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MEYERS MANX SR (1970): O ROADSTER QUE LEVOU A IRREVERÊNCIA DO BUGGY PARA AS RUAS

18/09/2026

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MEYERS MANX SR (1970): O ROADSTER QUE LEVOU A IRREVERÊNCIA DO BUGGY PARA AS RUAS

No começo dos anos 1970, poucos automóveis representavam tão bem a criatividade californiana quanto o Meyers Manx SR, uma interpretação completamente diferente do conceito que havia transformado Bruce Meyers em uma das figuras mais conhecidas do universo dos dune buggies. Apresentado em 1970 como uma espécie de irmão esportivo e urbano do famoso Manx, o SR - sigla de Street Roadster - nasceu com a missão de abandonar as dunas e assumir definitivamente o asfalto, ainda utilizando como base mecânica o onipresente Volkswagen Beetle. A ideia era simples em sua essência: aproveitar a plataforma encurtada do VW e envolvê-la com uma nova carroceria de fibra de vidro, mas o resultado estava muito distante da aparência rústica de um buggy convencional. O desenho foi desenvolvido por Bruce Meyers em conjunto com Stewart Reed, recém-formado pelo ArtCenter College of Design, e apresentou uma linguagem de linhas baixas e alongadas, superfície em forma de cunha, faróis escamoteados em cavidades circulares, teto tipo Targa e, principalmente, portas de abertura vertical que hoje seriam imediatamente associadas ao conceito de scissor doors. O curioso é que o Manx SR surgiu quatro anos antes do Lamborghini Countach utilizar uma solução semelhante, embora por conceitos e projetos completamente diferentes. 

A proposta estética era apenas parte da revolução. Enquanto o Manx tradicional utilizava uma carroceria relativamente simples, o SR foi deliberadamente concebido com uma construção muito mais elaborada, formada por 13 peças independentes de fibra de vidro, incluindo painéis internos destinados a esconder as partes brutas do material e proporcionar um acabamento mais próximo ao de um verdadeiro automóvel esportivo. A preocupação não era apenas estética: Bruce Meyers estava enfrentando um problema que ameaçava todo o seu negócio, a proliferação de cópias baratas do Manx, e tornou o novo projeto mais complexo justamente para dificultar sua reprodução por fabricantes concorrentes. O resultado era um kit muito mais sofisticado que exigia maior trabalho de montagem, mas também oferecia itens inexistentes na maioria dos dune buggies, como compartimento para bagagem, teto removível, cortinas laterais e proteção contra as intempéries. O SR mantinha o entre-eixos de aproximadamente 2.03 metros, correspondente à plataforma encurtada do Volkswagen Type 1, e preservava a arquitetura mecânica básica do Beetle. 

Apesar da aparência futurista, a mecânica permanecia relativamente simples e acessível. O conjunto original normalmente utilizava os motores boxer de 4 cilindros refrigerados a ar da Volkswagen, podendo receber diferentes capacidades e preparações. Um motor VW de aproximadamente 1.6 litroS era uma opção bastante comum, e havia espaço para motores consideravelmente mais fortes, inclusive unidades de 6 cilindros boxer refrigeradas a ar e alguns propulsores de 4 cilindros de maior potência. O motor ficava na posição traseira e transmitia força às rodas traseiras através da caixa de 4 velocidades do Volkswagen. Com peso na faixa de 680 kg, o pequeno roadster podia oferecer desempenho bastante interessante mesmo com potência modesta, enquanto versões preparadas ultrapassavam facilmente os 80 cv e poderiam alcançar mais de 160 km/h, dependendo da configuração. A suspensão independente nas quatro rodas, herdada da arquitetura Volkswagen, contribuía para o comportamento ágil, enquanto a carroceria aerodinamicamente mais eficiente que a de um buggy convencional dava ao SR uma personalidade muito mais apropriada para rodar em estradas. 

A reação da imprensa foi especialmente entusiasmada. O Meyers Manx SR apareceu na capa da edição de maio de 1970 da revista Car and Driver e recebeu uma avaliação extremamente positiva, inclusive em comparação com o então novo Porsche 914. A publicação destacou justamente a combinação entre diversão, leveza e originalidade visual, percebendo que aquele pequeno roadster oferecia uma experiência de condução incomum por uma fração do preço dos esportivos europeus. A comparação com o Porsche não era acidental: o SR tinha proporções compactas, motor traseiro e uma proposta de pequeno esportivo acessível, embora sua arquitetura derivasse diretamente do Volkswagen Beetle e seu projeto permanecesse essencialmente o de um kit car. A capa da Car and Driver ajudou a transformar o SR em uma das criações mais interessantes e inesperadas do começo daquela década. 

O momento de lançamento, entretanto, foi particularmente complicado para B.F. Meyers & Co. Bruce Meyers estava simultaneamente enfrentando a avalanche de cópias do Manx, dificuldades financeiras e uma longa disputa relacionada a impostos. Em 1970, pouco depois da chegada do SR, Meyers deixou a própria empresa; no ano seguinte, B.F. Meyers & Co. encerrou suas atividades. Os moldes do SR sobreviveram e seriam posteriormente utilizados por outras empresas, dando origem às versões conhecidas como SR2, fabricadas por companhias como Karma Coachworks. Por isso, as estimativas de produção variam conforme a definição utilizada: algumas fontes apontam para aproximadamente 200 exemplares produzidos pela própria Meyers, enquanto outras estimam algo próximo de 244 unidades, antes das versões de continuidade construídas posteriormente. Incluindo essas derivações, a quantidade total de SR jamais chegou perto do volume alcançado pelo Manx original, o que explica a atual raridade do modelo. 

Essa curta trajetória acabou tornando o Meyers Manx SR um dos projetos mais fascinantes da história dos kit cars americanos. Ele nasceu de uma tentativa de levar o espírito aventureiro do Manx para o uso urbano, mas acabou fazendo algo muito mais ousado: antecipou tendências de design que seriam associadas posteriormente a esportivos muito mais caros, utilizou portas de abertura vertical antes de elas se tornarem um símbolo da Lamborghini e apresentou uma carroceria de estilo futurista sobre uma mecânica Volkswagen simples, barata e amplamente disponível. O projeto também demonstra a capacidade de Bruce Meyers de enxergar o automóvel não apenas como um meio de transporte, mas como uma combinação de engenharia, design e liberdade criativa. Quase desaparecido do mercado convencional pouco depois de seu lançamento, o SR sobreviveu graças à sua personalidade singular e hoje ocupa um lugar especial entre os automóveis americanos mais originais do período.

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1970 - MEYERS MANX SR

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