MG SA REINBOLT & CHRISTE DROPHEAD COUPÉ (1936): O LUXO BRITÂNICO SOB MEDIDA EM PLENA ERA DOURADA DO CARRO ENCARROÇADO À MÃO
A Inglaterra da década de 1930 respirava um misto de tradição, requinte e ousadia automotiva. Era um período em que fabricantes consolidados conviviam com artesãos de carrocerias capazes de transformar chassis em verdadeiras esculturas sobre rodas. A MG - Morris Garages - vivia justamente seu momento de expansão e amadurecimento, consolidando a reputação que havia construído com pequenos esportivos acessíveis. Mas em 1936, a marca ousou mirar mais alto, entrando no território dos grandes tourers de luxo com o MG SA. E entre todas as suas variantes, poucas são tão raras e evocam tanto a elegância artesanal da época quanto o MG SA encarroçado pela suíça Reinbolt & Christe no formato Drophead Coupé.
O MG SA havia sido concebido para competir com sedans e coupés maiores e mais luxuosos, como os Riley, Wolseley e até alguns modelos de entrada da Jaguar. A proposta era simples: unir a vivacidade mecânica tradicional da MG com conforto, amplitude e refinamento, criando um carro capaz de transportar quatro passageiros com classe, sem renunciar ao espírito esportivo britânico. Sob o capô, trazia o motor de 6 cilindros em linha de 2.3 litros - posteriormente ampliado para 2.6 litros em algumas versões - oferecendo desempenho suave, progressivo e pleno para longas viagens em estradas sinuosas.
Mas o que realmente transforma o modelo de 1936 em uma joia sobre rodas é sua carroceria Reinbolt & Christe. A firma suíça, especializada em carrocerias artesanais de alta elegância, trabalhava com métodos quase de joalheria automotiva: painéis moldados à mão, proporções cuidadosamente equilibradas, detalhes cromados precisos e interiores acabados com madeiras nobres e couro de primeira linha. O resultado era um Drophead Coupé (um conversível com teto dobrável em lona, mas com aparência de coupé fechado quando levantado) de proporções majestosas, capô longo, para-lamas fluidos e uma presença absolutamente distinta.
Sua estética era ao mesmo tempo britânica e continental. A base mecânica e o chassi eram MG - vigorosos, esportivos, confiáveis -, mas o traço de carroceria tinha um quê mais europeu, mais refinado, quase francês ou italiano. A combinação criava uma personalidade única no mercado da época: não era um MG comum, nem um grand tourer tradicional. Era algo híbrido, raro, valorizado pelas famílias abastadas que buscavam exclusividade sem ostentação desnecessária.
Por dentro, o Reinbolt & Christe Drophead Coupé era uma aula de artesanato. O painel de madeira polida, os instrumentos circulares Smiths, o volante grande de três raios e os bancos amplos criavam um ambiente de luxo silencioso, quase doméstico. Era um automóvel para viagens longas, apreciadas sem pressa, com a capota recolhida e o vento cortando levemente o ar ao redor.
Estima-se que pouquíssimos MG SA tenham recebido carroceria Reinbolt & Christe - alguns historiadores sugerem menos de dez unidades - tornando-os hoje verdadeiros unicórnios automobilísticos. Encontrar um em estado original é praticamente testemunhar um capítulo sobrevivente da era em que automóveis ainda eram moldados como obras de arte individuais.