MG TA Q-TYPE (1936): O ESPÍRITO DAS PISTAS BRITÂNICAS EM SUA FORMA MAIS PURA
Em 1936, a MG (Morris Garages) já havia conquistado um lugar de respeito entre os entusiastas ingleses. Fundada por Cecil Kimber, a marca se especializou em pequenos esportivos acessíveis, ágeis e divertidos de conduzir - carros que permitiam ao cidadão comum experimentar algo do glamour e da emoção das competições. O MG TA, lançado naquele mesmo ano, representava a evolução natural dessa filosofia. Mas, nos bastidores, a MG preparava algo muito mais especial.
O MG TA Q-Type não era um carro pensado para o grande público. Pelo contrário: tratava-se de uma versão de competição, criada com o objetivo claro de levar a MG às pistas e colinas da Grã-Bretanha e da Europa. O ‘Q’ em seu nome indicava exatamente isso - um modelo experimental, produzido em números extremamente reduzidos e destinado a pilotos privados e equipes semi-oficiais.
Visualmente, o Q-Type já se diferenciava de imediato do TA de rua. A carroceria aberta, mais leve e compacta, abandonava qualquer pretensão de conforto em nome da eficiência. Os para-lamas separados, o capô longo com presilhas externas, o para-brisa mínimo e a traseira curta davam ao carro uma postura agressiva, claramente inspirada nos monopostos e nos carros de corrida da época. Era um MG sem disfarces - funcional até o último detalhe.
Sob o capô, o Q-Type escondia sua verdadeira razão de existir. O motor era o conhecido 4-cilindros em linha de 1.292 cm³, mas profundamente retrabalhado. A grande novidade era a adoção de um compressor volumétrico tipo Roots, que transformava completamente o caráter do conjunto. A potência saltava para cerca de 110 cv, um número extraordinário para um carro tão pequeno e leve em 1936. Para efeito de comparação, isso colocava o Q-Type em um patamar semelhante ao de carros de categorias superiores nas competições da época.
O chassi também recebia atenção especial. Baseado no do MG TA, ele era reforçado e aliviado, com suspensão ajustada especificamente para uso em pista e estradas sinuosas. O peso total ficava em torno de 750 kg, garantindo uma relação peso-potência extremamente favorável. O resultado era um carro nervoso, exigente, mas incrivelmente rápido - especialmente em circuitos travados e provas de subida de montanha, onde a agilidade fazia toda a diferença.
Ao volante, o MG TA Q-Type exigia respeito. Sem auxílios, com direção pesada e freios mecânicos, ele colocava o piloto em contato direto com a máquina. Cada mudança de marcha, cada correção de trajetória e cada aceleração eram sentidas de forma crua. Era exatamente isso que os pilotos buscavam: um carro honesto, rápido e competitivo, que recompensava habilidade e coragem.
A produção do Q-Type foi extremamente limitada. Estima-se que apenas oito unidades tenham sido construídas pela própria MG, embora alguns exemplares adicionais tenham sido montados posteriormente com especificações semelhantes para competição. Essa raridade extrema transformou o modelo em uma verdadeira lenda entre os colecionadores e historiadores do automobilismo britânico.
O MG TA Q-Type é frequentemente citado como um dos primeiros exemplos claros da filosofia que mais tarde definiria os esportivos britânicos clássicos: carros pequenos, leves e sobrealimentados, capazes de desafiar máquinas maiores apenas com engenhosidade e talento ao volante. Hoje, quando um Q-Type aparece em eventos como Goodwood ou Pebble Beach, ele não é apenas admirado - é reverenciado como um símbolo da era heroica do automobilismo.