção internacional dos Lotus ou Brabham, o pequeno esportivo da Colchester Racing Developments apostava em baixo peso, simplicidade mecânica, motor central e agilidade, exatamente as qualidades que permitiam que um pequeno construtor se aproximasse dos grandes nomes da categoria. Hoje, cada Mk6 sobrevivente representa não apenas um raro carro de corrida, mas também uma lembrança de uma época em que dezenas de pequenas oficinas britânicas podiam construir, testar e colocar nas pistas seus próprios projetos.