MITSUBISHI JEEP CJ-3B (1983): O VELHO JEEP AMERICANO QUE ENCONTROU NO JAPÃO UMA SEGUNDA VIDA DE QUASE MEIO SÉCULO
Poucos utilitários conseguiram atravessar tantas décadas mantendo praticamente intacta a essência do projeto original quanto o Mitsubishi Jeep derivado do Willys CJ-3B. Sua história japonesa começou ainda em 1953, quando a então Shin Mitsubishi Heavy Industries iniciou a produção local de Jeeps sob licença da Willys-Overland. O primeiro veículo, denominado J1, foi montado inicialmente em regime CKD e 54 unidades foram entregues à Agência Florestal japonesa; naquele mesmo ano, um acordo de assistência técnica e comercial permitiu à Mitsubishi avançar para a fabricação doméstica. A mudança da Willys do CJ-3A para o novo CJ-3B coincidiu com esse processo, fazendo com que o Mitsubishi CJ3B-J3 incorporasse desde o princípio as características do CJ-3B americano, incluindo o conhecido capô elevado necessário para acomodar o motor Hurricane. A partir daí, a Mitsubishi desenvolveu uma extensa família própria de Jeeps, mantendo a arquitetura básica durante décadas e adaptando-a às necessidades do mercado japonês.
É nesse contexto que aparece o automóvel identificado como Mitsubishi Jeep CJ-3B de 1983. Existe, porém, uma particularidade importante em relação à data: um conhecido exemplar integrante da coleção histórica da Mitsubishi no Reino Unido foi fabricado em 1979 e registrado na Grã-Bretanha apenas em 1983, razão pela qual aparece catalogado como ‘1983 Mitsubishi Jeep CJ-3B’. Apenas oito unidades desse lote foram importadas para o Reino Unido. Assim, quando se encontra a denominação ‘1983 CJ-3B’, ela pode estar relacionada ao ano de registro e não necessariamente ao ano de fabricação.
Independentemente dessa particularidade, o modelo representa perfeitamente a longevidade do projeto japonês. O desenho continuava reconhecível à primeira vista: para-brisa rebatível, carroceria aberta de duas portas, capô alto, sete aberturas verticais na grade, para-lamas separados, para-choques simples e capota de lona, tudo concebido muito mais para utilidade do que para conforto. A construção mantinha chassi separado, eixos rígidos e feixes de molas, combinação particularmente adequada para terrenos difíceis e que fazia do Mitsubishi Jeep uma ferramenta de trabalho antes de qualquer outra coisa. A família japonesa conservou o entre-eixos curto de aproximadamente 2.03 metros nas versões equivalentes ao J54, enquanto o comprimento ficava na faixa de 3.39 metros.
A mecânica dos exemplares japoneses posteriores também já mostrava uma característica que diferenciava o Mitsubishi Jeep de muitos de seus antecessores americanos: a ampla utilização de motores diesel desenvolvidos pela própria Mitsubishi. Entre eles estava o 4DR5, quatro-cilindros de 2.659 cm³, naturalmente aspirado e equipado com comando no cabeçote, que passou a equipar o J54 e outros integrantes da família a partir do início dos anos 1970. Na especificação japonesa de 1983 associada ao J54, esse motor produzia 80 cv a 3.800 rpm e 17 Nm a 2.200 rpm, transmitidos por uma caixa manual de 4 velocidades e sistema de tração integral parcial. A velocidade máxima declarada era de aproximadamente 100 km/h, números modestos mesmo para a época, mas coerentes com um utilitário pensado para resistência, capacidade fora de estrada e transporte em baixa velocidade.
A família Mitsubishi Jeep também recebeu ao longo dos anos uma impressionante variedade de configurações. Havia versões de entre-eixos curto e longo, carrocerias abertas com capota de lona, versões fechadas, furgões de entrega e diferentes motores a gasolina e diesel. O J58, lançado em 1975, tornou-se particularmente importante por combinar a carroceria curta com capota de lona e o motor a gasolina 4G52 de 2.0 litros, mostrando que a Mitsubishi começava a explorar também o Jeep como veículo de lazer. Na década de 1980, entretanto, um novo concorrente surgiria dentro da própria Mitsubishi: o Pajero, apresentado como conceito em 1979 e colocado no mercado em 1982. Sua concepção muito mais moderna acabaria reduzindo gradualmente a importância comercial do velho Jeep, embora este continuasse sendo produzido por muitos anos.
O contraste entre os dois modelos é bastante revelador. Enquanto o Pajero começava a incorporar características de um utilitário esportivo moderno, oferecendo maior conforto e uma condução mais próxima dos automóveis de passeio, o Mitsubishi Jeep permanecia fiel à fórmula original: estrutura simples, eixos rígidos, tração 4x4 selecionável, carroceria aberta e enorme facilidade de reparação. Foi justamente essa longevidade que permitiu ao projeto permanecer em produção até o final dos anos 1990. Segundo a própria Mitsubishi, aproximadamente 200 mil unidades da família Jeep foram comercializadas ao longo de 45 anos, entre o primeiro modelo de 1953 e a edição comemorativa final lançada em junho de 1998.
O Mitsubishi Jeep CJ-3B de 1983 representa, portanto, uma curiosa confluência entre duas histórias automobilísticas. De um lado está o Jeep americano criado para uma realidade militar e rural; de outro, a capacidade da indústria japonesa de absorver uma tecnologia estrangeira, aprimorá-la progressivamente e mantê-la competitiva durante décadas. O fato de a Mitsubishi ter conservado a essência do projeto por tanto tempo, mesmo depois de desenvolver veículos muito mais modernos, demonstra a eficiência de uma arquitetura extremamente simples e robusta. É também um daqueles casos em que a cópia licenciada acabou adquirindo uma identidade histórica própria, tornando-se não apenas um Jeep fabricado no Japão, mas um verdadeiro Mitsubishi de uma linhagem que atravessou quase toda a segunda metade do século XX.