O FANTASMA DAS PISTAS DE INDIANAPOLIS: A TRÁGICA E MISTERIOSA HISTÓRIA DO MARMON BIG SIX ‘INDIANAPOLIS’ SINGLE SEATER DE 1924
Em 1924, enquanto o rugido dos motores ecoava nas retas da Indianapolis Motor Speedway, a Marmon Motor Car Company de Indianapolis, Indiana, tentava reacender sua glória nas corridas com uma máquina experimental que misturava inovação e ousadia: o Marmon Big Six ‘Indianapolis’ Single Seater. Baseado no chassi do lendário Model 34 - um roadster de 6 cilindros que havia definido a era de ouro da marca desde 1916 -, esse monoposto racing foi projetado para desafiar os limites da velocidade em eventos de hill climb e corridas de longa distância. No entanto, sua história, marcada por uma tragédia fatal e controvérsias sobre sua autenticidade, transformou-o em um dos enigmas mais intrigantes do automobilismo vintage, um one-off que sobreviveu como relíquia questionada em coleções privadas e leilões internacionais.
A Marmon, fundada em 1902 pelos irmãos Howard e Walter Marmon como uma divisão automotiva da Nordyke & Marmon Company - uma potência em maquinário para moinhos de farinha -, já era sinônimo de pioneirismo. Seu legado nas pistas remontava à vitória na primeira Indianapolis 500 de 1911 com o Marmon Wasp, pilotado por Ray Harroun, que introduziu o primeiro espelho retrovisor da história para compensar a ausência de um mecânico co-piloto. O Model 34, lançado em 1916, evoluiu essa herança com um motor inline-six overhead-valve de 5.579 cm³, majoritariamente em alumínio para reduzir o peso, entregando cerca de 84 cv e velocidades acima de 140 km/h. Produzido até 1924 em versões como o 34B Speedster, garantido para 137 km/h, o modelo era um ícone de luxo acessível, usado até por contrabandistas durante a Lei Seca graças à sua confiabilidade e agilidade.
Foi nesse contexto de transição - com novos modelos como o 74 e 75 substituindo o 34 em 1924, e a empresa enfrentando dificuldades financeiras que culminariam em reorganização em 1926 - que o Big Six ‘Indianapolis’ surgiu. O projeto, possivelmente encomendado como protótipo de testes para o novo sistema de freios desenvolvido por Howard Marmon, adaptou um chassi do roadster Model 34 em um single-seater radical. Seu motor straight-six de grande capacidade (estimado em mais de 6.0 litros, o maior já produzido pela Marmon) apresentava bloco de alumínio, válvulas overhead e um layout diferenciado do 34 padrão, com carburador updraft Stromberg e transmissão manual de 3 velocidades. A carroceria leve, com suspensão semi-elíptica de folhas e freios mecânicos em duas rodas, visava otimizar a aerodinâmica para as pistas de Indianapolis, ecoando o monoposto do Wasp. Projetado para competições como a Indy 500 ou trials de velocidade, o carro incorporava o ethos da Marmon: leveza (cerca de 1.200 kg) e performance bruta, capaz de ultrapassar 160 km/h em retas.
A tragédia, porém, eclipsou qualquer potencial de glória. Em 11 de outubro de 1924, Franklin Hall Marmon - sobrinho de Howard e chefe de engenharia de testes da companhia - pilotava o protótipo em uma estrada próxima a Indianapolis quando perdeu o controle em cascalho solto. O roadster capotou violentamente, matando Franklin instantaneamente aos 28 anos. O acidente, atribuído ao novo sistema de freios ainda em fase experimental, chocou a comunidade automotiva. O veículo retorcido foi rebocado de volta à fábrica em West Morris Street, mas seu destino posterior permanece envolto em mistério: relatos sugerem que foi desmontado, com o motor único preservado para estudos, enquanto o chassi foi convertido em um single-seater racer por volta de 1928-1929, possivelmente para competições menores.
Décadas depois, fragmentos dessa lenda ressurgiram. Nos anos 1980, um monoposto alegando ser o descendente direto do protótipo fatal apareceu em eventos como o Marmon Muster de 1981, supostamente ganhando um prêmio de ‘Restored Vintage Racer’. Adquirido em 1991 por Brian Nelson Jones, o carro - com chassi único e motor straight-six de alumínio - foi apresentado no Mighty Marmon Muster de 1993 no Indianapolis Speedway Hotel, onde historiadores confirmaram ser “o maior Marmon-6 já produzido”. No entanto, controvérsias explodiram: Chic Kleptz, do Marmon Owners’ Club, inspecionou o veículo e declarou não encontrar marcas identificáveis como Marmon, sugerindo que poderia ser uma recriação ou fusão de partes. Uma segunda versão nos EUA reivindica a mesma linhagem, alimentando debates em fóruns de colecionadores.
Vendido por 40.650 dólares em 1995 para o colecionador holandês Dick van Dijk, o single-seater integrou sua coleção privada, recebendo restaurações mecânicas por Rod Jolley, incluindo substituição de braços de direção danificados por colisões antigas. Em 1999, passou em um teste MOT britânico e rodou brevemente em estradas rurais, atraindo escolta policial por sua aparência exótica. Leiloado pela H&H Classics em múltiplas ocasiões, o carro - com rodas de arame, faróis proeminentes e uma silhueta afilada que evoca os monopostos dos anos 1920 - atrai olhares de puristas, mas exige licença para uso.
Quase um século após sua criação fatídica, o Marmon Big Six ‘Indianapolis’ Single Seater de 1924 transcende sua controvérsia para simbolizar o risco inerente à inovação automotiva. Em uma era de Depressão e falências que abateu a Marmon em 1933, ele lembra a ousadia de um fabricante que priorizava velocidade sobre segurança, deixando um legado questionado, mas inegavelmente cativante. Para os aficionados por vintage racers, não é apenas um carro - é o eco de um grito interrompido nas curvas de uma pista lendária.