O REI DAS PEQUENAS CORRIDAS: A HISTÓRIA DO BUGATTI TYPE 37 SPEEDSTER DE 1926
Nos rugidos das pistas europeias dos anos 1920, quando o automobilismo era um balé mortal entre engenharia e ousadia, o Bugatti Type 37 Speedster de 1926 surgiu como o ‘pequeno gigante’ da casa de Molsheim. Introduzido em novembro de 1925 para atender à nova fórmula de 1.5 litros da Commission Sportive Internationale (CSI), este roadster de duas portas - uma variação leve e aberta do chassi de corrida do Type 35 - combinava a herança de Ettore Bugatti com acessibilidade para pilotos privados. Produzido em cerca de 300 unidades até 1930 (incluindo 67 supercharged Type 37A), o Type 37 conquistou mais de 100 vitórias em corridas de voiturette, rallys e eventos de estrada, como a Targa Florio e a Mille Miglia. Hoje, exemplares restaurados, como o chassi 37227 vendido por 258.750 euros em leilões recentes, simbolizam a era dourada das corridas pré-guerra, com valores que podem ultrapassar 1 milhão de dólares em eventos como o Pebble Beach Concours d’Elegance.
A lenda do Type 37 remonta ao sucesso avassalador do Type 35, o carro que revolucionou o Grand Prix em 1924 com seu motor de 8 cilindros e rodas de liga de alumínio - um ícone que acumularia mais de 1.000 vitórias até os anos 1930. Ettore Bugatti, o visionário ítalo-francês fundador da Automobiles Ettore Bugatti em 1909, enfrentava uma encruzilhada no final de 1925: a CSI impusera um limite de 1.5 litros para frear os monstros de 2.0 litros, forçando adaptações. Inspirado no Type 13 Brescia de 1910 - que já havia provado a durabilidade de motores de 4 cilindros -, Bugatti criou o Type 37 como uma ‘versão light’ do Type 35: o mesmo chassi curto e rígido de 2.360 mm, mas com um motor mais modesto para corridas de baixa cilindrada e uso rodoviário. “Era um carro para o esportista comum”, escreveu Richard Twelvetrees na Motor Sport de 1926, “um Grand Prix de produção nas mãos do público”.
O Nascimento nas Pistas: Engenharia e Estreia Triunfal
O Type 37 foi apresentado no Salão de Paris de 1925, mas sua verdadeira estreia veio em 1926, com três protótipos saindo da fábrica em outubro de 1925. O motor era o coração da inovação: um straight-four de 1.496 cc (69 mm x 100 mm), com bloco e cabeçote de ferro fundido em uma peça única, acionado por um único eixo comando de válvulas, operando três válvulas por cilindro (duas de admissão e uma de escape). Sem supercharger inicial, produzia 40-60 cv a 5.500 rpm, acoplado a uma transmissão manual de 4 velocidades e tração traseira. O segredo? Leveza e equilíbrio: com apenas 750 kg, suspensão de folhas invertidas quarter-elliptic na traseira, freios a tambor e direção precisa, atingia 150-160 km/h - impressionante para um motor de 1.5 litros.
A carroceria Speedster, uma opção aberta e minimalista com para-lamas de ciclo e bancos de corrida, era ideal para pistas, mas versátil para rallys. Diferente do Type 35 com rodas de raios de alumínio, o 37 usava rodas de arame para durabilidade em estradas irregulares. Ettore, avesso a superalimentação, resistiu inicialmente, mas a versão Type 37A de 1927 adicionou um supercharger Roots encurtado, elevando a potência para 80-90 cv e vitórias como o GP da Itália de 1928 com Louis Chiron. Em 1926, o modelo já brilhava: vitórias na classe na Targa Florio e no GP de Roma, provando que finesse e design leve superavam força bruta.
Corridas e Legado: De Molsheim às Mãos Privadas
O Type 37 não era só para profissionais; Ettore o vendia como ‘carro esportivo’, com preço inicial de 46.400 francos franceses (cerca de 2.000 dólares na época), atraindo clientes privados como o Conde Stanislaw Czaykowski, que comprou o chassis 37227 em 1929 e o levou a um terceiro lugar no GP de Pau de 1927, na França. Exemplares como o 37140, um dos três comprados por Malcolm Campbell em 1926, rodavam em circuitos britânicos e eventos como Le Mans. A produção totalizou 290 unidades até 1930, com participações em mais de 200 corridas, incluindo a Mille Miglia e o GP da Austrália de 1930, vencido por Bill Thompson.
Após 1930, com o foco da Bugatti migrando para o Type 35C supercharged, muitos Type 37 foram adaptados para estrada ou esquecidos na guerra. Um exemplo notável, o chassi 37317 (Type 37A de 1927), foi comprado pelo Barão Philippe de Rothschild em 1928 e usado em competições sob o pseudônimo ‘George Philippe’, passando por mãos como as do agente Dominique Lamberjack nos anos 1940.
Herança Eterna: Restaurações e o Apelo Moderno
Nos anos pós-guerra, o Type 37 renasceu graças a entusiastas como Peter Larkin, descendente de Paul Revere, que dirigiu seu exemplar até os 90 anos e o exibiu no Smithsonian. Restaurações, como a do chassi 37227 documentada pelo historiador Pierre-Yves Laugier, revelam fotos de época e participações em rallys internacionais, incluindo o Bugatti Gathering no Japão. Hoje, com chassis matching-numbers raros, o Type 37 é elegível para eventos como o Goodwood Revival, onde sua simplicidade encanta uma nova geração.
O Bugatti Type 37 Speedster de 1926 não foi apenas um carro; foi a essência do espírito Bugatti - inovação acessível que democratizou as corridas. Em uma era de hipercarros elétricos, ele sussurra lições de equilíbrio e paixão, provando que os verdadeiros ícones nascem nas curvas de uma Targa Florio, não em laboratórios. Para colecionadores, permanece como o escorpião elegante de Ettore: letal, mas irresistivelmente charmoso.