MORS TYPE Z 1902: O RUGIDO FRANCÊS DA ERA HERÓICA
O Mors Type Z Racing Car de 1902 é um dos grandes marcos da era heroica do automobilismo, quando pilotos corajosos desafiavam a lógica, o perigo e o próprio destino em máquinas rudimentares, mas movidas por um espírito quase épico. Antes da fama da Renault, da Peugeot e da Bugatti, foi a Mors quem colocou a França no mapa da velocidade - e o Type Z foi o ápice desse pioneirismo.
No início do século XX, o automóvel ainda era uma invenção recente, frágil e barulhenta, mas já despertava paixões intensas.
A França era o berço dessa nova era mecânica, e entre seus protagonistas estava a Société d’Électricité et des Automobiles Mors, fundada em 1897 por Émile Mors e seu irmão Louis. Enquanto muitas empresas ainda viam o automóvel como um luxo de salão, a Mors o via como um instrumento de conquista - uma ferramenta para medir a força do engenho humano.
E, para provar isso, ela entrou nas competições. O resultado? O Mors Type Z Racing Car de 1902, uma das máquinas de corrida mais temidas e respeitadas do seu tempo.
A fábrica dos audazes
A Mors tinha sede em Paris, mas sua alma estava nas estradas empoeiradas das corridas de longa distância, como Paris-Berlin, Paris-Madrid e Gordon Bennett Cup - os equivalentes da Fórmula 1 de sua época. Foi nessas provas que o nome Mors brilhou, competindo ferozmente com marcas como Panhard et Levassor, De Dietrich e Mercedes.
O Type Z, lançado em 1902, foi projetado especificamente para a competição, e representava o auge da engenharia francesa antes da Primeira Guerra Mundial.
Um monstro de 9.2 litros
O Mors Type Z era movido por um colossal motor de 4 cilindros e 9.2 litros, capaz de produzir cerca de 60 cv - um número impressionante para a época. O motor possuía válvulas laterais e ignição por magneto, e era montado na dianteira, com transmissão por corrente para as rodas traseiras.
O chassi, construído em aço reforçado, era simples e rígido, com suspensão por molas semielípticas e freios apenas nas rodas traseiras. Com um peso em torno de 950 kg, o carro podia atingir velocidades próximas de 120 km/h - velocidade quase inimaginável em 1902, quando as estradas eram de terra, sem guard-rails, e os pilotos usavam óculos e cachecóis em vez de capacetes.
Era, em resumo, um canhão sobre rodas, cuja brutalidade exigia destreza e coragem sobre-humanas.
Camille Jenatzy: o ‘Diabo Vermelho’
O Mors Type Z ganhou fama definitiva nas mãos de Camille Jenatzy, o lendário piloto belga conhecido como Le Diable Rouge - o ‘Diabo Vermelho’ - por causa de sua barba flamejante e estilo destemido.
Jenatzy já havia conquistado notoriedade por ser o primeiro homem a ultrapassar os 100 km/h, em 1899, com o carro elétrico La Jamais Contente.
Mas em 1902, ao volante do Mors Type Z, ele demonstrou o poder dos motores a combustão. Durante a Paris-Vienna Race, Jenatzy e seu Mors enfrentaram rivais poderosíssimos, incluindo os Mercedes e Panhard. Apesar das condições brutais - poeira, calor, pneus estourados e animais cruzando a estrada -, o Mors manteve-se firme e venceu etapas decisivas, consolidando a reputação da marca como símbolo da potência francesa.
Um carro à frente de seu tempo
O Mors Type Z também foi notável por suas soluções técnicas avançadas. A marca foi uma das primeiras a empregar suspensões com molas helicoidais ajustáveis e amortecedores hidráulicos - tecnologias raríssimas naquele período. Além disso, o Type Z tinha um ignition cut-off (sistema de corte de ignição) para ajudar nas reduções de marcha, algo que antecipa, de forma rudimentar, sistemas modernos de controle de motor.
Essas inovações colocavam o Type Z no topo da engenharia automobilística de sua época, fazendo dele uma verdadeira máquina de laboratório sobre rodas, desenvolvida para as pistas, mas cujas soluções ecoariam na indústria civil.
O rugido que inspirou gerações
O sucesso do Type Z e suas vitórias ajudaram a Mors a consolidar-se como referência em desempenho. Entre 1901 e 1904, os carros da marca venceram diversas provas internacionais, tornando o nome Mors sinônimo de força, velocidade e ousadia.
Essas vitórias também influenciaram outros pioneiros - entre eles um jovem engenheiro francês chamado André Citroën, que trabalharia na Mors antes de fundar sua própria empresa em 1919.
De fato, a Mors seria adquirida pela Citroën em 1925, encerrando sua trajetória como marca independente, mas deixando uma herança que moldou o futuro da indústria francesa.
Design: brutalidade com elegância
O Mors Type Z Racing Car tinha um visual que mesclava força e simplicidade. O longo capô abrigava o gigantesco motor, e a carroceria, feita de chapas metálicas rebitadas, seguia o formato clássico dos carros de corrida da época - assentos abertos, sem para-lamas largos e com o tanque exposto na traseira.
As rodas de madeira com pneus estreitos e o volante fino completavam o ar de ‘máquina domável’. Não havia instrumentos além de um conta-giros rudimentar e um termômetro - o resto ficava por conta do instinto do piloto.
Legado e importância histórica
O Mors Type Z de 1902 é hoje lembrado como um dos grandes pioneiros do automobilismo internacional. Foi um carro que ajudou a transformar a corrida automotiva em um campo de testes para a indústria - e mostrou ao mundo que a França dominava não apenas a arte, mas também a engenharia da velocidade.
Seu motor de grande deslocamento, sua construção robusta e sua performance agressiva abriram caminho para os grandes carros de Grand Prix da década seguinte, como os Peugeot L76 e Delage 15-S8. Mais do que uma máquina, o Type Z foi um símbolo de bravura, invenção e orgulho nacional francês.
Apenas como curiosidade, durante a famosa corrida Paris-Madrid de 1903, Jenatzy voltou a pilotar para a Mors - mas o evento foi interrompido por causa de uma série de acidentes fatais, levando ao fim das corridas em estrada aberta na Europa. O Type Z, portanto, marca a fronteira entre a aventura romântica e o início da era moderna das competições.
O Mors Type Z Racing Car de 1902 foi um grito metálico da juventude do automóvel, quando cada curva podia ser a última e cada vitória era uma façanha quase mitológica. Um carro que unia brutalidade e inovação, feito para homens que desafiavam o impossível e abriram o caminho para o automobilismo como o conhecemos hoje.
O Mors rugiu nas estradas quando o mundo ainda aprendia a dirigir - e esse rugido ainda ecoa, mais de um século depois, como o som primordial da paixão pela velocidade.