MORGAN SS 3-WHEELER (2018): A INTERPRETAÇÃO MAIS ESPORTIVA DO TRICICLO QUE RESGATOU UM SÉCULO DE TRADIÇÃO BRITÂNICA
Poucos fabricantes de automóveis conseguem preservar sua identidade de forma tão fiel quanto a Morgan. Instalada desde 1914 em Malvern Link, no condado de Worcestershire, a pequena empresa britânica construiu sua reputação produzindo veículos artesanais que desafiam as tendências da indústria moderna. Entre todos os seus modelos, nenhum possui um significado histórico tão profundo quanto o 3-Wheeler, descendente direto dos triciclos motorizados que fizeram enorme sucesso nas primeiras décadas do século XX. Em 2018, a marca apresentou uma das versões mais interessantes dessa família: o Morgan SS 3-Wheeler, uma edição especial que enfatizava o caráter esportivo do modelo e homenageava a tradição das antigas versões Super Sports (SS) produzidas pela Morgan nas décadas de 1920 e 1930.
O moderno 3-Wheeler havia sido lançado originalmente em 2011, inspirado nos lendários triciclos fabricados entre 1911 e 1952. Seu conceito era deliberadamente simples: proporcionar uma experiência de condução absolutamente pura, sem os inúmeros filtros eletrônicos presentes nos automóveis contemporâneos. A própria Morgan definia o modelo com a expressão “No Frills, All Thrills” - sem luxos, apenas diversão - resumindo perfeitamente sua filosofia.
A versão SS levava esse conceito um passo adiante. Seu visual tornava-se ainda mais agressivo graças a detalhes exclusivos de acabamento, grafismos inspirados nos carros de competição britânicos, rodas com acabamento escurecido, componentes pintados em preto acetinado e diversas possibilidades de personalização oferecidas pelo departamento Morgan Bespoke. Embora mantivesse a silhueta clássica do modelo, o SS transmitia uma aparência ainda mais próxima de um avião de caça da década de 1930 do que de um automóvel convencional.
Seu design permanecia absolutamente inconfundível. Na dianteira, o enorme motor bicilíndrico permanecia totalmente exposto ao vento, montado à frente da carroceria exatamente como acontecia nos primeiros Morgan de mais de um século atrás. Atrás dele surgia um estreito habitáculo aberto para dois ocupantes, protegido apenas por pequenos para-brisas individuais, enquanto a única roda traseira ficava parcialmente escondida sob uma carroceria afilada em formato de gota, solução que contribuía tanto para a estética quanto para a aerodinâmica.
A construção seguia a tradição artesanal da empresa. O chassi tubular de aço era combinado a uma estrutura interna de madeira de freixo cuidadosamente trabalhada à mão, técnica utilizada pela Morgan desde os anos 1930. Sobre essa estrutura eram fixados painéis de alumínio moldados manualmente, resultando em um veículo extremamente leve. O peso em ordem de marcha situava-se pouco acima dos 525 quilos, uma das principais razões para seu desempenho tão envolvente.
O elemento mais marcante continuava sendo o motor. O SS utilizava um bicilíndrico em V de 1.983 cm³, produzido pela norte-americana S&S Cycle, tradicional fabricante de motores para motocicletas de grande cilindrada. Instalado transversalmente na dianteira, o propulsor desenvolvia cerca de 82 cv de potência a 5.250 rpm e 140 Nm de torque a 3.250 rpm. Embora esses números pareçam modestos, a combinação entre elevada entrega de torque e o baixíssimo peso do veículo proporcionava acelerações extremamente vigorosas e uma sensação de velocidade muito superior à sugerida pelos dados técnicos.
Toda essa força era enviada exclusivamente à única roda traseira por meio de uma transmissão manual Mazda de 5 velocidades, extremamente precisa e conhecida por sua robustez. O sistema dispensava diferenciais complexos ou sofisticados controles eletrônicos, preservando uma condução inteiramente mecânica e direta, característica que tornou o 3-Wheeler famoso entre os entusiastas.
O desempenho era surpreendente. O Morgan SS 3-Wheeler acelerava de 0 a 100 km/h em cerca de 6 segundos e atingia aproximadamente 185 km/h de velocidade máxima. Mais importante que os números, porém, era a experiência proporcionada ao condutor. Sentado praticamente sobre o eixo traseiro, completamente exposto ao vento e ao som grave do motor V-twin, o condutor experimentava uma sensação de velocidade semelhante à de uma motocicleta, mas com a estabilidade adicional oferecida pelas duas rodas dianteiras.
A suspensão também refletia a busca por simplicidade e eficiência. Na dianteira, utilizava braços triangulares sobrepostos com molas helicoidais, enquanto a traseira empregava um sistema cantilever igualmente compacto. Os freios contavam com discos ventilados na frente e tambor na roda traseira, solução suficiente para controlar um veículo tão leve. O resultado era uma condução extremamente comunicativa, em que cada irregularidade do piso e cada transferência de peso eram percebidas instantaneamente pelo condutor.
O interior era minimalista, mas cuidadosamente acabado. Os bancos em couro artesanal, o painel em alumínio escovado, os interruptores metálicos inspirados na aviação e o característico botão de partida no estilo ‘bomb release’ criavam um ambiente que parecia transportar seus ocupantes para a cabine de um avião militar clássico. Instrumentação analógica tradicional dividia espaço com um pequeno visor digital responsável por informações adicionais do veículo.
Apesar de sua aparência quase centenária, o SS incorporava discretamente diversos recursos modernos, como injeção eletrônica, sistema de diagnóstico embarcado, imobilizador eletrônico e iluminação atualizada, permitindo atender às exigências legais sem comprometer sua personalidade retro.
Conduzir um Morgan SS 3-Wheeler era uma experiência muito diferente daquela oferecida por qualquer esportivo contemporâneo. Sem teto, sem portas, sem direção assistida e praticamente sem isolamento acústico, cada quilômetro transformava-se em um exercício de conexão entre homem e máquina. O ronco do grande bicilíndrico, as vibrações transmitidas ao chassi, o vento constante e a posição extremamente baixa criavam uma experiência sensorial praticamente impossível de reproduzir em um automóvel moderno.
A produção do 3-Wheeler permaneceu em atividade até 2021, encerrando uma trajetória de dez anos. Seu sucessor, o Super 3, adotaria um motor de 3 cilindros da Ford e uma plataforma completamente nova, encerrando definitivamente a era do característico V-twin exposto na dianteira.
Hoje, o Morgan SS 3-Wheeler 2018 ocupa um lugar especial entre os automóveis artesanais britânicos. Produzido em números bastante reduzidos e altamente personalizável, tornou-se um objeto de desejo para colecionadores e apaixonados pela condução clássica. Mais do que uma edição especial, ele representou a síntese da filosofia da Morgan: construir veículos que privilegiam emoção, autenticidade e tradição acima de qualquer tendência tecnológica. Em uma época dominada por esportivos repletos de assistências eletrônicas, o SS 3-Wheeler permaneceu fiel às suas origens, oferecendo uma experiência visceral e inesquecível, exatamente como faziam os lendários Morgan Super Sports que cruzavam as estradas britânicas quase um século antes.