O BESOURO DE COVENTRY: O ALVIS 12/50 TJ ‘BEETLEBACK’ SPECIAL (1931), UM CLÁSSICO BRITÂNICO DOS ANOS DE INCERTEZA
Coventry, primavera de 1931. A Inglaterra ainda sentia os efeitos profundos da Grande Depressão. Fábricas reduziam turnos, o desemprego crescia e o otimismo dos ‘Roaring Twenties’ dava lugar a uma sobriedade cautelosa. No entanto, nas estradas sinuosas de Warwickshire e nas alamedas arborizadas dos condados ao redor de Coventry, um pequeno roadster britânico continuava a rodar com elegância e espírito esportivo: o Alvis 12/50 TJ Beetleback Special.
A Alvis Car and Engineering Company, sediada em Coventry, era uma das marcas mais respeitadas da engenharia automotiva inglesa. Após uma breve interrupção na produção do popular 12/50 para experimentar modelos de tração dianteira, a empresa relançou o modelo em 1930 como a série TJ - a última e mais refinada evolução da linhagem iniciada em 1923. O chassi recebeu atualizações importantes: radiador mais alto e profundo com shell cromado, ignição por bobina (em substituição ao magneto), tanque de combustível reposicionado para a traseira e refinamentos mecânicos que melhoravam a confiabilidade.
O coração do 12/50 TJ era um robusto motor de 4 cilindros em linha, 1.645 cm³, com válvulas no cabeçote (OHV), que entregava cerca de 50 a 52 cv a 4.500 rpm. Com dois carburadores SU em algumas versões, a potência podia chegar perto dos 55 cv. Acoplado a uma transmissão manual de 4 velocidades sem sincronização, o conjunto permitia uma velocidade máxima próxima dos 120-130 km/h - números respeitáveis para um esportivo leve da época. O peso ficava em torno de 900 a 1.000 kg, o que, aliado à suspensão de eixo rígido com molas semi-elípticas e freios mecânicos eficazes, oferecia um equilíbrio admirável entre conforto e dirigibilidade.
O que tornava o ‘Beetleback’ especial era sua carroceria distinta: um two-seater sports (ou ocasionalmente 2/2 com dickey seat) com a característica traseira inclinada e arredondada, que lembrava o dorso de um escaravelho - daí o apelido carinhoso ‘Beetleback’. Muitos exemplares eram construídos por encarroçadores tradicionais como Carbodies ou Cross & Ellis, ou personalizados como ‘Specials’ por oficinas independentes, utilizando estrutura de madeira recoberta por painéis de alumínio. O resultado era um visual limpo, esportivo e quase minimalista: para-lamas proeminentes, capota de lona simples e linhas que enfatizavam a funcionalidade e a elegância britânica discreta.
Produzida em número limitado - cerca de 642 unidades da série TJ entre 1931 e 1932 -, a última leva do 12/50 representava o auge da era ‘post-vintage’ britânica. Não era um carro de luxo ostensivo como os grandes Bentleys ou Rolls-Royce, mas um veículo honesto, confiável e divertido, ideal para longas viagens pelo interior da Inglaterra, para rallys amadores ou simplesmente para desfrutar de um domingo ensolarado nas estradas de Cotswolds.
Imagine a cena em 1931: um gentleman britânico, com cachecol ao vento e óculos de pilotagem, acelerando o Alvis pelas curvas suaves de Warwickshire ou pela Great North Road. O ronco característico do motor de 1.6 litros ecoando entre as sebes, o vento entrando pela cabine aberta, e aquela sensação única de conexão mecânica - um carro que não era o mais rápido do mundo, mas oferecia prazer puro e equilíbrio perfeito ao volante.
Hoje, os raros Alvis 12/50 TJ ‘Beetleback’ Special são tesouros altamente valorizados pelos membros do Alvis Register e do Vintage Sports-Car Club. Muitos ainda participam de eventos clássicos, provando que, quase um século depois, continuam a entregar a mesma confiabilidade e alegria que encantavam os entusiastas da década de 1930.