O RETORNO DO MESTRE: O GORDON MURRAY T.50, A BRITÂNICA RESSURREIÇÃO DA PUREZA AUTOMOTIVA
Depois de criar o McLaren F1 nos anos 1990, o carro que por muitos ainda é considerado o ápice do automóvel analógico, Gordon Murray passou décadas observando o mundo dos supercarros se tornar cada vez mais pesado, eletrificado e digitalizado. Até que, enfim, retornou para corrigir o curso. Assim nasceu o Gordon Murray T.50, e hoje nos aproximamos de um exemplar de 2025, também prestes a subir ao palco do leilão da RM Sotheby’s em Abu Dhabi, no próximo 5 de dezembro.
Se o McLaren F1 foi seu manifesto original, o T.50 é a sua carta de resposta ao século XXI. Cada fibra, cada grama, cada parafuso deste carro carrega o DNA de um engenheiro obcecado em fazer algo não apenas rápido - mas puro. E a pureza aqui se revela primeiro na filosofia central: leveza acima de tudo. Enquanto o mundo corre atrás de números cada vez mais obscenos, Murray voltou às raízes e entregou um supercarro que pesa menos que muitos compactos modernos: apenas 986 kg.
A silhueta do T.50 é fluida, limpa, quase tímida perto da extravagância aerodinâmica dos hipercarros atuais. Mas há um detalhe que a trai: um ventilador traseiro de 400 mm, uma assinatura tecnológica herdada diretamente da Fórmula 1 dos anos 1970, que controla o fluxo de ar como se manipulasse o próprio vento. Esse sistema permite modos aerodinâmicos distintos, capaz de aumentar o downforce, reduzir o arrasto ou amplificar a eficiência - tudo ao toque de um botão.
Mas é no coração mecânico que o T.50 mais se aproxima do espírito do McLaren F1. O motor, desenvolvido pela Cosworth, é um V12 de 3.9 litros, naturalmente aspirado, que atinge 12.100 rpm - uma cifra que mais parece pertencer a uma moto de corrida. São 663 cv que não chegam por meio de turbos, compressores ou baterias; chegam puros, cristalinos, guiados por uma transmissão manual de 6 velocidades da Xtrac. Um carro moderno com caixa manual - quase uma provocação.
O exemplar que vai a leilão permanece ainda mais especial: praticamente novo, com apenas 16 km rodados. Um carro que nasceu para ser guiado com fúria, mas que até agora viveu como uma joia guardada. Terminado em Harrier Grey, com rodas forjadas prateadas, ele passa quase anônimo à primeira vista - até que o olhar atento percebe que a porta do condutor fica no centro, como no F1. O cockpit triplo, com o condutor ao centro, devolve ao condutor aquela sensação de controle absoluto, uma posição que faz o mundo parecer girar ao seu redor.
No leilão de Abu Dhabi, espera-se que o T.50 ultrapasse com facilidade a casa dos 4 milhões de dólares - e, para muitos colecionadores, vale cada centavo. Porque mais do que um carro, ele representa uma declaração: a de que ainda é possível criar um supercarro sem recorrer à artificialidade, sem perder a essência, sem abrir mão da mecânica pura.