O ÍCONE BRITÂNICO-ITALIANO: A HISTÓRIA DO ASTON MARTIN DB4 GT BERTONE JET DE 1961
No alvorecer dos anos 1960, quando o mundo automotivo britânico buscava elegância e performance para rivalizar com os italianos, um chassi de Aston Martin cruzou os Alpes para ser transformado em uma obra de arte aerodinâmica: o DB4 GT Bertone Jet de 1961. Este coupé notchback único, com linhas afiladas e traços aerodinâmicos inspirados na era espacial, representou o auge da colaboração entre a refinada Aston Martin e a ousada Carrozzeria Bertone. Projetado pelo jovem prodígio Giorgetto Giugiaro, com apenas 23 anos, o ‘Jet’ não era um mero conceito, mas um Gran Turismo de dois lugares que capturava a essência de velocidade e sofisticação. Vendido em leilão por 3.249.500 libras esterlinas em 2013 - um recorde para a marca na época -, este one-off continua a ser o sonho de colecionadores, exibido em concours como Pebble Beach e Villa d’Este, onde conquistou prêmios como Best in Show.
A história do DB4 GT Jet remonta ao lançamento do DB4 GT em setembro de 1959, uma versão leve e potente do DB4 original, projetado pela Carrozzeria Touring de Milão. Com apenas 75 unidades produzidas até 1963 - mais 19 Zagatos exclusivos -, o GT era um dual-purpose: capaz de devorar circuitos como Silverstone, onde Stirling Moss o levou à vitória em sua estreia, e estradas europeias com igual graça. Seu motor de 6 cilindros em linha e 3.7 litros, projetado por Tadek Marek, entregava 302 cv a 6.000 rpm, com aceleração de 0 a 100 km/h em 6.1 segundos e velocidade máxima acima de 240 km/h. Mas para um cliente especial, a Aston Martin reservou o chassi final, o DB4GT/0201/L, enviado para Turin logo antes do Natal de 1960, onde Bertone o transformaria em um coupé de traços visionários.
O Gênio Giugiaro: Da Fábrica à Passarela de Genebra
A parceria Aston-Bertone não era nova: nos anos 1950, o americano Stanley ‘Wacky’ Arnolt havia encomendado uma série limitada de DB2/4 com carrocerias Bertone, incluindo spiders e um coupé único. Mas o Jet elevou isso a outro nível. Diferente dos trabalhos anteriores de Franco Scaglione para a Bertone, este foi obra de Giorgetto Giugiaro, recém-contratado e prestes a revolucionar o design automotivo com futuros ícones como o Alfa Romeo 105 e o BMW M1. Trabalhando sob pressão - o carro foi concluído em poucas semanas -, Giugiaro criou um corpo predominantemente em aço (com soleiras e aventais em alumínio), tornando-o ligeiramente mais pesado que o DB4 GT padrão, mas com aerodinâmica superior: linhas fluidas, faróis integrados e um teto fastback que evocava jatos supersônicos, daí o apelido ‘Jet’.
Apresentado no Salão de Genebra de 1961, o carro foi pintado em verde-claro com interior cinza contrastante, atraindo olhares apesar da concorrência feroz - inclusive a estreia do Jaguar E-Type, que ofuscou muitos. O interior era puro luxo Aston: painel body-colored com vinil preto e knee roll, bancos em couro Connolly e acabamentos minimalistas, priorizando conforto para dois em longas jornadas. Mecanicamente fiel ao GT, mantinha a transmissão manual de 5 velocidades, freios a disco Girling e suspensão independente, mas com um foco em usabilidade rodoviária. Após Genebra, seguiu para o Salão de Turin, consolidando sua fama como “o Aston Martin mais italiano”.
Desafios e Restaurações: Uma Vida de Altos e Baixos
O destino inicial do Jet foi turbulento. Vendido para um colecionador privado, sofreu um incêndio no motor nos anos 1980, deixando-o em estado precário na Suíça. Foi Victor Gauntlett, chairman da Aston Martin na época, quem o redescobriu em condições ruins e o enviou de volta ao Reino Unido para uma restauração completa pela GTC Engineering, supervisionada por Kingsley Riding-Felce. Adquirido por Hans-Peter Weidmann durante o processo, o carro renasceu em 1988, pronto para brilhar em eventos.
A década de 1990 marcou seu ressurgimento: vitórias em classes no Pebble Beach Concours d’Elegance de 1989 (1º em Italian Coachwork) e no Hurlingham Club de 1991, além de Best in Show no Villa d’Este de 2001 e Dusseldorf no mesmo ano. Participou de paradas em Le Mans (1995), Silverstone (1998 e 2008) e Goodwood, sempre como emblema de elegância aerodinâmica. Sua carroceria em aço, única entre os DB4 GTs, conferia durabilidade, mas demandava cuidados meticulosos para preservar as linhas afiladas que Giugiaro esboçou.
Legado Eterno: Influenciando Gerações e o Centenário
O Jet não foi esquecido pela Aston Martin. Em 2013, durante as celebrações do centenário da marca em Kensington Palace, reuniu-se pela primeira vez com o Jet 2 (baseado no V12 Vanquish de 2004) e o Jet 2 Plus 2 (baseado no Rapide de 2013), formando um trio Bertone histórico. Vendido no leilão Bonhams ‘The Aston Martin Works Sale’ em maio de 2013 por 3.249.500 libras esterlinas (cerca de US$ 4.9 milhões de dólares), superou expectativas e estabeleceu um marco para one-offs. Hoje, de propriedade privada, continua a colecionar troféus: 1º em classe no Pebble Beach de 2005 e 2007, e Best in Show no RAID de Basel em 2001.
O Aston Martin DB4 GT Bertone Jet de 1961 transcende sua singularidade; é um testemunho da fusão entre a herança britânica de performance e o design italiano visionário. Projetado por um gênio em ascensão, ele influenciou conceitos posteriores e lembra que, na era dos elétricos, a verdadeira magia vem de linhas que cortam o ar como um jato. Para entusiastas, o Jet não é apenas um carro - é uma ponte atemporal entre passado e futuro, pronto para voar em qualquer concours.