STUTZ MODEL BB VERTICAL EIGHT TOURING (1928): O ESPORTIVO DE LUXO QUE UNIU DESEMPENHO, INOVAÇÃO E SOFISTICAÇÃO NA ERA DO JAZZ
No final da década de 1920, poucos automóveis americanos conseguiam reunir esportividade, luxo e tecnologia de maneira tão convincente quanto o Stutz Model BB Vertical Eight Touring de 1928. Produzido pela lendária Stutz Motor Car Company, de Indianápolis, este elegante Touring representava o auge de uma filosofia que colocava a engenharia à frente da produção em massa. Enquanto muitos fabricantes concentravam seus esforços no conforto ou na potência, a Stutz buscava oferecer ambas as qualidades em um único automóvel, criando um dos mais respeitados carros de alto desempenho dos Estados Unidos no período que antecedeu a Grande Depressão.
A história do Model BB começou dois anos antes, em 1926, quando a Stutz apresentou sua revolucionária linha Vertical Eight. Sob a liderança do engenheiro e executivo Frederick E. Moskovics, a empresa decidiu abandonar seus tradicionais motores de 4 cilindros e desenvolver um moderno 8 cilindros em linha que recolocasse a marca entre as mais avançadas do mundo. O projeto foi conduzido pelo engenheiro suíço Charles Greuter, responsável por criar um propulsor extremamente sofisticado para os padrões da época. O sucesso foi imediato, e a Série BB, lançada em 1928, representou o aperfeiçoamento natural da pioneira Série AA.
O coração do Model BB era um refinado motor de 8 cilindros em linha de aproximadamente 4.9 litros, equipado com comando de válvulas único no cabeçote (SOHC), uma solução extremamente avançada para um automóvel americano da década de 1920. O motor possuía nove mancais principais no virabrequim, dupla ignição e respirava através de um eficiente carburador, desenvolvendo cerca de 92 a 95 cv de potência, dependendo da configuração adotada. Mais importante do que os números era sua impressionante suavidade de funcionamento e a capacidade de manter velocidades elevadas durante longas viagens sem esforço aparente.
Toda essa mecânica era instalada sobre o inovador chassi conhecido como ‘Safety Stutz’, considerado um dos mais modernos de seu tempo. Diferentemente da maioria dos concorrentes, o chassi possuía centro de gravidade mais baixo, proporcionando maior estabilidade em curvas e excelente comportamento em altas velocidades. A suspensão utilizava eixos rígidos com molas semi-elípticas cuidadosamente calibradas, enquanto os modernos freios hidráulicos Lockheed nas quatro rodas, assistidos por servo, garantiam capacidade de frenagem muito superior à encontrada em boa parte dos automóveis americanos da época. Essas características fizeram da Stutz uma referência em segurança e dirigibilidade, muito antes de esses conceitos se tornarem prioridade para a indústria.
A carroceria Touring era uma das mais elegantes disponíveis na linha BB. Projetada para transportar cinco ocupantes com conforto, apresentava o tradicional layout aberto, com capota de lona rebatível, quatro portas e amplo espaço interno. Os longos para-lamas curvos, o capô estreito e comprido, os estribos laterais e o radiador vertical cromado conferiam ao automóvel uma presença marcante, complementada pelas rodas raiadas de grande diâmetro e pelos estepes montados lateralmente. Era um carro que transmitia dinamismo mesmo quando estacionado.
Internamente, o Touring combinava funcionalidade e requinte. Bancos amplos revestidos em couro de excelente qualidade, acabamento em madeira nobre, instrumentos completos e comandos cuidadosamente distribuídos proporcionavam um ambiente refinado para condutor e passageiros. Embora fosse um automóvel de vocação esportiva, o conforto nunca foi negligenciado, tornando-o igualmente adequado para longas viagens pelas modernas rodovias americanas que começavam a surgir no final da década de 1920.
Uma das grandes virtudes do Model BB era justamente sua versatilidade. Enquanto muitos carros de luxo privilegiavam exclusivamente o conforto, a Stutz fazia questão de manter viva sua tradição nas competições. O mesmo conjunto mecânico que equipava o Touring servia de base para versões esportivas como o célebre Black Hawk Speedster, capaz de superar as 100 mph (160 km/h), desempenho extraordinário para um automóvel de produção naquele período. Essa reputação esportiva refletia diretamente sobre toda a linha Vertical Eight, inclusive sobre os elegantes modelos Touring.
A excelência técnica da Stutz também foi comprovada nas pistas. Os modelos Vertical Eight conquistaram importantes vitórias em provas de resistência e campeonatos norte-americanos de carros de produção. Em 1928, um Stutz Black Hawk alcançou um notável segundo lugar nas 24 Horas de Le Mans, o melhor resultado obtido por um automóvel americano na tradicional corrida francesa até meados da década de 1960. Esse desempenho consolidou a imagem da marca como fabricante de automóveis rápidos, robustos e extremamente confiáveis.
Entretanto, apesar de toda a qualidade de seus produtos, a Stutz enfrentava um mercado cada vez mais competitivo. Marcas como Cadillac, Packard, Lincoln e Duesenberg disputavam o exigente segmento de luxo americano, obrigando a empresa de Indianápolis a investir continuamente em tecnologia e exclusividade. A chegada da crise econômica de 1929 reduziria drasticamente a demanda por automóveis desse nível, comprometendo o futuro do fabricante.
Hoje, o Stutz Model BB Vertical Eight Touring de 1928 é reconhecido como um dos grandes automóveis clássicos da indústria norte-americana. Os poucos exemplares preservados demonstram a extraordinária qualidade de construção da Stutz e representam uma época em que desempenho, engenharia sofisticada e elegância artesanal caminhavam lado a lado.
Mais do que um luxuoso Touring, o Model BB simboliza o momento em que a Stutz atingiu a maturidade técnica de sua história. Com seu avançado motor de 8 cilindros, seu inovador chassi ‘Safety Stutz’ e sua refinada carroceria aberta, ele permanece como um dos mais brilhantes representantes da idade de ouro do automóvel americano, uma máquina criada para oferecer prazer ao volante sem abrir mão do luxo e da excelência mecânica.