TRIUMPH 8C DOLOMITE (1934): A RESPOSTA BRITÂNICA AO LENDÁRIO ALFA ROMEO 8C
Poucos automóveis britânicos dos anos 1930 conseguem reunir em uma mesma história tanta ambição, engenharia e exclusividade quanto o Triumph 8C Dolomite de 1934. Nascido em uma época em que a indústria britânica ainda procurava um sucessor para os grandes esportivos que haviam colocado o país no mapa das competições internacionais, o Dolomite foi concebido para enfrentar diretamente os extraordinários esportivos italianos - sobretudo o Alfa Romeo 8C 2300, então uma das máquinas de competição mais respeitadas do mundo. O resultado foi um dos projetos mais fascinantes e raros da história da Triumph, com apenas três chassis construídos.
A iniciativa teve como principal força Donald Healey, então uma das figuras mais importantes do departamento esportivo da Triumph. Impressionado pelo desempenho do Alfa Romeo 8C, Healey e seus colaboradores estudaram detalhadamente um exemplar italiano e desenvolveram um automóvel britânico inspirado em sua arquitetura. A própria Alfa Romeo teria recebido a iniciativa de maneira favorável, e Healey chegou a conversar em Milão com o engenheiro Vittorio Jano, responsável pelo projeto do 8C. Embora visualmente e conceitualmente próximo do italiano, o Triumph utilizava dimensões imperiais e uma engenharia adaptada às possibilidades da Triumph.
O coração do Dolomite era simplesmente extraordinário para um automóvel britânico de 1934: um motor de 8 cilindros em linha de 1.990 cm³, com dois blocos de 4 cilindros unidos e dois eixos de comando de válvulas no cabeçote, acionados por um conjunto central de engrenagens. O motor utilizava construção em ligas leves, incluindo componentes em Hiduminium e Elektron, e recebia um supercompressor Roots, combinação que permitia alcançar aproximadamente 140 cv a 5.500 rpm. Para um propulsor de apenas 2.0 litros, tratava-se de uma cifra impressionante.
A arquitetura do chassi também refletia a preocupação em manter o peso sob controle. A estrutura utilizava longarinas de aço prensado, eixo dianteiro rígido e molas semielípticas nas quatro rodas. A suspensão traseira e a distribuição das massas foram cuidadosamente trabalhadas, com Healey buscando não apenas velocidade em linha reta, mas também estabilidade e comportamento esportivo. O automóvel recebeu ainda freios hidráulicos Lockheed, com enormes tambores de 406 mm, enquanto a transmissão era uma sofisticada caixa Armstrong Siddeley-Wilson pré-seletiva de 4 velocidades.
A carroceria de dois lugares seguia claramente a escola dos grandes esportivos europeus da época. O longo capô escondia o sofisticado oito-cilindros, enquanto a cabine recuada e a traseira curta davam ao Dolomite uma postura agressiva. O conjunto tinha 2.642 mm de entre-eixos, aproximadamente 1.000 kg em ordem de marcha e uma configuração concebida muito mais para desempenho do que para utilização cotidiana. Em testes realizados em Brooklands, o carro demonstrou potencial para ultrapassar 110 mph, cerca de 177 km/h, e a Triumph chegou a apresentar o modelo como um esportivo capaz de atingir pelo menos 100 mph em configuração de estrada.
O preço, entretanto, ajudava a explicar sua extrema exclusividade. No Salão de Olympia de 1934, o chassi era anunciado por cerca de £1.050, enquanto um automóvel completo de dois lugares chegava a £1.225. Para colocar a cifra em perspectiva, um pequeno Ford novo podia custar aproximadamente £100. Era, portanto, um automóvel extraordinariamente caro, e sua complexidade mecânica também tornava improvável qualquer produção em série. A Triumph acabou abandonando o projeto em meio às dificuldades financeiras que atingiriam a empresa.
Mas o Dolomite ainda teria uma história de competição digna de um carro concebido para desafiar a Alfa Romeo. Em 1935, Donald Healey levou um dos exemplares ao Rally de Monte Carlo, mas a aventura terminou dramaticamente na Dinamarca, quando o automóvel foi atingido por um trem ao tentar atravessar uma passagem de nível. Healey e seu navegador escaparam com vida, mas o carro ficou destruído. Posteriormente, o Dolomite foi reconstruído utilizando outro chassi e voltou ao Monte Carlo em 1936, quando conseguiu terminar em oitavo lugar geral, sendo o carro britânico mais bem colocado naquela edição.
Depois que a Triumph encerrou o projeto, chassis, motores e componentes restantes passaram por diferentes mãos e alguns foram posteriormente transformados em automóveis completos pela High Speed Motors, utilizando carrocerias construídas pela Corsica. É justamente por isso que a história dos exemplares sobreviventes é particularmente complexa: dos três chassis originais, apenas uma pequena quantidade de carros completos acabou existindo ao longo do tempo, tornando o 8C Dolomite um dos verdadeiros unicórnios da era pré-guerra.
O Triumph 8C Dolomite de 1934 foi, em essência, uma tentativa extraordinariamente ousada de provar que a Inglaterra ainda podia construir um grande esportivo capaz de enfrentar os melhores automóveis continentais. Não teve produção comercial nem oportunidade de conquistar as pistas em quantidade, mas sua combinação de 8 cilindros, duplo comando, supercompressor, construção leve e tecnologia pré-seletiva o transforma em uma das criações mais extraordinárias - e obscuras - da Triumph antes da Segunda Guerra Mundial. Um verdadeiro capítulo perdido da história dos grandes esportivos britânicos.