O ÍCONE DAS CORRIDAS ITALIANAS: A HISTÓRIA DO ABARTH 750 GT DOUBLE BUBBLE
Em uma era em que os motores rugiam nas estradas italianas e a inovação automotiva era sinônimo de velocidade e elegância, o Abarth 750 GT Double Bubble emergiu como um verdadeiro ‘matador de gigantes’. Baseado no humilde FIAT 600, este coupé leve e aerodinâmico, encarroçado pela lendária Zagato, se tornou um símbolo da engenhosidade de Carlo Abarth, o ‘escorpião’ da indústria automotiva. Apelidado de ‘Double Bubble’ por suas duas protuberâncias no teto - projetadas para acomodar capacetes e melhorar a aerodinâmica -, o modelo não era apenas um carro de corrida, mas uma máquina acessível para entusiastas que sonhavam em competir com os gigantes europeus. Produzido em edições limitadas, com cerca de 500 unidades no total, o 750 GT continua a fascinar colecionadores, alcançando valores de leilão que superam os 200.000 dólares em eventos como os da RM Sotheby’s.
A história do Abarth 750 GT remonta aos anos 1950, uma década de efervescência no automobilismo italiano pós-guerra. Carlo Abarth, um engenheiro austríaco nascido em 1908 que se mudou para a Itália em 1938, fundou sua empresa em Turin em 1949, após uma passagem pela Cisitalia. Especializado em tunar motores FIAT - graças a um acordo lucrativo com a montadora, que pagava bônus por vitórias em corridas -, Abarth visava o nicho de veículos de baixa cilindrada para competições Gran Turismo. O FIAT 600, lançado em 1955 como um carro popular acessível, serviu de base perfeita: sua plataforma simples permitia modificações radicais, transformando-o em um esportivo de 750 cc.
O Nascimento do Double Bubble: Da Ideia à Pista (1956-1958)
O conceito do 750 GT foi apresentado oficialmente em março de 1956 no Salão de Genebra, resultado de uma parceria estratégica entre Abarth e a Carrozzeria Zagato, de Milão - atelier fundado em 1919 e famoso por suas carrocerias de alumínio leves e aerodinâmicas. Elio Zagato, filho do fundador Ugo, colaborou diretamente com Abarth para transformar o FIAT 600 em um coupé de duas portas, com chassi tubular de aço e peso reduzido para apenas 535 kg. O design icônico incluía faróis cobertos, para-choques duplos e, claro, o teto ‘double bubble’: duas bolhas que não só aliviavam o espaço para os ocupantes, mas também otimizavam o fluxo de ar sobre o motor traseiro.
Mecanicamente, o carro era equipado com um motor de 747 cc inline-four, derivado do FIAT 600, mas tunado por Abarth para produzir cerca de 43-47 cv a 7.000 rpm, dependendo da versão (Grand Touring ou Sprint). Com carburador duplo Weber, transmissão manual de 4 velocidades e freios a disco dianteiros (em versões raras com três pistões), o 750 GT atingia 150-160 km/h de velocidade máxima - impressionante para um motor de 750 cc. A estreia em corridas veio logo em 1956, com um segundo lugar na classe de 750 cc na Mille Miglia, a lendária prova italiana de endurance.
O ano de 1957 marcou o auge inicial: cinco unidades completaram a Mille Miglia, com Alfonso Thiele garantindo a vitória na classe GT de 750 cc. Esse sucesso não foi isolado; o carro varreu classes em eventos europeus, graças à sua agilidade e leveza, permitindo que ‘weekend racers’ - pilotos amadores - competissem de igual para igual com máquinas mais potentes. Abarth incentivava isso, produzindo kits de upgrade e acessórios como escapamentos esportivos, maximizando as premiações da FIAT por pódios.
A Evolução para 1959: Série III e Legado nas Pistas
Em 1958, com a reorganização das categorias de Gran Turismo pela FIA, Abarth introduziu refinamentos, culminando na Série III em finais de 1958 e produção principal em 1959. Apresentado no Salão de Turin de 1959, este modelo final incorporava um motor de 698 cc em algumas versões (para se adequar às novas regras), com opção de twin-cam (bialbero) produzindo 57-64 cv. A carroceria Zagato evoluiu ligeiramente, mantendo o double bubble, mas com opções como o modelo ‘Sestriere’ - uma versão mais ‘civilizada’ sem bolhas no teto, em aço, para uso rodoviário. No entanto, a maioria dos sobreviventes é da Série III, com cerca de 150-200 unidades estimadas, muitas exportadas para os EUA via importadores como Jim ‘JP’ Parkinson e a equipe de Franklin D. Roosevelt Jr., que dominou corridas americanas nos anos 1950 e 1960.
O sucesso em 1959 foi estrondoso: vitórias na classe na Mille Miglia de 1959, além de triunfos em Sebring, Daytona e até uma participação em Le Mans em 1960 (embora limitada a 31 voltas). Nos EUA, o time Roosevelt, com motores bialbero de até 982 cc em algumas versões, conquistou mais de 700 vitórias mundiais para Abarth. O carro era versátil: “dirija até a pista, corra e volte para casa”, como descreviam os contemporâneos, com preço inicial de cerca de 1.535.000 liras italianas (equivalente a 2.500 dólares na época), acessível para a elite entusiasta.
Herança e Legado: Um Clássico Eterno
A produção do 750 GT cessou por volta de 1960, com Abarth migrando para modelos maiores como o 850 e 1000, mas o Double Bubble deixou um legado indelével. Poucos sobreviveram intactos devido ao uso intenso em corridas, mas restaurações modernas, como as realizadas por especialistas em Turin ou pela Middle Barton Garage no Reino Unido, mantêm sua essência. Hoje, exemplares originais, como o chassi 696265 (entregue na Califórnia em 1959 e parte da Stolze Collection), são exibidos em eventos como o Pebble Beach Concours d’Elegance ou o Goodwood Festival of Speed, com valores de mercado entre 100.000 e 200.000 dólares.
O Abarth 750 GT Double Bubble de 1959 não foi apenas um carro; foi a encarnação do espírito italiano de inovação sob pressão. Carlo Abarth, que vendeu sua empresa para a FIAT em 1971, via nele a prova de que tamanho não importa - apenas a picada do escorpião. Em um mundo dominado por elétricos, este clássico continua a inspirar, lembrando que a verdadeira emoção vem do ronco de um motor tunado nas curvas de uma Mille Miglia.