O VIAJANTE INDOMÁVEL: A HISTÓRIA DO AMERICAN UNDERSLUNG TOURIST 1913
Em 1913, enquanto a América se equilibrava entre a nostalgia da era do latão e a promessa de modernidade industrial, a American Motor Car Company, já rebatizada como American Underslung, apresentou um de seus últimos e mais elegantes feitos: o American Underslung Tourist. Este touring car, com seu chassi revolucionário ‘underslung’ - invertido para um centro de gravidade baixo -, não era apenas um veículo; era um convite à aventura, projetado para a elite que buscava combinar luxo, performance e a emoção de explorar estradas abertas. Em seu último ano de produção, o Tourist de 1913 simbolizou o canto do cisne de uma montadora pioneira, cuja ousadia deixou marcas profundas na história automotiva.
Fundada em 1906 em Indianápolis, a American Motor Car Company ganhou notoriedade com o conceito underslung, idealizado pelo engenheiro Fred L. Tone. Ao posicionar o chassi abaixo dos eixos, com molas semi-elípticas montadas acima, a empresa criou veículos de estabilidade excepcional, com uma silhueta esportiva que parecia flutuar sobre as rodas. O Tourist, introduzido em 1908 e refinado até 1913, era o carro-chefe da linha, projetado para viagens longas com até seis passageiros. Em 1913, oferecido como um touring car de quatro ou cinco lugares, ele representava o ápice do design da marca, com um preço inicial de cerca de 2.250 dólares - caro, mas competitivo frente a rivais como Packard ou Pierce-Arrow, embora ainda ofuscado pelo acessível Ford Model T.
O Tourist de 1913 ostentava um chassi de 2.845 mm de entre-eixos, mais longo que o compacto Scout, garantindo espaço e conforto. Sob o capô, um motor T-head de 4 cilindros e 6.4 litros entregava até 50 cv, uma evolução do motor de 7.8 litros dos anos anteriores, ajustado para maior eficiência com lubrificação pressurizada e carburador de dois barris. Acoplado a uma transmissão manual de 3 velocidades, o Tourist alcançava velocidades de até 100 km/h, impressionante para estradas de terra e cascalho da época. A suspensão, com molas longitudinais de 1.016 mm, e freios mecânicos traseiros priorizavam durabilidade, enquanto rodas de 38 polegadas com pneus de faixa branca enfrentavam terrenos irregulares com bravura.
A carroceria, construída em alumínio sobre uma estrutura de madeira, exibia o estilo Art Déco característico da American, com para-lamas curvos, faróis de acetileno montados em latão e um radiador arredondado adornado por um emblema estilizado. O interior, com estofados em couro preto ou opcionalmente em tecido broadcloth, acomodava passageiros com conforto, enquanto detalhes como faróis Gray & Davis e um velocímetro Stewart adicionavam sofisticação. Cores como azul, verde escuro ou vermelho profundo, frequentemente com detalhes em preto brilhante, destacavam sua elegância robusta. O design aberto, com capota de lona dobrável, convidava ao romantismo das viagens ao ar livre, perfeito para a elite rural ou urbana em busca de escapadas cênicas.
Lançado em um momento crítico, o Tourist enfrentou um mercado hostil. A American Underslung, apesar de sua genialidade, lutava contra custos altos de produção artesanal e a concorrência esmagadora do Model T, que custava menos de 500 dólares. Em 1913, a empresa produziu apenas algumas centenas de veículos, com o Tourist representando uma fração desse total - estimativas sugerem menos de 100 unidades, tornando-o uma raridade instantânea. A falência, declarada em novembro de 1913, encerrou a produção, mas não o impacto do carro. Um exemplar icônico, um Tourist de cinco lugares de 1913, foi resgatado na década de 1980 de um celeiro em Ohio. Restaurado com pintura preta brilhante e interior em couro vermelho, ele conquistou prêmios no Amelia Island Concours de 2010 e foi leiloado pela Bonhams em 2019 por 120.000 dólares, refletindo seu valor como uma das últimas criações da marca.
O Tourist de 1913 brilhou brevemente em eventos promocionais, como rallys regionais em Indianápolis, mas nunca alcançou o sucesso comercial. Corridas, como a Vanderbilt Cup, expuseram suas limitações: o peso do chassi longo e a potência modesta o deixavam atrás de competidores mais ágeis. Ainda assim, seu design influenciou futuros esportivos, e a visão de Fred Tone ecoou em carros como o Stutz Bearcat, criado pelo fundador original da American, Harry Stutz.
Hoje, com menos de uma dúzia de Tourists sobreviventes, o modelo é um tesouro para colecionadores. Em eventos como o Pebble Beach Concours d’Elegance, sua silhueta baixa e detalhes em latão evocam a era do pioneirismo automotivo, quando cada viagem era uma aventura. O American Underslung Tourist de 1913 não venceu o mercado, mas conquistou a história, provando que um chassi invertido e um espírito viajante podiam transformar estradas em lendas - um legado que, como o próprio carro, permanece gloriosamente baixo e eternamente memorável.