ROLLS-ROYCE TWENTY KELLNER COUPÉ DE VILLE (1924): A ELEGÂNCIA BRITÂNICA ENCONTRA A ALTA-COSTURA FRANCESA
Na Europa dos anos 1920, o automóvel de luxo atravessava uma fase de extraordinária criatividade. Enquanto os fabricantes aperfeiçoavam motores, transmissões e chassis, os grandes encarroçadores transformavam essas plataformas mecânicas em verdadeiras obras de arte, moldadas segundo os desejos de uma clientela exigente. Na Inglaterra, a Rolls-Royce continuava sendo uma referência de refinamento e confiabilidade; na França, empresas especializadas como a Kellner cultivavam uma tradição artesanal marcada pela sofisticação e pela elegância. O encontro dessas duas escolas está representado pelo Rolls-Royce Twenty Kellner Coupé de Ville de 1924, um automóvel que combinava engenharia britânica com carroceria de inspiração francesa.
A base mecânica era o Rolls-Royce Twenty, apresentado em outubro de 1922 como uma alternativa mais compacta ao imponente Silver Ghost. Concebido por Henry Royce para atender também aos proprietários que preferiam dirigir seus próprios automóveis, o Twenty inaugurou uma nova etapa na história da marca. Seu tamanho mais contido, o menor peso e os comandos mais leves facilitavam a utilização cotidiana, sem abrir mão dos padrões de qualidade pelos quais a Rolls-Royce era reconhecida. Não se tratava de um Rolls-Royce popular no sentido convencional, mas de um automóvel de luxo pensado para uma nova geração de proprietários.
O grande diferencial desse exemplar estava na carroceria Coupé de Ville, uma configuração que preservava a antiga separação entre o motorista e os passageiros. Na dianteira, o posto de condução podia permanecer aberto, enquanto a cabine traseira oferecia um ambiente fechado, com estofamentos luxuosos, acabamentos cuidadosamente trabalhados e atenção especial ao conforto dos ocupantes. A disposição evocava os elegantes veículos de tração animal que, décadas antes, transportavam a aristocracia pelas ruas das grandes capitais europeias.
A Kellner, estabelecida em Paris, era conhecida por suas carrocerias de luxo aplicadas a chassis de fabricantes como Rolls-Royce, Bentley, Bugatti e Hispano-Suiza. Seu trabalho combinava proporções formais, superfícies cuidadosamente esculpidas e interiores elaborados artesanalmente. Cada carroceria era uma criação individual, e não simplesmente uma opção de catálogo produzida em série, o que tornava esses automóveis objetos de distinção em uma época de crescente concorrência entre as grandes marcas.
Um exemplar particularmente relevante é o Rolls-Royce Twenty de chassi GRK3 que aparece nas imagens, cuja carroceria Coupé de Ville foi construída pela Kellner em Paris, sob o número de carroceria 16649. Segundo os registros históricos citados pela casa de leilões Car & Classic, o veículo foi destinado ao departamento de exportação da Rolls-Royce, enviado ao encarroçador francês e concluído em 1924. Sua história documentada ilustra como a marca britânica fornecia chassis para receber carrocerias de especialistas internacionais, ampliando as possibilidades de personalização de seus automóveis.
Sob o capô encontrava-se um motor de 6 cilindros em linha, com 3.127 cm³ e válvulas no cabeçote, projetado para oferecer funcionamento suave, silencioso e progressivo. Era uma arquitetura moderna para os padrões da marca naquele período: o bloco reunia os cilindros em uma única estrutura, enquanto o cabeçote removível facilitava os trabalhos de manutenção. A alimentação era feita por carburador, e a força chegava às rodas traseiras por meio de uma transmissão manual de 3 velocidades nas primeiras unidades.
O chassi possuía eixos rígidos e suspensão por feixes de molas semielípticas, uma solução tradicional que privilegiava a resistência e a capacidade de suportar diferentes tipos de carroceria. A frenagem inicial atuava apenas nas rodas traseiras; em 1925, o modelo recebeu importantes aprimoramentos, incluindo freios nas quatro rodas com assistência mecânica. O sistema de direção, por sua vez, foi desenvolvido para oferecer comandos mais leves que os encontrados em modelos anteriores da fabricante.
Havia, contudo, um desafio inerente à combinação entre o Twenty e as carrocerias formais de grande porte. Henry Royce desejava que os encarroçadores mantivessem o peso reduzido, de modo a preservar a agilidade e o desempenho do automóvel. Muitos clientes, porém, continuavam preferindo carrocerias fechadas, volumosas e luxuosas, como a Coupé de Ville da Kellner. O resultado era um veículo de presença imponente, mas cujo peso e resistência aerodinâmica podiam limitar o desempenho em comparação com versões mais leves.
O Rolls-Royce Twenty permaneceu em produção até 1929, quando foi substituído pelo 20/25 HP, equipado com motor de maior cilindrada. Ao longo dessa trajetória, demonstrou que a tradição da marca podia ser preservada em um automóvel menor e mais acessível, sem comprometer a qualidade essencial de seus produtos. A versão encarroçada pela Kellner acrescentava a essa fórmula uma interpretação francesa do luxo, destinada a clientes que valorizavam tanto a excelência mecânica quanto a exclusividade estética.
Mais de um século depois, o Rolls-Royce Twenty Kellner Coupé de Ville de 1924 continua representando um dos aspectos mais fascinantes da história automobilística entre guerras: a colaboração entre fabricantes de chassis e mestres encarroçadores independentes. Em suas linhas formais e na separação entre o posto do motorista e a cabine dos passageiros, sobrevive a memória de uma época em que o automóvel de luxo ainda guardava vínculos diretos com o universo das grandes carruagens aristocráticas.



















































































