SPADA VETTURE SPORT: O PEQUENO FABRICANTE ITALIANO QUE TRANSFORMOU A AERODINÂMICA CLÁSSICA EM UM SUPERCARRO EXTREMO
A história da indústria automobilística italiana está repleta de pequenos fabricantes que surgiram movidos pela paixão, pela criatividade e pela obsessão por desempenho. Alguns desapareceram rapidamente; outros produziram apenas alguns poucos modelos antes de se tornarem lendas cultuadas por entusiastas. A Spada Vetture Sport, ou simplesmente SVS, pertence exatamente a esse grupo seleto.
Fundada oficialmente em 2008, a empresa nasceu da visão de Ercole Spada e de seu filho Paolo Spada. O sobrenome Spada já era respeitadíssimo no universo do design automotivo muito antes da criação da marca. Durante décadas, Ercole trabalhou em estúdios lendários como Zagato, Ford Europa, BMW e Italdesign, participando da criação de automóveis icônicos como o Alfa Romeo Giulia TZ, Alfa Romeo Giulietta SZ, Aston Martin DB4 GT Zagato e BMW Série 7 E32.
Quando decidiu criar sua própria fábrica, Ercole não buscava apenas desenvolver mais um supercarro italiano. Seu objetivo era resgatar um conceito aerodinâmico que o fascinava desde os anos 1960: a chamada ‘coda tronca’, ou ‘cauda truncada’, solução desenvolvida para melhorar a eficiência aerodinâmica dos carros de competição sem a necessidade de carrocerias excessivamente longas. Esse conceito havia sido utilizado em modelos históricos da Zagato e da Alfa Romeo, tornando-se praticamente uma assinatura de seus projetos.
Foi justamente dessa filosofia que nasceu o primeiro automóvel da marca.
Spada Codatronca TS (2008) - o Corvette italiano vestido por um mestre do design
Apresentado inicialmente como conceito em 2007 e revelado oficialmente em sua forma definitiva no Top Marques de Mônaco em 2008, o Codatronca TS tornou-se imediatamente um dos supercarros mais exóticos da década. O próprio nome do carro fazia referência direta ao formato de sua traseira abruptamente cortada, inspirada nos lendários Alfa Romeo TZ desenvolvidos por Ercole décadas antes.
Embora parecesse um projeto totalmente artesanal, o carro utilizava uma base mecânica extremamente conhecida e confiável: a do Chevrolet Corvette C6 Z06. A estrutura em alumínio foi profundamente modificada, recebendo carroceria própria em fibra de carbono e um conjunto aerodinâmico completamente novo.
O coração da máquina era o famoso V8 Chevrolet LS7 de 7.0 litros. Porém, a SVS não se contentou com a configuração original. O motor foi retrabalhado para produzir cerca de 630 cv e 668 Nm de torque, números impressionantes para a época. Graças ao baixo peso - próximo de 1.360 kg - o Codatronca TS acelerava de 0 a 100 km/h em apenas 3.4 segundos e alcançava aproximadamente 340 km/h de velocidade máxima.
O carro também possuía soluções bastante sofisticadas para um fabricante tão pequeno. Havia suspensão totalmente ajustável, freios Brembo de competição, controle de tração configurável em três níveis e até um sistema de telemetria capaz de registrar dezenas de parâmetros de condução.
O design causou enorme impacto durante sua apresentação. O New York Times chegou a apontá-lo como um dos automóveis mais impressionantes do evento de Mônaco, enquanto diversos jornalistas destacavam sua aparência ao mesmo tempo futurista e inspirada nos carros de corrida clássicos italianos.
Spada Codatronca Monza (2011) - a transformação em uma barchetta brutal
Se o TS já parecia radical, a SVS decidiu ir ainda mais longe em 2011 com a apresentação do Codatronca Monza. Inspirado pelas tradicionais barchettas italianas de competição, o novo modelo eliminava praticamente qualquer compromisso com a praticidade para focar exclusivamente na experiência de condução.
O Monza abandonava o teto e adotava um para-brisa extremamente baixo, criando uma aparência quase semelhante à de um protótipo de corrida homologado para as ruas. Seu visual era agressivo, minimalista e claramente influenciado pelos carros de endurance europeus.
A mecânica também evoluiu significativamente. O mesmo V8 LS7 de 7.0 litros recebeu dois compressores Rotrex, elevando a potência para cerca de 710 a 720 cv, dependendo da configuração. O torque aproximava-se dos 883 Nm, transformando o pequeno roadster em uma verdadeira máquina de alto desempenho.
Graças ao peso reduzido para aproximadamente 1.180 kg, o desempenho era simplesmente absurdo: aceleração de 0 a 100 km/h em menos de 3 segundos e velocidade máxima próxima dos 335 km/h.
O interior refletia claramente sua vocação para pistas. Havia ampla utilização de fibra de carbono, alumínio e Alcantara, além de sistemas de aquisição de dados em tempo real e monitoramento eletrônico de desempenho. Algumas versões podiam até gravar vídeos das sessões em circuito utilizando câmeras integradas ao veículo.
Mesmo sendo um projeto extremamente exclusivo, a SVS chegou a oferecer versões mais civilizadas para clientes que desejavam utilizar o carro em viagens. Essas configurações podiam receber acabamento em couro, sistema de climatização e equipamentos de conforto pouco comuns em um automóvel tão radical.
Um fabricante pequeno, mas profundamente influente
A produção dos modelos Spada sempre foi extremamente limitada, com números quase artesanais. Isso transformou tanto o TS quanto o Monza em raridades instantâneas, conhecidos apenas pelos entusiastas mais dedicados do universo dos supercarros.
Entretanto, a importância da Spada Vetture Sport vai muito além da quantidade de carros produzidos. A empresa representou a oportunidade de um dos maiores designers italianos da história finalmente criar um automóvel totalmente alinhado à sua própria visão estética e técnica. Em vez de perseguir apenas números de potência ou velocidade, Ercole Spada procurou demonstrar que conceitos aerodinâmicos desenvolvidos meio século antes, ainda podiam gerar automóveis extraordinariamente modernos.
Como uma curiosidade final, a expressão italiana ‘coda tronca’ significa literalmente ‘cauda truncada’. Esse conceito aerodinâmico foi estudado pelo engenheiro alemão Wunibald Kamm e aperfeiçoado por encarroçadores italianos como Zagato. O princípio consiste em interromper abruptamente a traseira do veículo para reduzir o arrasto aerodinâmico sem aumentar excessivamente o comprimento da carroceria. Décadas depois de aplicar essa solução nos Alfa Romeo TZ dos anos 1960, Ercole Spada voltou a utilizá-la nos Codatronca, transformando uma antiga ideia de competição na identidade visual de toda sua própria marca.