STUTZ 4E BEARCAT (1914): O RUGIDO AMERICANO ANTES DA PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL
Voltemos aos Estados Unidos de 1914, quando o automóvel ainda era uma máquina relativamente nova e dirigir significava enfrentar estradas precárias, mecânica rudimentar e uma boa dose de coragem. Foi nesse cenário que a Stutz construiu um dos automóveis mais emblemáticos da primeira era esportiva americana: o 4E Bearcat. Nascido diretamente da experiência da marca nas pistas, o Bearcat combinava uma mecânica robusta com uma carroceria extremamente simples, tornando-se uma das primeiras máquinas americanas de rua concebidas deliberadamente com espírito de carro de competição.
A história começara poucos anos antes, em Indianapolis. Harry C. Stutz havia fundado sua empresa em 1911 e, naquele mesmo ano, levou um de seus automóveis à primeira edição das 500 Milhas de Indianápolis. O carro terminou em 11º lugar, com média de 68.25 mph (109.8 km/h), resultado que proporcionou ao jovem fabricante uma enorme exposição e originou o famoso slogan “The Car That Made Good in a Day”. O desempenho nas pistas rapidamente passou a fazer parte da identidade da Stutz e, em 1912, um Stutz participou de nada menos que 30 competições, vencendo 25 delas.
O Bearcat nasceu justamente dessa filosofia. A primeira versão de produção apareceu em 1912 e era, essencialmente, uma interpretação para as ruas do carro de competição da Stutz: entre-eixos encurtado, dois lugares, carroceria mínima e mecânica de elevado desempenho para a época. O modelo utilizava uma distância entre eixos de aproximadamente 3.05 metros, contra 3.30 metros dos Stutz convencionais. A carroceria aberta, com para-lamas, faróis, pequeno para-brisa dianteiro e tanque de combustível cilíndrico instalado atrás dos bancos, deixava clara sua vocação esportiva.
Para 1914, a designação Series 4E identificava o Bearcat equipado com o grande motor Wisconsin de 4 cilindros. Tratava-se de um propulsor T-head de aproximadamente 6.4 litros, com bloco e cabeçote de ferro fundido. A potência é normalmente indicada em torno de 50 a 60 cv, dependendo da fonte e da especificação considerada; catálogos e registros históricos associam o 4E a cerca de 50 cv, enquanto referências técnicas do Bearcat 1914-1917 apontam 60 cv a 1.500 rpm. O torque abundante em baixíssimas rotações era uma das principais características daquele enorme quatro-cilindros.
A transmissão era outro elemento extraordinário. Em vez de uma caixa convencional montada atrás do motor, Harry Stutz utilizava uma transaxle traseira manual de 3 velocidades, reunindo transmissão e diferencial em um único conjunto. A solução ajudava na distribuição de peso e era tecnicamente muito avançada para 1914. A força chegava às rodas traseiras, enquanto a suspensão utilizava eixos rígidos e feixes de molas semielípticas. Os freios, como era comum naquele período, atuavam mecanicamente sobre as rodas traseiras.
A filosofia do Bearcat ficava ainda mais evidente quando se observava sua carroceria. Não havia preocupação em esconder a mecânica ou oferecer o isolamento de um automóvel de luxo. Os dois ocupantes ficavam expostos ao vento, sentados em bancos individuais, com o grande tanque de combustível logo atrás. A própria Stutz descrevia o modelo como destinado ao cliente que desejava um automóvel construído nos moldes de um carro de corrida, mas adequado ao uso nas ruas. Era, em essência, uma máquina de competição domesticada apenas o suficiente para circular fora das pistas.
A Series E, introduzida em 1913 e ainda presente em 1914, trouxe importantes equipamentos que tornavam o Bearcat mais utilizável no cotidiano, entre eles iluminação elétrica e partida elétrica. O comprador também podia optar pelo motor de 6 cilindros mediante pagamento adicional, enquanto rodas de arame eram oferecidas como equipamento opcional. Os catálogos da época indicavam cores como Yellow, Vermillion, Monitor Gray e Mercedes Red, esta última particularmente associada à imagem esportiva do modelo.
Com aproximadamente 1.134 kg, o 4E estava longe de ser um automóvel pequeno pelos padrões atuais, mas sua combinação de peso relativamente contido, grande cilindrada e curta distância entre os eixos resultava em desempenho impressionante para a época. Referências técnicas atribuem ao Bearcat uma velocidade máxima próxima de 130 km/h, número extraordinário quando as estradas pavimentadas ainda eram exceção e quando poucos automóveis conseguiam sustentar velocidades elevadas por longos períodos.
O sucesso esportivo da Stutz continuaria a alimentar a reputação do Bearcat. Em 1913, um Stutz terminou a Indy 500 em terceiro lugar, e a marca posteriormente formaria seu famoso White Squadron, que conquistaria importantes vitórias nas competições americanas. Em 1915, o piloto Erwin ‘Cannon Ball’ Baker também ajudaria a transformar o Bearcat em lenda ao cruzar os Estados Unidos de San Diego a New York em 11 dias, 7 horas e 15 minutos, estabelecendo um recorde que décadas mais tarde inspiraria o nome da famosa Cannonball Run.
O Stutz 4E Bearcat 1914 representa, portanto, uma época em que a diferença entre um automóvel de rua e um carro de corrida era extraordinariamente pequena. Seu enorme quatro-cilindros de quase 6.4 litros, a transaxle traseira, a carroceria aberta e a postura agressiva faziam dele uma das máquinas mais excitantes que um condutor americano poderia comprar naquele momento. Mais do que um modelo de sucesso, o Bearcat ajudou a estabelecer uma ideia que se tornaria fundamental para a indústria americana: um automóvel esportivo poderia nascer diretamente das pistas e levar para as estradas parte do espírito - e da brutalidade - de um carro de competição.
Não por acaso, mais de um século depois, o nome Bearcat continua associado à própria imagem do primeiro grande período dos sports cars americanos. Um exemplar original do 1914 Stutz 4E Bearcat chegou a alcançar 2.92 milhões de dólares em um leilão da Gooding & Company, em 2021, mostrando que aquela combinação de simplicidade mecânica, história esportiva e personalidade continua exercendo enorme fascínio entre colecionadores.