MORRIS TEN-SIX SPECIAL (1934): QUANDO A MORRIS DECIDIU TRANSFORMAR UM PACATO SEI-CILINDROS EM UM ESPORTIVO DE PERSONALIDADE
Na Inglaterra do início dos anos 1930, a Morris era essencialmente reconhecida por produzir automóveis práticos, acessíveis e destinados a um público muito mais amplo do que aquele atendido pelos pequenos fabricantes esportivos de Abingdon ou Coventry. Foi justamente para acrescentar uma dose de entusiasmo à sua gama que surgiu o Morris Ten-Six Special, derivado do recém-lançado Morris Ten-Six e apresentado ao público no Olympia Motor Show, em Londres, em outubro de 1933, para o ano-modelo de 1934. O Ten-Six havia sido anunciado em agosto daquele ano como uma evolução de 6 cilindros do Ten, utilizando o chassi mais longo do Morris Cowley e um motor de 1.378 cm³; sobre essa base, a Morris criou uma versão esportiva produzida em pequenas quantidades e equipada com motor preparado e dois carburadores SU. A intenção era clara: oferecer algo mais vigoroso e visualmente atraente sem abandonar a plataforma relativamente convencional que sustentava os modelos de passeio da empresa. O resultado não chegava a competir em desempenho com um MG ou um Riley genuinamente esportivo, mas apresentava uma combinação bastante interessante de elegância, equipamento especial e uma carroceria aberta de quatro lugares.
Visualmente, o Ten-Six Special Sports era consideravelmente mais expressivo do que os Morris Ten convencionais. A carroceria possuía um longo capô, uma faixa de couro ou material semelhante envolvendo-o, para-lamas laterais com persianas de ventilação junto ao chassi, ausência de estribos convencionais, portas rebaixadas ou recortadas e uma traseira aberta e alargada, terminando em uma seção posterior baixa. A própria grade do radiador recebeu tratamento especial e um protetor contra pedras, enquanto as rodas raiadas ganhavam elementos decorativos que procuravam reforçar o caráter esportivo. O conjunto transmitia uma imagem bastante típica dos sports tourers britânicos da época: capô comprido, habitáculo aberto e para-lamas independentes, mas preservando espaço para quatro ocupantes. A Morris oferecia sua própria carroceria esportiva, enquanto alguns chassis também eram enviados a encarroçadores independentes, entre eles a Cunard, responsável por algumas das variantes hoje mais raras da linha.
Sob o capô estava o seis-cilindros em linha de 1.378 cm³, um motor de válvulas laterais cuja configuração básica produzia apenas cerca de 12 hp fiscais segundo a classificação britânica da época. Na versão Special, entretanto, a unidade recebia preparação específica, incluindo comando de maior levantamento e dois carburadores SU, procurando extrair respostas mais vigorosas do conjunto. A Morris também instalou uma série de equipamentos especiais: direção com volante de desenho próprio, conta-giros além do velocímetro, comando remoto para a transmissão, duas buzinas, bomba elétrica de combustível e avanço automático da ignição, além do sistema de alimentação aprimorado. A transmissão continuava manual de 3 velocidades. O objetivo, portanto, não era simplesmente produzir mais potência, mas criar um automóvel com resposta mais esportiva e uma apresentação condizente com sua denominação Special.
O chassi utilizava entre-eixos de aproximadamente 2.591 mm, seis polegadas mais longo que o do Ten-Four, e a arquitetura permanecia relativamente tradicional para a época, com motor dianteiro, tração traseira e suspensão baseada em eixos rígidos e molas semielípticas. O peso e a aerodinâmica da carroceria, entretanto, deixavam claro que não se tratava de uma máquina de competição. Relatos de proprietários e especialistas que conheceram exemplares sobreviventes reforçam essa impressão: mesmo na especificação Special, o carro não era particularmente rápido, e sua maior atração estava na combinação entre o estilo esportivo, o funcionamento suave do seis-cilindros e a possibilidade de transportar quatro pessoas. Essa característica talvez explique por que o Ten-Six Special ocupa hoje uma posição tão curiosa: era um esportivo aos olhos da Morris, mas continuava sendo essencialmente um automóvel de turismo com uma interpretação mais ousada.
A produção foi bastante curta. O Morris Ten-Six permaneceu em catálogo entre 1934 e 1935, e o Special foi construído em pequena quantidade durante esse período. O próprio banco de dados do Morris Register permite perceber a raridade da versão: diversos chassis aparecem registrados especificamente como ‘Ten-Six Special Sports Tourer’, identificados pelos números de série da família 34/TS/SP e 35/TS/SP. Entre eles estão exemplares equipados com a carroceria esportiva original da Morris e outros com carrocerias de fabricantes independentes, incluindo vários Cunard. O registro também mostra que alguns carros sobreviveram em diferentes países europeus, revelando que a produção, embora limitada, não ficou restrita ao mercado britânico.
A importância histórica do modelo está justamente em sua posição entre duas filosofias. De um lado, o Ten-Six Special pertencia à tradição dos automóveis familiares da Morris e conservava grande parte de sua arquitetura convencional; de outro, incorporava equipamentos, alimentação e detalhes de carroceria destinados a criar uma experiência mais esportiva, em um período no qual os fabricantes britânicos começavam a perceber que havia mercado para carros que combinassem utilização cotidiana e prazer ao volante. O resultado não foi um rival direto para os MG mais radicais, mas uma alternativa mais elegante e menos extrema, capaz de oferecer quatro lugares e uma dose de personalidade esportiva.
Hoje, a raridade transforma o Morris Ten-Six Special de 1934 em uma das versões mais interessantes da história pré-guerra da marca. Alguns exemplares foram preservados praticamente como saíram de fábrica, enquanto outros receberam carrocerias produzidas por especialistas independentes, tornando cada sobrevivente ligeiramente diferente. O próprio Morris Register relaciona um número bastante reduzido de exemplares Special Sports ainda identificáveis, e especialistas destacam que apenas alguns sobreviventes mantêm as características visuais completas da versão apresentada em Olympia.
O Morris Ten-Six Special acabou sendo, portanto, uma experiência bastante peculiar da Morris: pegar um automóvel relativamente convencional, acrescentar um seis-cilindros, aprimorar sua alimentação e seus comandos e revesti-lo com uma carroceria esportiva de quatro lugares. Não era um carro de competição e tampouco pretendia ser um verdadeiro grand tourer, mas representava perfeitamente a atmosfera automobilística britânica de meados dos anos 1930, quando pequenas diferenças de carroceria, preparação mecânica e acabamento podiam transformar profundamente a personalidade de um mesmo chassi. Seu valor histórico está menos na velocidade absoluta do que na maneira como a Morris tentou aproximar o automóvel familiar do universo dos esportivos, criando uma pequena e rara família de carros que hoje constitui um interessante capítulo da evolução dos modelos pré-guerra britânicos.