MORGAN 4/4 SERIES I DROPHEAD COUPÉ (1939): A ELEGÂNCIA ARTESANAL DE UM PEQUENO ESPORTIVO BRITÂNICO
Visitando a Inglaterra dos anos 1930, vamos conhecer um automóvel que traduz perfeitamente a personalidade independente e artesanal da Morgan Motor Company. Estamos falando do elegante Morgan 4/4 Drophead Coupé, uma das versões mais refinadas e raras da primeira geração do pequeno esportivo de quatro rodas do fabricante britânico.
A história desse pequeno esportivo começou com Henry Frederick Stanley Morgan, fundador da empresa, que já havia conquistado reconhecimento com seus característicos veículos de três rodas. Entretanto, a crescente demanda por automóveis convencionais de quatro rodas levou a Morgan a desenvolver um novo projeto, mantendo a filosofia que sempre caracterizou a marca: baixo peso, construção simples, comportamento esportivo e uma forte ligação com a tradição artesanal britânica.
Apresentado em 1936, o 4/4 recebeu essa denominação justamente por possuir 4 rodas e motor de 4 cilindros. Inicialmente oferecido como roadster de dois lugares, o modelo ganhou uma versão de quatro assentos em 1937 e, em agosto de 1938, a elegante carroceria Drophead Coupé, que acrescentava maior refinamento e proteção contra as intempéries.
O Drophead Coupé distinguia-se dos roadsters convencionais por apresentar uma carroceria mais elaborada, com portas de maiores dimensões, molduras permanentes nas janelas laterais e uma capota conversível de construção mais sofisticada. O sistema permitia diferentes posições de abertura, oferecendo maior versatilidade para utilização em viagens.
A dianteira preservava a identidade visual dos primeiros Morgan de quatro rodas, com radiador vertical, faróis circulares separados e para-lamas independentes. O capô alongado, as rodas raiadas e a traseira compacta contribuíam para as proporções esportivas, enquanto os detalhes cromados e os acabamentos internos em madeira acrescentavam um toque de elegância.
Um dos aspectos mais interessantes era a construção da carroceria. Como acontecia tradicionalmente com os automóveis Morgan, a estrutura utilizava uma armação de madeira de freixo (ash frame), sobre a qual eram instalados os painéis externos metálicos. Essa técnica de construção artesanal permaneceria como uma das características mais reconhecidas do fabricante durante muitas décadas. O resultado era um automóvel de dimensões reduzidas, mas com personalidade bastante distinta: tinha a aparência de um pequeno grand tourer britânico, embora preservasse a leveza e a simplicidade mecânica de um esportivo compacto.
Sob o capô estava instalado um motor de 4 cilindros em linha Coventry Climax, com 1.122 cm³ de cilindrada, equipado com válvulas de admissão no cabeçote e válvulas de escape laterais. Alimentado por carburador, desenvolvia aproximadamente 35 cv a 4.500 rpm, potência bastante interessante para um automóvel de baixo peso. A transmissão era manual de 4 velocidades, fornecida pela Meadows nos primeiros exemplares e posteriormente substituída por unidades Moss. A potência era enviada às rodas traseiras, mantendo a configuração tradicional dos pequenos esportivos da época.
O chassi utilizava uma estrutura tubular de aço, enquanto a suspensão dianteira independente empregava o conhecido sistema sliding pillar, uma solução característica dos projetos de H.F.S. Morgan. Nesse sistema, os conjuntos das rodas dianteiras deslizavam verticalmente em colunas com molas helicoidais, proporcionando uma combinação interessante de simplicidade construtiva e comportamento dinâmico. Na traseira, o modelo utilizava eixo rígido com molas semielípticas. Os freios eram a tambor nas quatro rodas, com acionamento mecânico.
Em 1939, a Morgan também iniciou a transição para o motor Standard Special de 1.267 cm³, com válvulas no cabeçote. Por isso, existem diferenças de especificação entre exemplares daquele ano. Um Morgan Drophead Coupé de 1939 documentado em um catálogo da Christie’s, por exemplo, conserva o motor Coventry Climax de 1.122 cm³ e 35 cv.
O Drophead Coupé era uma das variantes mais sofisticadas e menos comuns da primeira geração do Morgan 4/4. Entre 1938 e o encerramento da produção em 1939, foram fabricadas somente 58 unidades dessa carroceria. A eclosão da Segunda Guerra Mundial interrompeu a produção automobilística da Morgan, cuja fábrica passou a dedicar-se à fabricação de componentes para equipamentos militares, incluindo peças para armamentos antiaéreos e trens de pouso.
A produção de automóveis seria retomada depois do conflito, em 1946, e o Drophead Coupé continuaria disponível até 1950, com mais 106 exemplares construídos nesse período. Assim, o modelo de 1939 representa uma das últimas manifestações da primeira fase dos esportivos de quatro rodas da Morgan antes da interrupção provocada pela guerra.
O Morgan 4/4 Drophead Coupé de 1939 representa uma fase muito especial da história do fabricante britânico. Seu projeto demonstra como uma pequena empresa independente conseguia oferecer automóveis com personalidade própria, combinando soluções mecânicas tradicionais, construção artesanal e uma identidade visual que se tornaria praticamente atemporal.
Mais refinado que o roadster convencional, mas sem abandonar o espírito esportivo que caracterizava a Morgan, o Drophead Coupé é um daqueles automóveis cuja beleza está justamente na simplicidade de suas soluções e na autenticidade de sua construção.



















