STUDEBAKER MODEL G TOURING (1906): O MAJESTOSO AUTOMÓVEL QUE SELOU A ENTRADA DA MARCA NA ELITE AUTOMOBILÍSTICA AMERICANA
No início do século XX, a indústria automobilística dos Estados Unidos ainda estava dando seus primeiros passos. Centenas de pequenos fabricantes surgiam e desapareciam rapidamente, enquanto os automóveis tentavam provar que poderiam substituir definitivamente as carruagens puxadas por cavalos. Poucas empresas estavam tão preparadas para essa transição quanto a Studebaker, uma companhia que já possuía enorme reputação graças à produção de carruagens, carroças e veículos de transporte desde meados do século XIX.
Foi justamente durante esse período de transformação que surgiu o impressionante Studebaker Model G Touring de 1906, um automóvel que representava o auge da linha da marca e demonstrava claramente que a empresa pretendia competir entre os fabricantes mais sofisticados da América.
Naquela época, a Studebaker ainda não produzia integralmente seus próprios automóveis. Os chassis dos modelos mais sofisticados eram desenvolvidos em parceria com a Garford Company, enquanto a Studebaker aplicava sua enorme experiência na construção das carrocerias e no acabamento dos veículos. Essa colaboração deu origem aos chamados Studebaker-Garford, considerados alguns dos automóveis mais refinados dos Estados Unidos antes da Primeira Guerra Mundial.
O Model G era o topo de linha da empresa em 1906. Seu preço podia ultrapassar 3.800 dólares - uma verdadeira fortuna para a época, equivalente ao valor de várias residências em algumas regiões dos Estados Unidos. Isso colocava o carro entre os automóveis mais caros e exclusivos disponíveis no mercado americano.
Visualmente, o veículo representava perfeitamente a chamada Brass Era, a famosa ‘Era do Latão’. O enorme radiador frontal, os faróis a acetileno, as lanternas laterais e diversos componentes mecânicos exibiam acabamento em latão polido, criando uma aparência extremamente elegante. O longo capô, os grandes para-lamas independentes e as rodas de madeira reforçavam a sensação de robustez e prestígio.
Sob o capô encontrava-se uma das mecânicas mais avançadas produzidas nos Estados Unidos naquele período. O Model G utilizava um motor de 4 cilindros em linha com algo entre 4.6 e 4.9 litros. Dependendo da fonte e do método de medição utilizado na época, a potência variava entre 30 e 36 cv. Embora os números pareçam modestos hoje, tratava-se de um desempenho impressionante em 1906.
O propulsor utilizava configuração T-head com comando duplo, uma solução bastante sofisticada para os padrões da época. Muitos historiadores consideram esse motor um dos mais avançados produzidos nos Estados Unidos durante a primeira década do século XX.
Outro detalhe extraordinário era seu sistema de escapamento. O Model G possuía um dos primeiros sistemas de escapamento duplo instalados de fábrica em um automóvel americano. Além do efeito visual impressionante, a solução ajudava a melhorar a respiração do motor e contribuía para o desempenho do veículo.
A transmissão manual de 3 velocidades enviava a potência para as rodas traseiras através de eixo cardan, uma alternativa mais moderna e limpa do que os sistemas por correntes utilizados por muitos concorrentes da época. A velocidade de cruzeiro podia atingir cerca de 65 a 70 km/h, um número bastante respeitável considerando as condições das estradas americanas em 1906.
O interior refletia o luxo característico da marca. Os bancos eram revestidos em couro, os acabamentos utilizavam madeira cuidadosamente trabalhada e os instrumentos eram instalados diretamente no painel ou sobre a coluna de direção. Como acontecia em praticamente todos os automóveis da época, o condutor permanecia exposto ao vento, à poeira e às mudanças climáticas, transformando qualquer viagem em uma verdadeira aventura.
A qualidade do Model G era tão elevada que muitos exemplares sobreviveram por décadas em coleções particulares. Alguns dos carros preservados atualmente passaram por colecionadores lendários, incluindo Bill Harrah, proprietário de uma das maiores coleções automobilísticas da história. Diversos exemplares restaurados conquistaram prêmios importantes em concursos de elegância como Amelia Island e Meadow Brook.
O Model G também simboliza um momento importante na trajetória da própria Studebaker. Ele pertence a uma fase em que a empresa ainda conciliava o mundo das carruagens com o universo dos automóveis. Poucos anos depois, o fabricante abandonaria gradualmente os veículos puxados por cavalos para dedicar-se exclusivamente à produção automobilística, tornando-se uma das marcas mais respeitadas dos Estados Unidos durante boa parte do século XX.
Muitos especialistas consideram o Studebaker Model G um dos automóveis americanos mais sofisticados de toda a Brass Era. Seu motor avançado, o raro escapamento duplo de fábrica, a construção refinada e o elevado preço faziam dele algo próximo ao equivalente americano dos luxuosos Mercedes, Panhard ou Napier europeus do mesmo período. Mais de um século depois, os raríssimos exemplares sobreviventes continuam sendo vistos não apenas como carros antigos, mas como verdadeiras obras-primas da engenharia pioneira dos Estados Unidos.