SAAB 99: INOVAÇÃO, SEGURANÇA E ALMA ESCANDINAVA
No final dos anos 1960, a pequena cidade de Trollhättan, na Suécia, era mais do que apenas um ponto no mapa. Era o coração pulsante da Svenska Aeroplan Aktiebolaget, ou simplesmente Saab, uma empresa que, apesar de suas raízes na aviação, estava deixando sua marca no mundo automotivo. Em 1969, a Saab lançou o modelo que redefiniria sua identidade e consolidaria sua reputação como fabricante de carros inovadores e excêntricos: o Saab 99.
A história do Saab 99 começa com um desafio. A Saab, conhecida por seus carros robustos e práticos como o 96, queria dar um salto. A empresa precisava de um veículo maior, mais moderno e capaz de competir no mercado internacional, sem perder a essência que tornava seus carros únicos: engenhosidade, segurança e um toque de ousadia. O projeto, batizado de ‘Gudmund’ (em homenagem ao dia de São Gudmund, quando o desenvolvimento começou), foi liderado pelo designer Sixten Sason, o mesmo gênio por trás dos primeiros modelos Saab e até do caça a jato Gripen.
Quando o Saab 99 foi revelado em 1967 e entrou em produção em 1968, com as primeiras unidades saindo da linha em 1969, ele era diferente de tudo o que o mercado havia visto. Não era apenas um carro; era uma declaração de princípios. Seu design era inconfundível: linhas angulosas, faróis retangulares e uma silhueta que parecia desafiar as convenções aerodinâmicas da época. Mas a verdadeira magia do 99 estava nos detalhes.
Debaixo do capô, o Saab 99 trouxe uma surpresa: um motor de 4 cilindros em linha, projetado pela britânica Triumph, mas fabricado pela Saab com modificações para suportar o rigoroso clima escandinavo. Com 1.7 litros e cerca de 87 cv na versão inicial, ele não era o mais potente da categoria, mas entregava desempenho confiável, especialmente nas estradas geladas da Suécia. A tração dianteira, uma raridade na época, garantia uma dirigibilidade excepcional em condições adversas, algo que os condutores nórdicos apreciavam profundamente.
O que realmente colocava o Saab 99 à frente de seu tempo, no entanto, era sua obsessão por segurança. A Saab, com sua herança aeronáutica, aplicou ao 99 conceitos que hoje são padrão, mas que na década de 1960 eram revolucionários. A carroceria contava com zonas de deformação controlada, projetadas para absorver impactos. O para-brisa laminado, colunas reforçadas e cintos de segurança de três pontos vinham de série, numa época em que muitos concorrentes tratavam esses itens como opcionais. Até o tanque de combustível foi posicionado entre os eixos traseiros para minimizar riscos em colisões.
O interior do 99 era um reflexo da filosofia Saab: funcional, mas com um charme peculiar. O painel de instrumentos, inspirado em cockpits de aviões, era claro e ergonômico. Um detalhe curioso era a chave de ignição no console central, uma escolha prática para evitar lesões nos joelhos em acidentes, mas que também se tornou uma assinatura da marca. Os bancos, projetados com a ajuda de ortopedistas, eram confortáveis para longas viagens, perfeitos para cruzar as vastas paisagens suecas.
Em 1969, o Saab 99 começou a ganhar o mundo. Ele foi bem recebido na Europa e, mais tarde, nos Estados Unidos, onde sua excentricidade e confiabilidade conquistaram uma base fiel de fãs. A introdução do motor 2.0 litros em 1971 e, mais tarde, a lendária versão Turbo em 1978, transformaram o 99 em um ícone de desempenho, provando que um carro familiar poderia ser emocionante. O 99 Turbo, em particular, colocou a Saab na vanguarda da tecnologia de turboalimentação, influenciando gerações de carros esportivos.
O Saab 99 não era perfeito. Alguns criticavam seu design ‘peculiar’ ou o ronco característico do motor Triumph-Saab. Mas essas imperfeições eram parte de seu charme. Ele era um carro para pessoas que pensavam diferente, que valorizavam inovação e não tinham medo de se destacar. Produzido até 1984, o 99 lançou as bases para o Saab 900, seu sucessor espiritual, e deixou um legado duradouro.
Hoje, o Saab 99 de 1969 é um clássico cult. Restaurado por entusiastas ou preservado em museus, ele é um lembrete de uma era em que a Saab ousava desafiar o status quo. Em Trollhättan, onde as linhas de produção do 99 ganharam vida, o carro ainda é lembrado como um símbolo de engenhosidade sueca - um veículo que não apenas transportava pessoas, mas carregava uma visão de futuro.